Archive for novembro \30\UTC 2006

palavras, momentos

novembro 30, 2006

Por que é tão difícil falar sobre o que se sente?

Explorar essa mina confusa que pode ter diamante e pode ter morcego. Explicar o que eu sinto quando estou junto de umas pessoas que me fazem não ter medo de nada, que me fazem achar que todo o percurso acabou e que, agora, o fim e o começo se sobrepõem porque todo aquele tempo dedicado aqueles seres humanos fantásticos é infinito e não há mais nada além daqueles momentos em que a gente se sente mais viva. Como é que eu explico prum sujeito o quanto o amo? Qual a melhor forma de expressar decepção, desilusão, fracasso? Quando acordo cedo e ele dorme que nem um anjo logo ao lado, o que eu sinto? Não sei dizer. Quando o silêncio se instala a gente se comunica melhor. Mas, mesmo assim, existe uma necessidade, uma sensação de vazio, que faz com que se estabeleçam canais e, através dele, a linguagem. Mas não há como saber que aquilo que você tenta expressar será compreendido. Em verdade, não há nem mesmo como ter certeza de que existe uma consciência além da sua. Assim, estabelecer contato é sempre um risco que se decide correr. E talvez o sucesso não esteja na conexão total, e sim na conexão em si.

Enquanto se tenta escrever o próprio roteiro, definir a posição dos personagens, quem entra quando, a vida vai passando num rio que só corre pra frente. E é o que a gente encontra no caminho (e não o destino, o fim, a foz) que viabiliza toda a navegação. E como saber que não se nada contra a correnteza? Como ter qualquer certeza se tudo é impressão? Uma sensação que gera uma reação que gera uma impressão. Por que é tão difícil enxergar e acreditar e admitir que não existe a verdade, que não existe o correto?

me lembro muito disso, acho que é uma das melhores partes do filme:

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More than this you know there’s nothing

novembro 25, 2006

Esse é um dos poucos filmes em que eu fico triste por quem achou chato. Porque, me desculpa o egocentrismo, mas essa pessoa simplesmente não entende.

Bob: Can you keep a secret? I’m trying to organize a prison break. We have to first get out of this bar, then the hotel, then the city, and then the country. Are you in or are you out?
Charlotte: I’m in.

🙂

Coisas que a gente queria dizer pros outros mas acaba escrevendo no blog

novembro 25, 2006

Estou numa fase de saturação com pessoas profissionalmente frustradas. Eu sei: em primeiro lugar, é malvado da minha parte, e em segundo, quem sou eu pra julgar as decepções dos outros? Concordo. Mas, apenas constatando, eles estão em todo lugar. Queria falar de outras carreiras também mas como a medicina é a minha realidade fico meio inevitavelmente monotemática. De qualquer forma, aposto que isso se extende pra todas as profissões.

O que eu não consigo entender é o seguinte: se o sujeito não gosta do que faz, por que continua naquela vida? (Tá bom, existem várias variáveis e nada é tão simples e a vida não tem só duas cores e aquele papo todo). Mas continuo acreditando que nunca é tarde demais e que eu, se não estiver feliz com o que fizer, compro uma barraquinha de sorvete e vou vender picolé na praça. E tenho uma vontade enorme de sugerir a todos esses que só fazem reclamar que façam o mesmo.

A cada dia mais tenho certeza de que a gente tem que se cercar de pessoas felizes com aquilo que fazem. Isso, logicamente, independe da condições financeiras. Que gosto que dá quando alguém diz: eu amo o que eu faço. Não importa se é workaholic, se se aperta no final do mês pra pagar as contas, se é escravo do tempo, se faz questão de dar um mergulho na praia todo dia, se mesmo quando viaja de férias leva o trabalho junto. Sou, como a maior parte das pessoas do mundo, a favor de que se encontre sempre o equilíbrio. Mas nada (a)paga aquela paz de espírito que a pessoa tem quando está feliz com aquilo que trabalha. Isso anima quem está começando, dá uma energia, acende uma esperança morninha no inóspito e inquietante futuro incerto.

