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Mystic Ball

setembro 27, 2006

greg (ao centro, borrado, no ar) jogando chinlone com seus amigos de mandalay

Mystic Ball foi um filme que eu vi depois de um dia super cansativo. Eu estava exausta e achei que fosse dormir no cinema. Mas a história era tão cativante que manteve meus olhinhos pendentes bem abertos e impressionados.

Um canadense chamado Greg Hamilton (diretor e ator principal) descobre um jogo, o chinlone, e se apaixona perdidamente por tudo o que ele proporciona. E resolve ir até o seu berço, Myanmar (antiga Birmânia), para aprender tudo sobre o esporte tradicional local. Chegando lá, descobre que jogar chinlone é uma atividade constante: em toda esquina, em todas as faixas etárias, sexos, raças, momentos do dia. É mais ou menos como o nosso futebol. Mas só nesse sentido: de tradição.
O filme é, na realidade, um documentário sobre Greg descobrindo e aprendendo o chinlone. Misturando esporte, dança e jogo de time, o chinlone é praticado com uma bola vazada feita de pedaços de bambu torcidos e pintada de branco, que é jogada pro alto (à primeira vista, parecem embaixadinhas, mas é muito mais que isso) de várias formas possíveis, sendo que ela encosta em todas as partes do pé e em algumas partes do corpo. Pode ser jogado individualmente ou em grupo, mas com outras pessoas parece fazer muito mais sentido.

uma das apresentações da solista de chinlone mais famosa de myanmar

O mais legal é que nesse esporte não há vencedores, não há perdedores, não existe disputa, nem “nós contra eles”. A meta é unir os participantes de forma que todos se ajudem a manter a bola no ar pela maior parte de tempo possível. Pra isso, é preciso um certo transe, uma sintonia total das mentes envolvidas, parecido com o que se consegue na meditação zen. E o objetivo primordial é criar beleza. Achei aquilo um troço tão bonito: a forma como se joga, a alegria que gera; uma forma de arte. Uma manifestação artística dinâmica, física e espiritual.

Uma vez por ano em Myanmar acontece o Festival de Chinlone, durante o qual vários grupos se apresentam em oferenda a Buda e uma arena fica lotada de gente (monges ou não) assistindo. Quando Greg começou a se apresentar, a lona ficou ainda mais abarrotada, ele virou a sensação e cada vez que ele tocava na bola sem deixá-la cair ou zuní-la (o que era bem comum já que o jogo é super difícil pra quem não o pratica desde que nasceu), a platéia aplaudia e ovacionava, porque nunca nenhum estrangeiro tinha jogado chinlone em Myanmar. Era uma graça. Ele começou a voltar todo ano e a se apresentar com equipes diferentes e a se sentir muito mais em casa do que no Canadá. Ele ficou super conhecido por lá e até ganhou um troféu por ser o primeiro estrangeiro a se apresentar. Segundo alguns amigos birmaneses, Greg devia ter sido um grande jogador de chinlone numa encarnação passada.

Su Su fazendo uma oferenda a Buda, atraves da pratica de chinlone

O curioso é que o diretor estava presente na sessão e falou, lá na frente, que ele não se conformava com o fato do chinlone existir e do resto do mundo simplesmente não fazer a menor idéia. Então você via um documentário, logo, uma história real de uma grande parte da vida de um cara e, ao sair do cinema, encontrava esse mesmo cara, o próprio Greg Hamilton logo ali, sorrindo pra você. Era uma sensação bem esquisita.

Bem, como chinlone é um jogo e, por definição, cheio de movimento, nada melhor do que o trailer pra se ter uma idéia dos nuances e por que é tão bonito:

Trailer

A Grande Final

setembro 26, 2006

La Gran Final, de Gerardo Olivares

Uma das sinopses mais curiosas que já li: “Documentário sobre uma família de nômades na Mongólia, tuaregues do Saara e uma tribo de índios amazonenses que têm duas coisas em comum: vivem nos recantos mais distantes do planeta e estão determinados a assistir à final da Copa do Mundo do Japão, em 2002, pela TV”.

O horário batia com o meu e não tive dúvida: fui conferir e, olha, foi muito, mas muito mais divertido do que eu poderia supor.
Primeiro, os nômades que vivem nas montanhas geladas da Mongólia. Usavam roupas de esquimó, se transportavam através de uns bichos que pareciam umas lamas e tinham toda uma hierarquia: o avô (como se fosse o pajé), o pai (a equivalência do cacique), o tio, o primo e o narrador, um rapaz que não falava nada e usava uns fones no ouvido o tempo inteiro. O pai tinha uma mania esquisita de comprar (em Ulan Bator) e estocar coisas inusitadas como, por exemplo, uma canoa enorme (considerando que não tinha nenhum lago por perto) e, o melhor, sem remos! Tinha também uma coleção de patinhos de borracha que eram sagrados e ninguém podia mexer. Foram andando, junto com os vizinhos, em direção ao próximo lugar que lhes parecesse simpático ao acampamento (as tendas eram chiquérrimas por dentro, com mil tapetes, vasos, esculturas, não sei como eles conseguiam carregar e montar aquilo tudo). E aí fizeram um gato com uma fiação de rede elétrica pra que a tv pudesse funcionar. Eis que, no meio do nada, aparece um militar, com seus 2 oficiais, a cavalo (ou lama?) pra multar os nômades e dar bronca e dizer que eles não podiam fazer aquilo, não, que se eles quisessem usar a eletricidade do governo teriam que pagar tanto. Só que quando o polícia descobriu que aquilo tudo era pra ver a final da Copa, tudo mudou e ele inclusive ficou pra jogar uma pelada com os civis (!), tomar um chá e, enfim, ver o jogo.

Um nômade da Mongólia e sua águia caçadora

Os sheiks estavam com seus camêlos se locomovendo naquela imensidão amarela do deserto quando, de repente, passou um caminhão absolutamente lotado de gente se dirigindo em sentido oposto. Só que os árabes eram espertos: mostraram a tv a cores, convenceram o motorista de que o caminhão nunca chegaria no seu destino a tempo de ver o jogo e ele cedeu: foi todo mundo de caminhão pra um lugar que eles chamavam de “árvore”, que eles usariam como antena. Chegando lá, a árvore era um poste e um dos passageiros do caminhão perguntou pra um dos sheiks por que é que eles chamavam aquele lugar de “árvore”. E ele contou: “antigamente tinha uma árvore aqui, era a única árvore de todo esse deserto. Mas um dia um caminhão estava passando e não viu a árvore: bateu nela! E então construíram esse poste no lugar” (!)

Uns 5 índios amazonenses vidrados em futebol tinham uma tv velha jogada num canto da oca e precisavam de uma antena. Então, foram até uma serraria ali perto, no meio da mata, pé-ante-pé, pros homens brancos não ouvirem e não saírem de lá putos da vida atirando pra tudo que é lado. Encontraram uma parabólica da Directv e se mandaram de volta pro acampamento deles. Só que, na hora do jogo, a antena não funcionava direito e eles acabaram voltando pra serraria e ficaram lá na varanda, bem quietinhos, vendo o jogo através da tv dos homens brancos, que estavam lá dentro, torcendo. Mas na hora dos gols, poxa, foi tão engraçado, os índios entraram que nem uns doidos e todo mundo começou a se abraçar, índio e branco, e beber cerveja junto e comemorar e gritar e não tinha mais diferença. Eram só uns 10 brasileiros felizes da vida.

indios tentando ser discretos torcendo pelo brasil

Nunca imaginei que veria um filme essencialmente sobre futebol transcendendo (e muito!) as fronteiras nacionais. Foi gostoso ver os três povos paralelamente correndo em seus habitats inóspitos, com suas pequeninas TVs, pra chegar a tempo de assistir à grande final. Tudo ao som instrumental de uma Aquarela do Brasil em versão moderna, cheia de ginga e samba e batuque. Ary Barroso teria gostado de ver.

E saí do cinema com a maior saudade de ganhar copa do mundo. Mesmo a última vez tendo sido só há 4 anos atrás.
🙂

C.R.A.Z.Y.

setembro 25, 2006

os cinco irmãos

Cada ano o festival tem um foco em um país.
Esse ano é o Canadá. E, pois bem, comecei minha maratona cinéfila (só na 2ª feira, é verdade, culpa do congresso de sábado e do plantão de domingo) pelo canadense C.R.A.Z.Y. A história se passa nos anos 70 e conta como vive e convive) uma família cujos nomes dos cinco filhos começa por cada uma das letras que forma o título do filme. E o protagonista é o 4º filho, Zac. De um jeito sensível e muitas vezes divertido (levando uma platéia blasé e modernosa às gargalhadas), a gente assiste o Zac nascer no dia do natal, só ganhar presente que ele não quer, tomar porrada do irmão, fumar maconha mas, principalmente, a gente vai sutilmente, claramente, enxergando o mesmo que o personagem: que ele é “diferente” dos outros, como diria o próprio. e, com isso, vêm todos os conflitos (internos ou não) inerentes da auto-afirmação, aceitação da família e tal.
Uma história cheia de pequenas riquezas, os problemas e os trunfos de toda família. Sobre o amor incondicional dos pais pela prole. Por tudo o que seus filhos são e, principalmente, apesar daquilo que são. E, ainda por cima, com toda aquela indumentária (roupas, sapatos, acessórios, móveis e vitrola) dos anos 70 que eu sempre invejo.

Um comentário pró-nerd: sempre tem um irmão intelectual e é sempre o irmão intelectual que cresce e vira um adulto equilibrado, bem-sucedido, casa com uma menina bonita pela qual ele tem um amor enorme. E o pai sempre gosta mais dos irmãos mais errados, intensos, cheios de complexidades e facetas (não são protagonistas por acaso). Eu, no caso, sou adepta do movimento “nerds mandam bem”, “nerds are hot” e similares, e vou ser sempre aquela menina do filme que olha pro nerd, suspira e casa com ele. A moça que nunca vai ser protagonista, mas que vai sempre acabar casando com o nerd certinho e bonzinho, que aparta as brigas dos irmãos no natal.
Que nem nos livros do Pedro Bandeira: eu sempre torcia pra Magri ficar com o Crânio. E um dia (oba, o pedro também deve ser nerd) minhas preces foram atendidas.

os cinco irmãos e o pai no casamento do C, o nerd