
Tenho um bloqueio com a vida noturna.
Todo o ritual, todo o processo de começar a se arrumar às 10:30 da noite, só voltar às 4:30 da manhã (ou mais), tirar a maquiagem, tomar um banho e lavar o cigarro dos outros do cabelo, deixar a roupa numa sacola separada pra não empestiar as outras roupas, deixar a bolsa na janela pra ela tomar um arzinho e dormir um sono esquisito, meio pesado, meio culpado, meio com ouvido estourado e só acordar depois do meio-dia. Me parece tudo meio inorgânico e anti-circadiano. Fico me sentindo meio zumbi no dia seguinte e fico achando que devia ter aproveitado melhor o dia pra passear, estudar ou fazer qualquer outra coisa.
Mas os tempos estão mudando e, nos 2 últimos sábados, fui pra noitada (ou pra balada, como se dizem os curitibanos, à la paulista) com as meninas. Aliás, duas meninas solteiras de 29 anos são companhia certa pra sair à noite. E, no caso, da melhor qualidade, porque são divertidas e daquele tipo de gente que fazem a gente achar que já é amiga há um tempão. Esse lugar do último sábado era bem bacana, desses com um clima bom. Tocava só música anos 80. Quer dizer, só não, porque “Hung Up, Madonna” não é anos 80. Mas digamos assim: se meu amigo dj fosse apelar na fosfobox e tocasse a música mais famosa de cada banda indie ou 80’s seria mais ou menos o setlist ao qual a gente dançou no sábado. Ou seja, seleção musical bem decente. Tinha um lounge no mezzanino com varanda simpática. Agora, algo importante. Nessas badalações noturnas percebi uma coisa: contato ocular é a maior arma dos solteiros. Quando saímos pra parte que era aberta, sem barulho, pra beber alguma coisa, as meninas comentaram um ou outro menino que estavam olhando pra elas. Uma falou: “mas eu não consigo olhar de volta!” Eu me manifestei logo: mas você TEM QUE olhar de volta, você tem que fazer o contrário do que eu faço. Acho que não manter eye contact com alguém que olha pra você funciona bem pra mim porque parece que tenho um anel na mão esquerda. É uma atitude que traduz alguma coisa importante, é algo como: foi só uma coincidência que seu olhar cruzou o meu. E pronto. Assim se estabelece convivência pacífica com os solteiros quando não se é um deles.
Conheci recentemente 2 hospitais onde eu posso ir fazer residência: o Evangélico (é o hospital com maior número de leitos do estado, roda a ortopedia pediátrica no Pequeno Príncipe) e o H.C., que é da UFPR. Ambos bem simpáticos, pessoas idem. Sabe, gosto do fato de só ter homens na ortopedia. Não por qualquer interesse (vide parágrafo acima; ). Mas porque acho tão mais fácil lidar com os XY. Menos fofoca, menos falsidade, menos panelinha. Ah, meninas, convenhamos, nós somos (irresistivelmente) complexas.
Tenho estado muito amiga dos meus amigos daqui. Outro dia meu anjo da guarda me ligou, depois de 20 e tantos dias de sumiço (estava viajando). Fomos almoçar num lugar que ele disse que era o melhor peixe daqui. Teve uma hora em que lutamos contra uma abelha que queria a nossa comida e aí aconteceu um acidente com meu guaraná e o mate dele. Depois fomos passear no Bosque do Papa, que tem as casinhas que reproduzem as moradias antigas dos poloneses. E depois fomos encontrar uma amiga dele que estava se mudando ali pra perto e ela me fez perceber que eu não tenho problemas. Porque ela tem uns 4 anos a mais do que eu, tem 2 filhos de pais diferentes sendo que um ignora o filho e o outro tem a guarda provisória da filha e está numa briga hardcore na justiça pra conseguir a guarda permanente. E, como se já não fosse motivo suficiente, porque um cara que ela nem conhecia, um barbeiro honesto, humilde, trabalhador, casado e pai de 2 filhos, foi baleado e morreu nos braços dela um dia desses.
Essa semana fui tomar sorvete com uma amiga antiga, do Rio, que está morando aqui porque o noivo dela trabalha em Curitiba. Só que o sorvete virou um papo de 4 horas (quase uma mega-análise, na verdade, ela é psicóloga) na qual a gente falou sem parar sobre todos os aspectos das nossas vidas. Ufa. Tava precisando. Sabe como é.. na ortopedia só tem homem.
Ontem foi aniversário da menina que tem me levado pras nights: a filha do chefe. Já mencionei que ela é R3 de ortopedia n H.C.? Isso significa que ela não passa no Pequeno Príncipe, porque o H.C. e o Cajuru são os únicos que têm ortopedia pediátrica própria e, por isso, seus residentes não passam os habituais 6 meses no P.P. Mas, enfim, saímos do ambulatório, eu e o chefe e fomos pra casa dele jantar por lá. A Ana é tão divertida e, em 1 dia, acontecem com ela mil histórias mirabolantes (“tudo lorota”, diz o chefe, que parece ter assumido mesmo a minha figura paternal em curitiba, que fofo). Daí comemos filés gostosos que a mãe da Ana (que também é um barato) pediu e ficamos um tempão ouvindo e contando histórias mirabolates. E depois uma amiga da irmã mais nova da Ana (que é designer), bem bonita, amigável e japa, me trouxe até em casa.
No mais?
Acabou meu suco de uva natural sem conservantes. Ouço músicas que baixei. Atendo uns bebês que me olham fixamente e examino umas mãos muito pequenas. Sinto falta de ir ao cinema. Esqueci meu guarda-chuva no hospital. Gasto meu iluminador em textos médicos. Quase comprei uma revista de fofocas. Acho que encontrei uma manicure decente. Tento poupar gás e água. Varro a casa quando sinto vontade. Quero escrever cartas pros meus amigos. Minha cama é tão boa. Faço caminhos diferentes pra andar pelos mesmos percursos. Como umas coisas gostosas e não engordo. Atendo umas crianças tímidas e outras falantes, mas nenhuma é igual. Adoro cirurgia com transposições de tendões. Às vezes não consigo cortar ponto com a pontinha da tesoura. Às vezes bate uma saudade de casa. Mas sinto muito menos queimação no esôfago. Alguns pacientes têm bastante chulé. Quarta e quinta não tenho hora pra sair do hospital. Um dia desses vou cortar o cabelo. Quebrei um copo. Meu pai apareceu no fantástico e meu amigo, no jornal nacional. A Camila Pitanga tá feia nessa novela nova, o que não achei que fosse possível.
Bom fim de semana pra vocês.