Aproximar-se dos realizados é consenso. Mas o que fazer com os frutrados? A maior parte dos que eu conheço são inveterados. Daqueles que já ficaram tão duros dentro daquele molde que é impossível convencê-los de que, se a vida não vai bem, todo mundo tem direito de mudar pra conseguir ser feliz. Ou então de que é preciso encarar as coisas de uma forma menos rígida… São como discos arranhados em vitrolas quebradas. Então é difícil mesmo conviver com eles. Mas eu costumo tentar e, se tudo mais falhar, mudo de assunto.

Tem um cara que eu admiro porque é um cara bom. Competente e responsável. E depois do expediente sempre tomamos um mate na lanchonete antes de cada um encarar seu próprio trânsito até em casa. Só que tenho cada vez mais vontade de ir pro engarrafamento com sede mesmo. Porque só escuto lamentações. Sobre como o feedback demora muito pra vir; como o mercado está ruim; como tudo é ruim e ninguém presta; sobre como as pessoas desconfiam dos inexperientes e, mesmo que eles sejam competentes, acabam preferindo os mais velhos (“ah, não vale à pena, não.. ficar batendo a cabeça por aí, o cara é um merda e ganha o mesmo que eu”). O que eu queria dizer era:

WAKE UP! Isso é a sua vida! O que você vai fazer a respeito? Você pode mudar radicalmente. De emprego, de cidade, de país. Mas talvez isso não resolva o seu problema. Você pode mudar pequenas coisas porque tudo depende da forma como você encara a vida. Primeiro, negatividade afasta as pessoas. Você não pode falar só sobre os problemas e as desvantagens de alguma coisa. Será que não tem lado bom nessa profissão? Frustração afasta todo mundo: cliente, mulher, marido, amigos. Guardar os elogios e descartar as critícas (não construtivas) pra não virar alguém repulsivo, amargo, deprimente. E, segundo, não julgar os outros mesmo em atitudes incompreensíveis; é um exercício constante, não é? Afinal, você não está aqui pra julgar ninguém. Você está aqui pra viver a vida da melhor forma possível. Quer dizer, você eu não sei. Eu, pelo menos, estou aqui pra isso.

Além do que as pessoas têm todo o direito de preferir pessoas mais bonitas ou mais feias, mais jovens ou mais experientes pra qualquer tipo de trabalho. Cada um tem as suas razões pra escolher esse ou aquele profissional. Talvez você faria o mesmo no lugar desses clientes, fregueses, pacientes. E, se você for gastar o seu tempo reclamando que a pessoa preferiu o concorrente, significa que você não sabe aproveitá-lo direito. Porque, se competir é essencial, então entre em campo pensando no seu próprio desempenho. Penso que nada que é sincero vem de graça; até aos amigos a gente tem que se dedicar. Com clientela não poderia ser diferente; penso que você tem que investir em você pra que o resto do mundo ache que vale à pena fazer o mesmo. Poxa, vá aprimorar sua formação, fazer cursos, participar de simpósios, de pesquisas, saia do país, faça contatos e, caramba, seja mais positivo de uma forma geral. Existem tantos caminhos pra melhorar. Mas o lance é que é sempre muito mais fácil reclamar e tomar mate do que mudar e tomar decisões.

Mas, né, eu sou uma pirralha. Não posso sair dizendo essas coisas por aí.
Tanta negatividade pode ser contagiosa (será que pega?), deixa a gente meio pesada. Então tem vezes em que sinto muito, mas não, obrigada, não quero ouvir as suas queixas; me faz mal, fico com medo (pai, tem um bicho no meu quarto). Por isso que gosto tanto quando algum professor diz que ama o que faz e realmente sabemos que ele diz a verdade. Tendo a achar que poucas coisas são melhores do que isso.

Everybody is free to feel good

novembro 18, 2006

a mensagem todo mundo conhece. a edição de vídeo é muito boa.
e eu nunca me canso de ver.

5 things i can’t live without

novembro 17, 2006

não tem essa lacuna no orkut?

então. outro dia estava pensando na morte da bezerra e descobri que eu tenho uma listinha de
coisas (mas coisas mesmo) sem as quais minha vida é, sem dúvida, mais chata.

minhas 5 coisas indispensáveis:

1 – Silicone da Kérastase

mi silicone querido

Depois de anos usando silicones fedidos, de 3 reais e que ou não adiantavam ou então deixavam o cabelo todo ensebado, resolvi investir no tal do oléo relax e fiquei viciada. O cheiro é muito bom e o cabelo fica tão bonito. Como o meu tem vontade própria, se está num dia mais pra liso, eu passo na vertical, alisando as pontinhas; se está mais pra ondulado, eu uso essa iguaria amassando os cachinhos-to-be. O meu está acabando e já estou preocupada em não conseguir comprar outro antes da última gota.

2 – Relógio

nao dá tempo!

Como vivem as pessoas sem relógio? Saber que horas são é sinônimo de ter uma vida que faça algum sentido. E não é só pra saber se já está na hora de sair pra natação, se ainda dá pra almoçar no plantão (é só até as 14h) ou se o feijão já deve estar cozido. O meu relógio serve, diariamente, pra contar quantas vezes está batendo o coração de um bebê dentro da barriga, quantas vezes uma criança com suspeita de pneumonia respira num período de 1 minuto e quanto tempo dura cada contração uterina durante um trabalho de parto. Entre outras necessidades. Um amigo meu se recusa a usar relógio e eu achava engraçado quando ele vinha conversar com o paciente dele, todo dia, e na hora dos sinais vitais falava: “seu armando, me empresta o seu relógio um minutinho?” Chegou um ponto onde o cara já tirava o relógio sem o meu amigo precisar pedir. “Tá aqui o relógio, doutor.”

3 – Óculos Escuros

achei essa foto o máximo!

Por que eu sou tão fotofóbica?

Não consigo dirigir sem óculos escuros. Parece que a claridade vai me dissolver inteira e me transformar em um pozinho. Só que meus óculos amados sumiram. E aí minha vida virou um inferno (sim, porque eu passo pelo menos 3 horas do meu dia dirigindo com sol batendo no rosto). Fui comprar um na Chili Beans, que até que tem uns preços camaradas, em se tratando de óculos escuros estilosos. Comprei um que achei bonito. Mas fiquei tão indecisa (e experimentei a loja inteira) que o vendedor ficou com pena do meu dilema e disse assim: você leva esse e usa; se não gostar tem 15 dias pra trocar. E vou trocar mesmo. Usei 1 semana e achei ele muito pesado, meu nariz e a área atrás das orelhas ficam todos doloridos. Tá vendo, quero o meu antigo que eu tinha comprado no aeroporto de nova iorque há 2 anos atrás. Sniff.

4 – Guaraná

uh, guaraná!

Olha, eu não sei se vem realmente da frutinha da amazônia ou se é só um xarope com gás que alguém inventou e arranjou um marketeiro pra convencer todo mundo a comprar com o argumento de que olha, é nacional, você não vai prestigiar os frutos da sua terra? Mas eu amo guaraná. Antarctica, claro, porque os outros são amargos demais, doces demais, não existe um igual ao Antarctica. É um sacrifício enorme ficar sem beber meu único refrigerante porque faz mal pro esôfago doente ou então quando estou fora do Brasil. Tem umas combinações perfeitas (as propagandas não eram por acaso): pizza com guaraná, pipoca com guaraná. Eu também gosto particularmente de churrasco com guaraná e feijoada com guaraná. Por outro lado, tem umas coisas que não combinam mesmo: comida japonesa com guaraná é esquisito. E de manhã também não pode. Acho meio nojento esse negócio de tomar refrigerante de manhã, qualquer que seja.

com laranja, então, hmmm

5 – Esmaltes

fotodeunha_esmaltes.jpg

Quando acaba a semana e eu não fui fazer as unhas parece que ficou faltando um pedaço. Ir à manicure é terapêutico: é um momento em que eu simplesmente fico 1 hora sem pensar em nada e leio Caras. É um ritual tão antigo que não imagino como seria se eu me mudasse pro exterior e vivesse em algum lugar onde fazer as unhas é um luxo e custa, tipo, 50 reais. Mas acho que, de repente, seria capaz de eu economizar em comida pra poder ir ao salão de 15 em 15. E tem que ficar mudando a cor do esmalte sempre, se não perde a graça toda da coisa. Por mais sem tempo que eu esteja, com plantão, congresso, aula de natação e mil compromissos, peço pra minha manicure me encaixar no último horário de sábado ou na minha hora de almoço de, não sei, quarta-feira, mas não deixo de ir lá me alienar, saber por que a Débora Secco e o Falcão terminaram e sair feliz da vida, com as unhas bonitas.

Internato X Residência

novembro 14, 2006

As pessoas costumam ficar bastante confusas com esses termos científicos complicadíssimos da medicina. Vou deixar aqui uma explicação (de uma vez por todas!) e, dessa forma, os amigos de médicos-to-be podem gratuitamente rever esses conceitos toda vez que tiverem dúvidas.

Bem, primeiro, uma breve introdução: a faculdade de medicina no Brasil é realizada em 6 anos. (Ou 12 períodos, se você é daqueles que não conseguem pensar em anos). Os 2 primeiros anos compõem o infinitamente chato “ciclo básico”. Aulas cuspe-giz intermináveis de 3 horas, provas com uma quantidade descomunal de decorebas, professores com egos gigantes. A maior parte das pessoas que eu conheço pensou em desistir da faculdade nesse início porque é chato pra caramba mesmo! Lógico que sempre tem uma matéria ou outra que a gente gosta e talvez sejam essas exceções que nos deixam chegar no 3º ano. Que é onde tudo fica bom. Porque a gente começa a ver paciente, a aprender como se examina, como se faz a história (da doença e do doente). No 4º ano a gente já começa a diagnosticar as doenças (pelo menos as mais simples), escrever em prontuário e discutir com os médicos que exames vão ser pedidos, qual é o melhor tratamento… Só que a gente faz isso de manhã e à tarde continua tendo aula mesmo, pesada, muita matéria, muita prova. Só que a essa altura você já é um mestre da cola (admiro com uma pontinha de inveja os gatos pingados que chegam ao 8º período fazendo provas honestamente, porque com aquela enxurrada de assuntos pra estudar e o tempo proporcionalmente escasso não vejo outra saída que não a consulta ao colega do lado, quando possível).

Depois disso vem o internato. Ele nada mais é que os 2 últimos anos da faculdade (ou o último 1 ano e meio, dependendo da faculdade). O internato é aquele período em que a gente ganha mais responsabilidade, tem que cuidar de 1 paciente (ou mais, dependendo de quão cheia esteja a sua enfermaria) globalmente e tem muito menos aulas e provas. É um período ao qual muita gente se refere como O Paraíso, dentro de um curso desgastante como medicina. E no meu caso é assim: no quinto ano a gente vai direto de janeiro a dezembro, sem parar (muitas vezes sem feriados ou fins de semana, em que temos que passar visita nos nossos pacientes). E passa 12 semanas em cada uma das grandes áreas (Clínica Médica, Pediatria, Ginecologia & Obstetrícia e Cirurgia). No 6º e último ano podemos ficar 5 meses no hospital que quisermos e no serviço que bem entendermos (é o chamado internato optativo), dependendo da área na qual queremos nos especializar. Quem quer cardio pode ir pro Laranjeiras; quem quer oncologia tenta o Inca; quem gosta da área de pesquisa fica na Fiocruz; quem quer dermato reza pra ter CR pra ir pra disputada enfermaria do Azulay, na Sta Casa, etc, etc, etc… Tem gente que inclusive passa essas 20 semanas em algum serviço maneiro fora do estado ou país.

Depois temos mais 5 meses de internato obrigatório, com grade fechada, e passamos por especialidades que (a não ser que queiramos seguir alguma delas) nunca mais veremos: dermato, dip (doenças infecto-parasitárias), otorrino, oftalmo, psiquiatria e medicina preventiva. E aí termina o ano em outubro, a tempo do pessoal se dedicar integralmente às terríveis provas de residência. Porque medicina é um vestibular pra entrar e outro (pior) pra sair. Enquanto isso, tem formatura, juramento hipocrático, CRM, tudo aquilo. Pronto, você é médico generalista.

