
Fui assistir Proibido Proibir numa sessão especial a 3 reais, no shopping Crystal, que fica aqui pertinho. E, sabe, gostei. Gostei dos universitários que tem alguma coisa minha (o jeito de andar, as expressões, não sei, alguma coisa). Da periferia do Rio, que quase nunca aparece. Do triângulo amoroso . E do beijo ardente no final. Em alguns momentos dá um pouquinho de vergonha alheia, mas são raríssimos os filmes brasileiros que não carregam esses instantes. Mas, não sei, algo me pareceu familiar. Aquele sonho de melhorar o mundo, de ajudar pessoas, aquela preocupação que a gente tem com a conjuntura toda, seguida por aquela sensação de impotência, de que está tudo podre, que não existe ninguém a quem confiar a nossa proteção, os nossos valores, os nossos parâmetros de ética e justiça. Aprender a viver na marra, com os conflitos de realidade, e se desiludir vendo que não dá pra tapar o gigantesco buraco do mundo. Quando eu crescer e deixar de ser uma idealista é isso o que eu vou fazer, quando tudo parecer meio desprovido de paixão: ir ao cinema.
(E eu queria ser linda e hippie que nem a Maria Flor, nesse filme.)

Agora, capitalisticamente falando, tem gente mais chata que vendedor de loja?
Essas duas últimas semanas não sei o que me deu, mas andei comprando umas roupas em lojas que não tem no Rio. A conta do cartão me provoca uma certa ansiedade (pai, não fica bravo). Mas sabe quando você percebe que 90% das suas roupas tem mais tempo do que o seu namoro? E, no meu caso, vocês sabem né, isso é tempo. Então tenho entrado em algumas lojas e constatado, cada vez com mais convicção que vendedores são uma raça incômoda. Eu tô lá, olhando as blusas e começa o interrogatório. Já conhecia a loja? Não? Nunca tinha ouvido falar? Ah, você é de onde? Tá gostando da cidade? E o que uma carioca faz por aqui? Estágio em que área? Em qual hospital? Nossa, trabalhar com criança, que máximo, mas não dá uma peninha? E você quer se especializar em pediatria mesmo?
Caraca! Quem eles pensam que são? Meus amigos?
Bem, o que importa é que estou voltando com umas roupas que me deixaram contente.
E acho que meu casaco novo fez sucesso, porque recebi vários.. digamos.. elogios.. digamos… urbanos.
Fora isso, nem sei por onde começar de tão atolada que estou de coisas pra fazer até 6a feira. Tenho que escrever a carta de aviso de desocupação, pintar o apartamento, vender móveis, me despedir de pessoas, cancelar contas e fazer toda a mudança de volta. Talvez eu vá até Floripa ver o Flu jogar a final da Copa do Brasil, se meu tio me arranjar um ingresso, já que esgotou tudo em 1 dia. Senão vou ter que me amontoar em algum bar que, de preferência, não esteja cheio de figueirenses sem espírito esportivo. Que nem quando fui com o chefe ver o jogo do Atlético na Arena lotada e meu time eliminou o Furacão. Não comemorei nem nada (só quando cheguei em casa dei uns pulos). Mas ele mal me olhava no dia seguinte. Eu tinha me esquecido como os homens levam essas coisas à sério. É só futebol, sabe, eu adoro e não sei explicar por quê. Mas é basicamente isso. A paixão nacional.
Amanhã vai ter churrasco de despedida minha e dos residentes que, em 3 semanas, estarão voltando pros seus serviços de origem e o hospital estará recebendo a outra metade de residentes de ortopedia da cidade. Na verdade esse churrasco é uma tradição lá no hospital. É feito na chácara do meu querido chefe, ele inclusive manda matar um carneiro e sempre tem muita comilança e bebida pro pessoal se esbaldar e vão os outros chefes também. Mas esses residentes, não sei, andam meio desiludidos da vida. Eles não queriam ir (não sabia que eu estava tão sem prestígio!) mas aí o chefe foi lá e deu um esporro! Falou que não fazia a menor questão de que eles fossem na casa dele, que quem não quisesse ir que não fosse, mas que ele estava fazendo isso pra eles e que eles deviam ir nem que fosse pra se despedir da Fê, que ajudou tanto vocês no ambulatório e nas cirurgias. Fiquei até me sentindo mal.. Mas eles disseram que vão. Então, de repente, funcionou, né? Vamos ver como vai ser amanhã. Depois conto.
Quinta feira saí com as meninas. Todas médicas, óbvio. Os meus únicos 2 amigos não-médicos nessa cidade são o meu anjo da guarda, que é engenheiro de telecom, e a minha amiga que estudou comigo na escola e que veio pra cá por causa do noivo, ela é psicóloga. Mas, enfim, sexta feira estava destruída. E é tão especialmente difícil levantar no frio. Cheguei 7:20 no hospital, 20 minutos atrasada. O mais legal foi o olhar cúmplice que o residente que eu tinha encontrado (completamente bêbado) na night me mandou. Ele me disse, baixinho: “acho que ainda tô bêbado!” E ele ainda estava de plantão pelas próximas 24 horas! Fiquei o dia todo me sentindo um zumbi. Pensava o tempo todo: não sou feita pra vida noturna mesmo, tenho uma alma velha, que merda. Mas pelo menos atendi umas crianças fodas. Primeiro teve um bebê de7 meses que tinha uns olhos azuis que pareciam duas bolas de gude. O pediatra encaminhou pra gente porque estava suspeitando que o quadril estivesse fora do lugar. Depois atendi um recém-nato de 8 dias de vida que nasceu com 1 dedinho a mais no pé. Depois uma guria de 1 ano e meio com osteogênese imperfeita (aquela doença dos ossos de vidro, lembra do velhinho de Amélie?) que ficava me mandando beijos e tinha a risada mais gostosa. E depois uns 3 adolescentes bem gente boa. E o pior foi o meu casaco novo ter ficado empestiado com nicotina; quando é que vão passar aquela lei de N.Y. de não poder fumar em lugar fechado? Meu cabelo e minhas roupas agradeceriam imensamente. Assim como meus pulmões e bolsos, já que toda vez que saio no dia seguinte você pode me encontrar na lavanderia.
Hoje fiz janta e, enquanto isso, vi o último episódio de Felicity. Me lembrei de como achei que era o fim de uma era, quando vi aquele episódio pela televisão. Mas outras séries vieram, Sex & the City, Lost, Grey’s Anatomy… A mídia está sempre vendendo algo que a gente possa estar precisando consumir.
