
Mystic Ball foi um filme que eu vi depois de um dia super cansativo. Eu estava exausta e achei que fosse dormir no cinema. Mas a história era tão cativante que manteve meus olhinhos pendentes bem abertos e impressionados.
Um canadense chamado Greg Hamilton (diretor e ator principal) descobre um jogo, o chinlone, e se apaixona perdidamente por tudo o que ele proporciona. E resolve ir até o seu berço, Myanmar (antiga Birmânia), para aprender tudo sobre o esporte tradicional local. Chegando lá, descobre que jogar chinlone é uma atividade constante: em toda esquina, em todas as faixas etárias, sexos, raças, momentos do dia. É mais ou menos como o nosso futebol. Mas só nesse sentido: de tradição.
O filme é, na realidade, um documentário sobre Greg descobrindo e aprendendo o chinlone. Misturando esporte, dança e jogo de time, o chinlone é praticado com uma bola vazada feita de pedaços de bambu torcidos e pintada de branco, que é jogada pro alto (à primeira vista, parecem embaixadinhas, mas é muito mais que isso) de várias formas possíveis, sendo que ela encosta em todas as partes do pé e em algumas partes do corpo. Pode ser jogado individualmente ou em grupo, mas com outras pessoas parece fazer muito mais sentido.

O mais legal é que nesse esporte não há vencedores, não há perdedores, não existe disputa, nem “nós contra eles”. A meta é unir os participantes de forma que todos se ajudem a manter a bola no ar pela maior parte de tempo possível. Pra isso, é preciso um certo transe, uma sintonia total das mentes envolvidas, parecido com o que se consegue na meditação zen. E o objetivo primordial é criar beleza. Achei aquilo um troço tão bonito: a forma como se joga, a alegria que gera; uma forma de arte. Uma manifestação artística dinâmica, física e espiritual.
Uma vez por ano em Myanmar acontece o Festival de Chinlone, durante o qual vários grupos se apresentam em oferenda a Buda e uma arena fica lotada de gente (monges ou não) assistindo. Quando Greg começou a se apresentar, a lona ficou ainda mais abarrotada, ele virou a sensação e cada vez que ele tocava na bola sem deixá-la cair ou zuní-la (o que era bem comum já que o jogo é super difícil pra quem não o pratica desde que nasceu), a platéia aplaudia e ovacionava, porque nunca nenhum estrangeiro tinha jogado chinlone em Myanmar. Era uma graça. Ele começou a voltar todo ano e a se apresentar com equipes diferentes e a se sentir muito mais em casa do que no Canadá. Ele ficou super conhecido por lá e até ganhou um troféu por ser o primeiro estrangeiro a se apresentar. Segundo alguns amigos birmaneses, Greg devia ter sido um grande jogador de chinlone numa encarnação passada.

O curioso é que o diretor estava presente na sessão e falou, lá na frente, que ele não se conformava com o fato do chinlone existir e do resto do mundo simplesmente não fazer a menor idéia. Então você via um documentário, logo, uma história real de uma grande parte da vida de um cara e, ao sair do cinema, encontrava esse mesmo cara, o próprio Greg Hamilton logo ali, sorrindo pra você. Era uma sensação bem esquisita.
Bem, como chinlone é um jogo e, por definição, cheio de movimento, nada melhor do que o trailer pra se ter uma idéia dos nuances e por que é tão bonito:




