Archive for outubro \23\UTC 2006

Por que Lost é foda

outubro 23, 2006

favor não se apavorar e ler sem preconceitos :)

Calma, não desista do blog só porque esse é um post sobre Lost e você não agüenta mais ouvir falar nessa série maldita. Prometo tentar ser agradável.

Então eu assisto Lost junto com os EUA porque tenho alguma desordem psico-motora e não agüento esperar o AXN, que costuma ter um atraso de uns 4 meses em relação aos americanos. Passa lá na ABC 4ª feira à noite e 5ª de manhã já começamos a baixar pela internet.

O plot não é nada original: o vôo 815 Sidney – Los Angeles cai numa ilha deserta, de localização indeterminada (1ª pergunta de Lost), e grande parte dos passageiros, que incrivelmente se safaram com alguns poucos arranhões (2ª pergunta de Lost), descobrem que o lugar tem mais mistérios do que pode supor a vã filosofia de qualquer um deles. Analisando o resumo assim, friamente, parece que todo mundo já viu esse filme e que vai ser mais um desses mistérios clichés com sci-fi tosco e meninas gritando, alucinadas. Mas não, não e não. A série é suficientemente bem feita pra justificar todo o frenesi mundial em torno.

Assim, a gente vai perdendo a conta da quantidade de perguntas que a trama vai deixando, numa proporção infinitamente maior às que são respondidas. No meio disso tudo, a gente vai conhecendo os personagens, que são densos e bem construídos. E verossímeis: covardes, generosos, determinados, hipócritas, preconceituosos, ambiciosos, etc e tal. Dá pra encaixar perfis de gente real em cada um deles. Por exemplo, o trio protagonista. O Jack é o médico, altruísta, sensível. E convive com uma culpa inata, uma culpa, uma culpa, que vai aumentando ao longo da vida e faz com que ele sinta necessidade de compensar o mundo inteiro. Você conhece gente assim. O Sawyer é sarcástico, inescrupuloso, mal caráter, construído pelas circunstâncias, o típico produto de uma seleção natural (social?) cruel, que precisou se provar adaptado ao nada que lhe restou pra que conseguisse sobreviver. Assim fica fácil de separar os estereótipos antagônicos. O Jack é pureza, ingenuidade, reúne qualidades humanas um tanto quanto nobres. Branco. O Sawyer representa a traição, o egoísmo total e absoluto, a ausência de ética e moral: tudo o que o homem tem de ruim. O preto. Mas a Kate. A Kate é difícil. Porque ela é cinza. E é de Kates que o mundo está cheio.

E (muito bem) entretidos com disputas de liderança, cumplicidade incondicional, eventos misteriosos, o eterno duelo fé X ciência, cenários paradisíacos e pontos de interrogação, os fãs (detesto essa palavra e toda a alienação que ela abriga, mas na falta de uma melhor…) se organizam e vão pesquisar na rede. Sobre nanorobôs, mitologia grega, atlantis, parapsicologia, caixa de skinner, arqueologia, alucinações, eletromagnetismo, guerra fria, etc. Procuram sobre qualquer assunto em que a série tangencia e depois postam informações interessantes e teorias mirabolantes em fóruns mundo (virtual) afora.

Mas, papo de tiete (outro verbete terrível) à parte, Lost usa todas as armas de que dispõe pra conquistar audiência. E de uma forma que até então não tinha sido explorada tão intensamente. São descobertos na Internet sites relacionados à trama. Que, por alguns microsegundos, fazem a gente esquecer que é tudo ficção. O site da companhia aérea do avião que caiu, de empresas mencionadas no seriado e até mesmo do laboratório que produziu o teste de gravidez que uma das personagens usa, num determinado episódio. Os produtores são espertos a esse ponto. Num determinado capítulo a gente finalmente descobre o nome verdadeiro de um líder misterioso. Termina o episódio e resolve-se digitar nome e sobrenome do cara no google. Sua pesquisa durou 0.18 segundos. E o primeiro link (oh, sponsored!) nos leva a uma página muito suspeita de uma empresa (fictícia) anteriormente mencionada no seriado. O mais divertido é que esses sites são bem feitos ou toscos, de acordo com a conveniência. Tudo pra deixar todo mundo ligado no seriado entre um episódio e outro, entre uma temporada e a seguinte. E é assim que a série fatura milhões e milhões. De fãs e de dólares.

Mas fato é que os produtores têm um dilema agora, em plena 3ª temporada, quando todo mundo cobra respostas. Ou entregam as chaves do quebra-cabeça de bandeja e se vêem com telespectadores desinteressados, abandonando o vício (como ocorreu em Twin Peaks); ou começam a responder as coisas em doses super homeopáticas e acabam caindo na armadilha do absurdo incoerente e decepcionam a audiência (como foi com X Files). Será que eles acham um terceiro caminho?

Se não se venderem totalmente aos interesses da ABC em manter a audiência a qualquer custo e se continuarem direcionando a atenção à resolução das questões emocionais e às relações humanas, ao invés de abusarem do truque de colocar e tirar peças do quebra-cabeça o tempo inteiro, todo mundo sai feliz. Porque, em séries compridas cheias de mistério, fato é que quanto mais tempo se mantém aceso o interesse das pessoas, mais elas se apegam à mitologia da trama e mais decepcionadas elas ficarão quando ela terminar, não importa de que forma. Estabelecer laços: é sobre isso que é a vida e, portanto, é com isso que a gente consegue se relacionar.

Apesar dos problemas inerentes, Lost é isso tudo, sim. Porque o que acaba importanto mesmo é a viagem, e não o destino.

Se você nunca viu um episódio e não sabe, não quer saber e tem raiva de quem saiba, dê uma chance aos Perdidos (nome em espanhol:).
50 milhões de pessoas não podem estar erradas.

Caso alguém tenha o interesse de se expor, tenho o box oficial da 1ª e 2ª temporada completas. Mas aviso: pode ser caminho sem volta.

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deprimentes deprimidos

outubro 18, 2006

deu no rádio: “se você está sofrendo a responsabilidade é sua.”
em entrevista, um músico (que não deu tempo de ouvir quem era, porque eu estava dirigindo uma distância curtinha) falou sobre uma coisa que a gente nunca está disposto a ouvir. sofrer é muitas vezes inevitável. mas será que continuar triste é uma escolha pessoal? parece pesado mas, sob algum ângulo, faz certo sentido. tudo bem, existe tristeza química. neurotransmissores, hormônios, receptores. medicamentos que equilibrem essa turbulência toda que sobra dentro da gente depois de uma situação emocional difícil (ou sem causa aparente). existe uma matéria só pra isso na minha graduação. e tenho um respeito, uma admiração que não sei bem expressar (se é bem admiração ou se é intimidação) pela psiquiatria.

mas até que ponto nós mesmos, dotados de vontade própria, influenciamos a transitoriedade do nosso sofrimento? fico tentada a achar que ele tem razão. se você é feliz ou não, isso é responsabilidade sua. não penso que a gente tem controle sobre os próprios sentimentos. mas penso que algumas vezes temos controle sobre como vamos (re)agir diante (e em função) deles. isso, sim, é ter controle sobre a própria vida. não tem gente que precisa aparecer? tem gente que fica curtindo (num sentido bem amplo do termo) sofrimento. talvez seja mais fácil ir se analisar e tomar antidepressivo do que mudar, tirar coragem e força de um lugar que não se sabe bem onde fica. ok, “cada caso é um caso”, “toda generalização é burra” e clichés do gênero. mas talvez seja só uma coisa que a gente não gosta de ouvir ou falar. por isso, ao cogitar essa posibilidade, dá vontade de falar: get over, you freak. Mesmo que o freak seja a gente mesmo.

quantas vezes você já sentiu pena de si? se você respondeu “nenhuma”, acho de uma evolução invejável. e auto-piedade é, no fundo, no fundo, um troço vergonhoso. o sujeito fica lá, definhando, distribuindo sorrisos tristes, se achando tão incompreendido no mundo, fazendo mal a ninguém mais do que a ele mesmo. uma auto-destruição violenta que fica ali, no limiar, entre a consciência e a auto-vitimação.

esse negócio de ficar deprimido talvez seja uma grande perda de tempo e o responsável por ela seja, justamente, o próprio deprimido. só que mesmo falando essa blábláblá todo, duvido que, da próxima vez em que eu me achar a mais infeliz das infelizes por algum motivo, me recorde da entrevista do músico e das coisas que ela me fez pensar.
bem, tomara que sim.

e isso tudo me lembrou daquele diálogo ótimo de closer:

DAN: Everybody wants to be happy.
LARRY: Depressives don’t. They want to be unhappy to confirm their depression. If they were happy, they couldn’t be depressed anymore. They’d have to go out into the world and live, which can be depressing.

Nights Bombantes, dias bonitos

outubro 16, 2006

Não sou uma pessoa propriamente noturna. Estou, inclusive, na comunidade do orkut “sou velho de nascença” porque, entre outras razões, durmo cedo, e gosto mesmo pra aproveitar bem o dia seguinte. Então, pra que eu tenha coragem/vontade/disposição de me aventurar em alguma coisa que comece 1 da manhã e só termine lá pelas 5 ou 6, há uma série de fatores que precisam estar presentes e conjugados e isso já compõe todo um panorama praticamente cósmico. Logo, é bem raro eu ir pra night.

Mas nesse sábado eu fui pra Tilt, na Fosfobox. E vou ficar aqui recomendando pros meus 5 leitores. Não só porque meu amigo toca na festa e eu sou uma baita péla-saco dele. Mas porque os 3 DJ’s têm um equilíbrio bom entre si, tocam essencialmente o mesmo tipo de música mas cada um imprime sua personalidade nas escolhas. (E não é assim que a gente faz com tudo? que coisa besta de se dizer.) E porque a fosfo tem um espaço legal e sempre dá pra ir lá pra cima e sentar um pouco quando os pés estiverem doendo (culpa dos djs).

As melhores coisas foram poder deixar a bolsa na cabine, dançar com os melhores amigos do mundo como se a gente estivesse na sala da casa de alguém e beber um troço colorido e doce com o dinheiro que eu tinha ganho no pôker. (é, incrível!)

E o que me deixou zonza foi a luz estroboscópica que não parava. Chegou uma hora em que eu, que sou leiga em noites nas quais todas as peças de roupa (eu disse TODAS) chegam em casa fedendo muito a cigarro (favor aprovar logo a lei de não poder fumar em
lugar fechado e fiscalizá-la), não entendia mais o que se passava com tanta piscação incessante, o tempo todo, todo.

Em compensação, acho parto uma coisa bem normal.
: )

Tem feriados que simplesmente não prestam pra viajar. Porque as melhores coisas estão aqui.

Ir lá na cabine se despedir do amigo DJ e sentir uma coisa que parece um conforto. Um orgulhozinho brilhando, uma alegria comprida por ele estar ali fazendo uma coisa que ama, realizado, responsável, e todo novinho. E ele abraçar a gente muito forte e gritar, no meio da barulheira:
– Eu fico muito feliz quando vocês vêm, porra!!

No dia seguinte, ir à praia com todos eles de novo.
E ficar com vontade de fazer a mesma coisa todo fim de semana, porque (deixa eu ser manteiga derretida) tem coisa mais importante nessa vida?

Metamorfose

outubro 16, 2006

chega de discussões sobre “padrão de beleza”, “ditadura da magreza”. tem horas em que estar feliz basta.

aliás, né, adorei esse vídeo da dove:

Blogs, Orkut e a Monica Bellucci

outubro 10, 2006

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Nos meus favoritos tenho uma pasta chamada “Blogteca”. Outro dia resolvi organizá-la. Foi um choque: mais da metade dos blogs estavam desativados ou então abandonados desde 2004. Fiz uma limpa e agora a blogteca está enxutinha, atualizada e verossímel, porque a lista era muito maior do que o meu tempo de visitar os escritos alheios.

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O Orkut anda um porre. Tudo bem, é ótimo pra mandar recadinhos que não pertenceriam a uma mídia grande e branca como o email. O problema mesmo é que eu criei 11 comunidades, sendo que algumas têm entre 10 mil e 30 mil membros e a “eu amo meus avós” tem 237 mil membros. Pode não ser nada comparada à “sou legal, não tô te dando mole”, da qual faço parte, que tem mais de um milhão de integrantes. Mas, de qualquer modo, são comunidades grandes. E comunidades grandes atraem spam. Então, vira-e-mexe tem um sujeito me deixando scrap pedindo pelo amor de deus que eu “apague os tópicos indecentes e as propagandas da nossa querida comunidade”. Não que eu me importe tanto assim com uma comunidade no orkut (aliás, tem coisa mais inútil nesse mundo?) mas gera uma certa inquietude interna olhar o fórum da comunidade que você criou e ver que mais da metade dele é de tópicos como “Dani tesudinha – veja as fotos”, “Gere créditos grátis para celular”, “Sex Free” e similares. E o pior é que apagar esses tópicos é algo que toma um tempo absurdo (principalmente se a gente descontar a quantidade incontável de vezes que da erro no orkut) e é inútil (porque daqui a 2 dias os mesmos tópicos, dos mesmos perfis falsos, vão estar lá, por mais que você expulse os autores). Então, mais cedo ou mais tarde, vou acabar transferindo as minhas incríveis criações pra alguém que queira adotá-las. Por incompetência do orkut em dar um jeito nessas coisas irritantes.

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Passou Irreversivel no telecine e eu finalmente assisti.

Mas, sabe, achei chato. Vai ver não tenho “capacidade pra compreender”, como li em algumas críticas. Mas achei o filme pretencioso pra caramba, com aquela forma de filmar tremida (a câmera parece às vezes estar bêbada, às vezes estar convulsionando, às vezes corre junto com os personagens e, na famosa cena do estupro, fica parada no chão, como se tivesse sido esquecida lá), sendo narrado em desconstrução do tempo, contado de trás pra frente (que nem Amnésia), com os lugares sombrios, iluminação esquisita. Oh, meu deus, que inovador! Esse cara é um gênio! : P
É verdade que o Gaspar Noé conseguiu o que queria: entrar pro hall da fama de filmes altamente polêmicos.

Mas fiquei achando tudo tão vazio, a argumentação fraca, o roteiro batido, parece que tudo é feito com o propósito claro de quebrar barreiras, de gerar reações fortes; fica forçado.

A cena do estupro: tinham falado tanto dela que achei que não fosse dormir à noite, depois que visse. Dura uns 10 intragáveis minutos e me chocou, sim, mas pelo prazer que o cara demonstra versus a dor que ela sente. (Achei gratuita também, mas muitas coisas na vida o são.) E gerou várias discussões de quem assistiu e se sentiu excitado ao mesmo tempo que enojado. O famoso paradigma do ser humano moral e consciente se contrapondo ao instinto básico, de prazer-dominação-poder. E talvez aí more o mérito da cena: vai ver que o mal estar provém, justamente, da excitação com algo repugnante, com o que há de pior no homem. Eu fiquei incomodada, mas não tanto quanto fiquei em “A Filha do General”. Talvez porque fosse mais jovem e porque tinha entrado no cinema sem saber do que se tratava e fui surpreendida pela história e pelas cenas.

Aparentemente, as coisas melhoram, ficam felizes e leves a cada vez que a história volta no tempo, o que dá aquela sensação de desespero, já que sabemos o que acontece com os personagens (porque as cenas do futuro já passaram). Mas a idéia, qual é? Somos reféns do nosso próprio destino (que é irreversível)? O tempo destrói tudo? Não sei, talvez eu esteja sendo muito rígida, mas tudo isso me pareceu pouco.

Monica Bellucci

O que importa é que eu, que sempre fui contra-Angelina, descobri que sou pró-Monica Bellucci. Que mulher cretinamente bonita! Uma diva e boa atriz.
Não é possível, deve ter chulé.

Monica Bellucci toda poderosa

O que veste o diabo

outubro 8, 2006

Olha, nem só de filmes cults se faz uma cinéfila : )

Achei “O Diabo Veste Prada” um pipocão de qualidade. Vamos deixar a esculhambação por conta da crítica, porque fato é que a Merryl Streep está impagável, Anne Hathaway é uma fofa, o namorado dela uma graça e NYC e Paris, não tem erro, vão ser sempre NY e Paris.

sempre tem o casal pelo qual a gente fica torcendo

Tem aquela coisa de filme americano, de sempre ter uma moral didática no final, a mania de humanizar o vilão, mas também tem aquela propriedade de saber entreter a platéia e a gente sai do cinema com astral bom.

O tema não é nada de novo: homem primata, sobreviva no capitalismo selvagem. Não que a personagem da Anne (universitária recém-formada, cheia de planos, sonhos e gentilezas) seja uma ativista do Greenpeace e não tenha outra opção senão aceitar um trabalho como vendedora de roupas numa loja que só vende casacos de pele. Mas ela certamente vai matando um leão por dia naquele mundo fashion que não acha importante (e, deus do céu, nem eu). Há as inesgotáveis questões de limites. Entre ter ambição e se vender, entre se dedicar e trabalhar demais, entre aceitar propostas e passar a perna em alguém. Tudo debaixo de muitas grifes, Starbucks coffee e maquiagem. E, claro, com bastante estereótipo, pra não perder o costume.

chefe humilha assistente - cena 147

Depois de tanto existencialismo na 7ª arte, uma sessão da tarde como essa veio a calhar.

Mesa pra 1

outubro 7, 2006

Nessas votações que eu gosto, de gastronomia-wannabe, deveria existir uma categoria de “melhor restaurante pra comer sozinho”.
Eu precisava almoçar perto do hospital onde eu ia assistir uma cirurgia e não dava tempo de andar um pouco até um lugar mais em conta ou mais adequado, no mais amplo sentido da palavra (aliás, estou um pouco cansada dessa palavra, adequação). Então fui no único restaurante por perto. Era um à la carte bem bacaninha. Desses cheios de mulheres balzacas inteironas e modernosas (certamente telespectadoras de Sex & The City e Desperate Housewives) e de casais de novela de Manoel Carlos. Eu quis sentar no balcão, mas não me senti muito convidada. Eles estranharam: “você prefere sentar aqui no balcão?”

Pronto, tá vendo, já não entraria na minha lista de “melhores pra se comer sozinho”.
Sentei numa mesinha dessas pra 2. Devia existir mesinha pra 1, pra gente já chegar e ir sentando e não ficar parecendo que se espera alguém. Pedi o almoço executivo, que já incluía uma sobremesa e o preço ficava relativamente camarada. Fui ao banheiro e, logo quando voltei, meu prato chegou. “Don’t you love it when you go to the bathroom and you come back to find your food waiting for you?” (qual o nome do filme?)
Fiquei surpresa porque foi muito rápido. Bem mais rápido do que quando vou a esse mesmo restaurante acompanhada.

Fiquei imaginando se, lá nos bastidores do restaurante, eles teriam uma política de colocar os pedidos das pessoas sozinhas na frente pra que elas não fiquem muito tempo esperando, constrangidas por não terem companhia pra conversar e passar o tempo enquanto a comida não vem. Não que eu pense assim, mas será que algum restaurante pensa? Já pensou, num desses restaurantes mais chiquezinhos, tipo o Carême? “Flávia, código freguês solitário: salmão com ervas finas e legumes grelhados urgente!” E eles apertam “start” num cronômetro especial e a chef pára tudo o que está fazendo e começa a fazer o prato do cliente muito, muito rápido.

Mas foi só o tempo mesmo de ir ao toalete e voltar imaginando essas coisas pra que o prato e o suco de melancia chegassem juntos. A garçonete prestava muita atenção se eu tinha acabado e se eu estava bem, ficava sempre perguntando se eu queria um canudo, se eu estava satisfeita assim que tirava as mãos da messa, se eu desejava mais alguma coisa, se estava tudo bom. Vai ver ela ficou com pena. Me dava vontade de dizer: poxa, eu estou me sentindo bem assim, mas desse jeito você me faz sentir sozinha.

No lugar todo só tinha mais um cara almoçando sozinho, só que ele, por algum motivo, parecia um habitué da casa. Nem olhou o cardápio e ficou lá, muito confortável esperando pelo prato. Que também veio surpreendentemente rápido. Tá vendo, não é possível, deve ter alguma combinação interna dos caras!

Essa foi minha primeira vez sozinha num restaurante decente.

E não, não foi bom pra mim.

(aliás, o recheio despertou um pouco do coma hoje pela manhã, a quem interessar possa.)

Minha vida sem minhas mães

outubro 6, 2006

a mãe sueca

Filme lindo, lindo.

Em plena 2ª guerra, um menino finlandês muito do bonitinho, de uns 8 anos, perde o pai pras bombas russas. A mãe entra em depressão e, sem condições psicológicas e físicas (guerra) de cuidar do garoto, o manda pra Suécia, junto com um grupo de “crianças da guerra”. Lá, ele é mais ou menos acolhido por uma família. Mais ou menos porque ele não fala a língua, não compreende por que não pode estar com sua mãe e, principalmente, porque sua mãe sueca é uma mulher fria e amarga, que perdeu recentemente sua única filha, de 6 anos.

Eedro e sua mae (biologica)

Cartas da mãe biológica (a finlandesa) vão chegando, dando, progressivamente, a impressão de que Eedro (o guri) não é mais desejado. A partir daí, não resta a ele outro remédio senão usar a ferramente mais incrível da qual dispõem a criança: a adaptabilidade. E aprender a amar aquela nova família.

Assim, as coisas vão mudando, os pais suecos vão se deixando conquistar pela situação e , aos poucos vão acolhendo o menino, afetivamente falando, como se fosse realmente filho biológico deles. Eedro, enfim, ganha um novo lar, família, amor e carinho, ou seja, tudo.

o menino finlandes e sua familia sueca

Só que um dia a guerra acaba. E a mãe finlandesa resolve querer o filho de volta. Então ele é levado, novamente contra sua vontade (e contra a de sua mãe sueca), para longe de sua (2ª) mãe.

A história é contada pelo próprio Eedro, 60 anos depois, como num acerto de contas com o passado, que é a cores, enquanto o presente (Eedro velhinho) é em pb.

eedro no recreio da escola

Trilha sonora bonita, fotografia ótima, atores entregues de alma e tudo ao roteiro (que é todo redondinho e perfeito) e cenas simples e lindas, cheias de carga emocional.

Ainda bem que eu levei lencinhos.

Conhecidos de estação

outubro 5, 2006

Esses festivais (de animação, de cinema, de teatro) têm vários aspectos peculiares. O primeiro é que você encontra o seu melhor amigo sem combinar nada; depois esbarra no seu professor do 2º ano da faculdade na fila de um filme esloveno mas, principalmente, passa a ver sempre as mesmas caras desconhecidas. Tanto que chega uma hora em que você tem certeza: “conheço essa senhora / esse cara / essa menina de algum lugar”. E, logo depois, descobre: “ah! ela também estava na última sessão que eu assisti!”

Num dado momento, sem perceber, você começa a cumprimentar essas pessoas que você não conhece (porque você esquece que não as conhece). Primeiro um leve sinal de reconhecimento com a cabeça (tipo: opa, você por aqui de novo, tudo bem?) e depois de uns 3 acenos com a cabeça já dá até pra arriscar um papinho antes da sessão. Tem um vovô que vai sempre nos mesmos filmes que eu. Ele está sempre de camisa social listrada e com um jornalzinho em punho, pra ler entre uma sessão e outra ou dentro da sala, antes do filme começar. Uma vez, já tinham apagado as luzes e estavam começando os créditos, ele se levantou, olhou pra trás, lá pra salinha de projeção, e começou a pagar o maior esporro, pedindo silêncio. Disse assim, com uma voz grossa e nervosa que dava medo: “toda sessão é a mesma coisa: essa conversa aí na cabine!!” Aí tiveram umas pessoas no meio da escuridão que concordaram: “é isso aí, ele está certo!” e outras que ficaram só shhhh.
Tem também uma senhorinha com quem sempre esbarro nas filas e nas mesinhas do estação. Uma vez ela puxou assunto e fiquei contando de todos os filmes que tinha visto e ela me recomendou os dela também. Vejo sempre uma moça de uns 35 anos magrinha e de cabelo preto curtinho. Entre outros.

Mas ir no cinema sozinha é sempre interessante. Fico mais observadora e quieta, penso um monte de coisas ao mesmo tempo. Não é melhor nem pior do que ir acompanhada: é outra experiência. Por exemplo, junto de alguém é bom sentar lá atrás e bem no centro. Sozinha, parece melhor sentar um pouco mais pra baixo, e bem na pontinha da fileira. Quando a gente está acompanhada é bom chegar bem cedo, pra ter certeza de que vai haver um lugar bom pros dois ficarem juntos. Quando se está sozinha não importa muito, dá pra chegar em cima da hora, porque sempre vai ter um lugar bom em algum canto. Dois é que é mais difícil. Sozinha, costumo comer alguma coisa, até porque geralmente não deu tempo de comer nada antes. Acompanhada, nunca, parece que desvia o foco da experiência; no máximo divide-se um saquinho de pão de queijo. De qualquer forma, não sei se é tudo uma coleção de manias (todo mundo tem), mas dá pra fazer uma tabela com vários itens de diferença e distribuí-los em duas colunas: ir ao cinema só e ir ao cinema com. Antigamente não gostava de assistir filmes na telona sem companhia. Hoje, recomendo: é uma excelente oportunidade pra você dar uma atenção lúdica pro próprio cérebro.

🙂

Preciosas calçadas

outubro 4, 2006

Saltar do ônibus lá no comecinho da Prudente de Moraes. Entrar no Zona Sul com o estômago roncando, já passa das 3:30. Pedir uma pizza com guaraná e comer sem pressa, em silêncio. Nota mental: a pizza do zona sul da barra é melhor do que a de ipanema. Depois andar até a Estação Ipanema. Aproveitar as calçadas. Nota mental: as calçadas de ipanema são melhores que as da barra, que não existem. Passar por um lugar onde está escrito: “hot spot”. Sentar no banquinho e checar meus emails, há tempo de sobra até a sessão. A preocupação bate: as ruas são perigosas, apesar de ter um guarda logo ali. Levantar, aproveitar o sinal fechado aos carros, atravessar a Antero de Quintal. Ver um monte de gente comum, bonita, feia, moderna, básica, gente de mãos dadas e gente sozinha, com ipod ou sem. Reparar nas incontáveis lojas de sucos. Um cachorrinho de raça passa mancando. Um homem faz embaixadinhas no sinal. Ele é bom: talvez gostasse de chinlone. Um rapaz com uma câmera profissional fotografa alguma coisa. Não resistir e procurar o objeto a ser registrado: pessoas no ponto de ônibus. Pensar que deve ficar bonita, a foto. Sorrir. Atravessar a Farme, que tem sempre os bares com os nomes mais apropriados: no caso, “Tô Nem Aí. ”

Chegar. Olhar o relógio e descobrir: ainda dá tempo de ir à livraria da Travessa.