tomar chá de cadeira do detran não é nada agradável.
primeiro, eu tive o azar de ter uma carteira de identidade que vence a cada 4 anos. poxa, será mesmo tão necessário assim provar que eu sou eu e que ainda existo de quatro em quatro anos? de qualquer modo, isso é algo tão irritante que meu rg estava vencido desde 2002 e, desde então, pra evitar o duda e um dia inteiro perdido no detran, só uso minha carteira de motorista quando tenho que provar, burocraticamente, que eu sou eu. só que esse é um ano de muitos concursos e eu não queria dar mais um azar de passar pra algum lugar e exigirem minha carteira de identidade original e ela não ser aceita por estar vencida. nunca se sabe até que ponto as pessoas podem ser burrocratas. então, por via das dúvidas, melhor não arriscar.
então resolvei aproveitar as férias (?) pra resolver mais essa pendência. munida da minha certidão original e xérox, duda pago e foto 3×4 fui até o posto do detran mais próximo da minha casa. e, claro, como não podia deixar de ser, só pra tornar essas coisas ainda mais sacais: “o detran da barra não tem mais posto de identificação civil, senhora.”
no dia seguinte fui no detran de copacabana.
precisa dizer?
um inferno: um lugar desproporcionalmente pequeno pra quantidade de pessoas ali confinadas. as poucas cadeiras, ocupadas. o ar condionado, quebrado. filas e mais filas desorganizadas, cada uma pra uma coisa diferente. e o melhor: muitas goteiras. o teto parecia uma peneira que me fazia pensar se aquilo, ao invés de ser só efeito da chuva dos últimos dias, não seria por causa de alguma piscina no segundo andar.
era assim: primeiro tinha que pegar uma senha. (isso, obviamente, depois de perguntar o que fazer pra mocinha atrás do computador, atolada de trabalho e de gente pedindo informações diversas. era essa mocinha que entregava a senha.) aí esperei. e esperei mais um pouco. fui lá pra fora porque já começava a me sentir mal com o calor e porque não tinha tomado café direito. depois voltei. me chamaram. aí ela pegou meus documentos, confirmou meu endereço, telefone, animal favorito e matérias prediletas. e me disse assim: agora é só esperar que vão te chamar pelo nome. esperar? esperar pra quê? ué, pra fazer as digitais e pra tirar a foto. ah, mas eu trouxe uma foto. não, mas não vai servir, agora eles tiram na hora.
essa notícia não caiu nada bem. eu estava descabelada, passando mal e suada e com umas olheiras dignas de vestibulando pra medicina. fiquei disposta a usar todos os meus argumentos pra convencer a mulher lá de dentro a aceitar a minha 3×4, na qual eu estava descansada, de batom, corretivo e blush
mas mal sabia eu que essa espera duraria longos e intermináveis 90 minutos. escrevi um cartão, fiz uma lista mental de todas as coisas que vou ter que levar pro sul. mas haja lista mental pra 1 hora e meia. e, nisso, as filas aumentavam: as 4. uma pra entregar os documentos pra mulher do computador, outra pra fazer as digitais, outra pra pegar a identidade (felizardos que já passaram pelo calvário) e ainda tinha a fila do pessoal da habilitação. quando chamaram meu nome nem acreditei.
mostrei minha 3×4 pra mulher e ela topou deixar aquela na minha identidade nova! já gostei dela. aproveitei pra pedir pra tirarem meu nome desse negócio de carteira que fica vencendo. ela disse que não é ela quem decide, que isso acontece com as pessoas que têm alguma alergia na digital (???)
aí chegou a hora de fazer as digitais e não foi nada divertido. quer dizer, na hora foi até legal. sujar os dedos todos naquela placa preta e depois passar no papel. mas depois me mandaram ir ao banheiro limpar e o troço não saía de jeito nenhum. tinha um sabão que não se encaixava na minha definição de utensílio de higiene (daqueles que você olha e não sabe se é sabão ou o quê mas que é uma gosma de cor duvidosa toda suja de preto das mãos dos outros). eu fui corajosa e usei mesmo assim. mas não saía, o preto. desisti. e o pior é que tinha sujado irreversivelmente o meu esmalte
e depois de 2 horas de detran pelo menos me livrei dessa obrigação.
de lá, fui pra casa da heloísa. tinha ficado de passar na casa dela.
a heloísa é um parágrafo à parte. ela é uma das obstetras do meu plantão e é a versão brasileira da samantha, de sex and the city. loira, mais de 35 anos, bem sucedida, cheia de histórias engraçadas e completamente louca. escrachada, fala o que pensa, uma vez quase caiu na porrada em pleno refeitório com outra obstetra, seu desafeto. foi homérico. a heloísa é toda taqui e desbocada, mas é um luxo: é um mulherão, malhadora (gente, que corpo é aquele?), antenada, viajada, só usa umas roupas lindas e moderninhas. sinceramente acho ela um barato. como é que pode? a mulher é ótima médica, mãe dedicada, mora numa casa linda em ipanema e ainda é toda bonitona e poderosa. tal qual samantha, rouba todas as cenas e desperta tanto amor quanto ódio (afinal, toda charlotte queria no fundo mesmo era ser samantha). foi ela que eu tirei no amigo oculto do plantão. mas, enfim, cheguei lá e ela me deu abraço e tomamos mate e conversamos. já estou com saudades daquele pessoal do plantão. eram 3 obstetras, 3 anestesistas, 1 clínica, 3 acadêmicas. todas mulheres, falando sem parar sobre qualquer coisa. e o paulo, chefe do plantão, no meio. o paulo é um santo, como é que ele atura tanta mulher junta?
mas, enfim, cheguei em casa, almocei às 6 da tarde e tomei um bom banho. botei meu “strung out on ok computer” pra tocar. quem não ouviu deve. é um quarteto de cordas tocando o ok computer, do radiohead. as desse cd foram uma das últimas músicas que estudei com a minha professora de violino. o que me lembra que tenho tido a maior saudade do violino. quero voltar. e pro francês também.
mas o que importa mesmo é que o medcurso já começou, com todas aquelas infames apostilas e aulas semanais que vão até as 10:30 da noite. e esse ano eu sou formanda e.. como se diz? quando se faz vestibular se é vestibulando. e no ano em que se faz concurso pra residência, o que se é?
quem inventar um bom nome ganha um doce.


