Calma, não desista do blog só porque esse é um post sobre Lost e você não agüenta mais ouvir falar nessa série maldita. Prometo tentar ser agradável.
Então eu assisto Lost junto com os EUA porque tenho alguma desordem psico-motora e não agüento esperar o AXN, que costuma ter um atraso de uns 4 meses em relação aos americanos. Passa lá na ABC 4ª feira à noite e 5ª de manhã já começamos a baixar pela internet.
O plot não é nada original: o vôo 815 Sidney – Los Angeles cai numa ilha deserta, de localização indeterminada (1ª pergunta de Lost), e grande parte dos passageiros, que incrivelmente se safaram com alguns poucos arranhões (2ª pergunta de Lost), descobrem que o lugar tem mais mistérios do que pode supor a vã filosofia de qualquer um deles. Analisando o resumo assim, friamente, parece que todo mundo já viu esse filme e que vai ser mais um desses mistérios clichés com sci-fi tosco e meninas gritando, alucinadas. Mas não, não e não. A série é suficientemente bem feita pra justificar todo o frenesi mundial em torno.
Assim, a gente vai perdendo a conta da quantidade de perguntas que a trama vai deixando, numa proporção infinitamente maior às que são respondidas. No meio disso tudo, a gente vai conhecendo os personagens, que são densos e bem construídos. E verossímeis: covardes, generosos, determinados, hipócritas, preconceituosos, ambiciosos, etc e tal. Dá pra encaixar perfis de gente real em cada um deles. Por exemplo, o trio protagonista. O Jack é o médico, altruísta, sensível. E convive com uma culpa inata, uma culpa, uma culpa, que vai aumentando ao longo da vida e faz com que ele sinta necessidade de compensar o mundo inteiro. Você conhece gente assim. O Sawyer é sarcástico, inescrupuloso, mal caráter, construído pelas circunstâncias, o típico produto de uma seleção natural (social?) cruel, que precisou se provar adaptado ao nada que lhe restou pra que conseguisse sobreviver. Assim fica fácil de separar os estereótipos antagônicos. O Jack é pureza, ingenuidade, reúne qualidades humanas um tanto quanto nobres. Branco. O Sawyer representa a traição, o egoísmo total e absoluto, a ausência de ética e moral: tudo o que o homem tem de ruim. O preto. Mas a Kate. A Kate é difícil. Porque ela é cinza. E é de Kates que o mundo está cheio.
E (muito bem) entretidos com disputas de liderança, cumplicidade incondicional, eventos misteriosos, o eterno duelo fé X ciência, cenários paradisíacos e pontos de interrogação, os fãs (detesto essa palavra e toda a alienação que ela abriga, mas na falta de uma melhor…) se organizam e vão pesquisar na rede. Sobre nanorobôs, mitologia grega, atlantis, parapsicologia, caixa de skinner, arqueologia, alucinações, eletromagnetismo, guerra fria, etc. Procuram sobre qualquer assunto em que a série tangencia e depois postam informações interessantes e teorias mirabolantes em fóruns mundo (virtual) afora.
Mas, papo de tiete (outro verbete terrível) à parte, Lost usa todas as armas de que dispõe pra conquistar audiência. E de uma forma que até então não tinha sido explorada tão intensamente. São descobertos na Internet sites relacionados à trama. Que, por alguns microsegundos, fazem a gente esquecer que é tudo ficção. O site da companhia aérea do avião que caiu, de empresas mencionadas no seriado e até mesmo do laboratório que produziu o teste de gravidez que uma das personagens usa, num determinado episódio. Os produtores são espertos a esse ponto. Num determinado capítulo a gente finalmente descobre o nome verdadeiro de um líder misterioso. Termina o episódio e resolve-se digitar nome e sobrenome do cara no google. Sua pesquisa durou 0.18 segundos. E o primeiro link (oh, sponsored!) nos leva a uma página muito suspeita de uma empresa (fictícia) anteriormente mencionada no seriado. O mais divertido é que esses sites são bem feitos ou toscos, de acordo com a conveniência. Tudo pra deixar todo mundo ligado no seriado entre um episódio e outro, entre uma temporada e a seguinte. E é assim que a série fatura milhões e milhões. De fãs e de dólares.
Mas fato é que os produtores têm um dilema agora, em plena 3ª temporada, quando todo mundo cobra respostas. Ou entregam as chaves do quebra-cabeça de bandeja e se vêem com telespectadores desinteressados, abandonando o vício (como ocorreu em Twin Peaks); ou começam a responder as coisas em doses super homeopáticas e acabam caindo na armadilha do absurdo incoerente e decepcionam a audiência (como foi com X Files). Será que eles acham um terceiro caminho?
Se não se venderem totalmente aos interesses da ABC em manter a audiência a qualquer custo e se continuarem direcionando a atenção à resolução das questões emocionais e às relações humanas, ao invés de abusarem do truque de colocar e tirar peças do quebra-cabeça o tempo inteiro, todo mundo sai feliz. Porque, em séries compridas cheias de mistério, fato é que quanto mais tempo se mantém aceso o interesse das pessoas, mais elas se apegam à mitologia da trama e mais decepcionadas elas ficarão quando ela terminar, não importa de que forma. Estabelecer laços: é sobre isso que é a vida e, portanto, é com isso que a gente consegue se relacionar.
Apesar dos problemas inerentes, Lost é isso tudo, sim. Porque o que acaba importanto mesmo é a viagem, e não o destino.
Se você nunca viu um episódio e não sabe, não quer saber e tem raiva de quem saiba, dê uma chance aos Perdidos (nome em espanhol:).
50 milhões de pessoas não podem estar erradas.
Caso alguém tenha o interesse de se expor, tenho o box oficial da 1ª e 2ª temporada completas. Mas aviso: pode ser caminho sem volta.








