Estou numa fase de saturação com pessoas profissionalmente frustradas. Eu sei: em primeiro lugar, é malvado da minha parte, e em segundo, quem sou eu pra julgar as decepções dos outros? Concordo. Mas, apenas constatando, eles estão em todo lugar. Queria falar de outras carreiras também mas como a medicina é a minha realidade fico meio inevitavelmente monotemática. De qualquer forma, aposto que isso se extende pra todas as profissões.
O que eu não consigo entender é o seguinte: se o sujeito não gosta do que faz, por que continua naquela vida? (Tá bom, existem várias variáveis e nada é tão simples e a vida não tem só duas cores e aquele papo todo). Mas continuo acreditando que nunca é tarde demais e que eu, se não estiver feliz com o que fizer, compro uma barraquinha de sorvete e vou vender picolé na praça. E tenho uma vontade enorme de sugerir a todos esses que só fazem reclamar que façam o mesmo.
A cada dia mais tenho certeza de que a gente tem que se cercar de pessoas felizes com aquilo que fazem. Isso, logicamente, independe da condições financeiras. Que gosto que dá quando alguém diz: eu amo o que eu faço. Não importa se é workaholic, se se aperta no final do mês pra pagar as contas, se é escravo do tempo, se faz questão de dar um mergulho na praia todo dia, se mesmo quando viaja de férias leva o trabalho junto. Sou, como a maior parte das pessoas do mundo, a favor de que se encontre sempre o equilíbrio. Mas nada (a)paga aquela paz de espírito que a pessoa tem quando está feliz com aquilo que trabalha. Isso anima quem está começando, dá uma energia, acende uma esperança morninha no inóspito e inquietante futuro incerto.
Aproximar-se dos realizados é consenso. Mas o que fazer com os frutrados? A maior parte dos que eu conheço são inveterados. Daqueles que já ficaram tão duros dentro daquele molde que é impossível convencê-los de que, se a vida não vai bem, todo mundo tem direito de mudar pra conseguir ser feliz. Ou então de que é preciso encarar as coisas de uma forma menos rígida… São como discos arranhados em vitrolas quebradas. Então é difícil mesmo conviver com eles. Mas eu costumo tentar e, se tudo mais falhar, mudo de assunto.
Tem um cara que eu admiro porque é um cara bom. Competente e responsável. E depois do expediente sempre tomamos um mate na lanchonete antes de cada um encarar seu próprio trânsito até em casa. Só que tenho cada vez mais vontade de ir pro engarrafamento com sede mesmo. Porque só escuto lamentações. Sobre como o feedback demora muito pra vir; como o mercado está ruim; como tudo é ruim e ninguém presta; sobre como as pessoas desconfiam dos inexperientes e, mesmo que eles sejam competentes, acabam preferindo os mais velhos (“ah, não vale à pena, não.. ficar batendo a cabeça por aí, o cara é um merda e ganha o mesmo que eu”). O que eu queria dizer era:
WAKE UP! Isso é a sua vida! O que você vai fazer a respeito? Você pode mudar radicalmente. De emprego, de cidade, de país. Mas talvez isso não resolva o seu problema. Você pode mudar pequenas coisas porque tudo depende da forma como você encara a vida. Primeiro, negatividade afasta as pessoas. Você não pode falar só sobre os problemas e as desvantagens de alguma coisa. Será que não tem lado bom nessa profissão? Frustração afasta todo mundo: cliente, mulher, marido, amigos. Guardar os elogios e descartar as critícas (não construtivas) pra não virar alguém repulsivo, amargo, deprimente. E, segundo, não julgar os outros mesmo em atitudes incompreensíveis; é um exercício constante, não é? Afinal, você não está aqui pra julgar ninguém. Você está aqui pra viver a vida da melhor forma possível. Quer dizer, você eu não sei. Eu, pelo menos, estou aqui pra isso.
Além do que as pessoas têm todo o direito de preferir pessoas mais bonitas ou mais feias, mais jovens ou mais experientes pra qualquer tipo de trabalho. Cada um tem as suas razões pra escolher esse ou aquele profissional. Talvez você faria o mesmo no lugar desses clientes, fregueses, pacientes. E, se você for gastar o seu tempo reclamando que a pessoa preferiu o concorrente, significa que você não sabe aproveitá-lo direito. Porque, se competir é essencial, então entre em campo pensando no seu próprio desempenho. Penso que nada que é sincero vem de graça; até aos amigos a gente tem que se dedicar. Com clientela não poderia ser diferente; penso que você tem que investir em você pra que o resto do mundo ache que vale à pena fazer o mesmo. Poxa, vá aprimorar sua formação, fazer cursos, participar de simpósios, de pesquisas, saia do país, faça contatos e, caramba, seja mais positivo de uma forma geral. Existem tantos caminhos pra melhorar. Mas o lance é que é sempre muito mais fácil reclamar e tomar mate do que mudar e tomar decisões.
Mas, né, eu sou uma pirralha. Não posso sair dizendo essas coisas por aí.
Tanta negatividade pode ser contagiosa (será que pega?), deixa a gente meio pesada. Então tem vezes em que sinto muito, mas não, obrigada, não quero ouvir as suas queixas; me faz mal, fico com medo (pai, tem um bicho no meu quarto). Por isso que gosto tanto quando algum professor diz que ama o que faz e realmente sabemos que ele diz a verdade. Tendo a achar que poucas coisas são melhores do que isso.