Só que você tá prestando concurso pra sua especialização (residência = especialização). E, uma vez que você passa nesse vestibular pra algum hospital, pronto, você é médico residente.

Me dá nervoso quando alguém pergunta:

– Ele é médico ou é só residente?

Caramba: residente é médico! Tá formado, tem carimbo: pode pedir exame, prescrever qualquer tido de remédio, dar atestado, entre outras utilidades públicas.

Então vamos acabar com essa dúvida: o interno é acadêmico ainda, está em algum lugar dos 2 últimos anos da faculdade. O residente é médico recém-formado e, durante 3 a 6 anos (dependendo da especialidade), vai ser um dos seres humanos mais explorados do mundo, trabalhando uma carga de 60 horas semanais (sem contar, muitas vezes, com umas 24 horinhas básicas de plantão) e ganhando 1.600 reais. Parece que ano que vem vai aumentar pra 2.200, mas isso é assunto pra outra hora.

Mas quando eu passei umas semanas na pediatria do Hospital dos Bombeiros e o cara da portaria perguntava se eu era residente pra poder estacionar lá dentro eu bem dizia que sim porque eu é que não ia parar o carro debaixo da Paulo de Frontin : )

Quando a gente descobre que não é de ferro

novembro 7, 2006

Há dois anos atrás, eu tinha essa queimação no peito. Vinha depois de comer (tem gente que chama de azia, mas eu detesto a sonoridade dessa palavra) e durava uns 20 minutos. Fui à médica.

– O que te traz aqui?

– Ah, eu acho que estou com refluxo gastro-esofágico.

Estudante de medicina é assim: já chega se queixando do diagnóstico. Fazer o quê?

E era mesmo. Tratei.

Dois anos e meio depois voltaram os sintomas. Junto com eles, vieram uma plenitude pós prandial horrível. Traduzindo: eu comia uma refeição comum, um macarrão ou só uma salada com frango grelhado e parecia que eu tinha comido um boi inteiro. Ficava aquela sensação horrível, como se a gente estivesse cheia de entulho por dentro.

Voltei na médica.

– Nossa, quanto tempo a gente não se vê!

– Pois é, 2 anos?

– Um pouco mais. O que está acontecendo dessa vez?

– Acho que o refluxo voltou.

Ela me mandou fazer uma endoscopia. Eu fico nervosa quando tenho que fazer endoscopia. Meu pai entrou comigo e ficou de olho no oxímetro (aquele pregadorzinho que colocam no dedo da gente pra ver se o oxigênio está sendo bem aproveitado), que também dá a nossa freqüência cardíaca. A gente esperava o médico chegar. Meu pai olhou pro monitor e disse assim: toda vez que abrem a porta sua freqüência dispara. Falei pra ele: acho que não vai dar nada, não.
O médico era atencioso e a sedação foi pancada: meperidina, midazolam e propofol. Você vai sentir como se estivesse fazendo esforço pra me focalizar, sua visão vai ficar turva, seu corpo vai ficar todo tonto e.

Acordei na salinha. Que nem da outra vez. Assim que é bom.

Só que veio no laudo: esofagite péptica grau II. Na fotinho tinha umas erosões que ainda não chegam a ser úlcera. Ainda bem. Ó:

meu esôfago doente, com erosões-quase-úlceras

Mas, né, fiquei triste. Porque (fui ler no livro) “a esofagite erosiva pode causar sangramento e cicatrizar com metaplasia intestinal (Esôfago de Barret), que é um fator de risco para adenocarcinoma”.

Poxa. Sabe? Vamos deixar esse tipo de coisa pra gente com mais de 40 anos, que já viajou pelo interior da itália, já comprou um apartamento com o próprio dinheiro e já tem 2 filhos grandes? O sujeito não precisa saber aos 20 e poucos anos que tem um troço que pode vir a ser um baita fator de risco pra câncer de esôfago. Ainda mais se faz tudo direitinho: não fuma, não bebe, come tudo saudável, faz exercício físico e dorme à noite. Ainda mais se for estudante de medicina, que “tem” todas as doenças do mundo (ano passado “tive” diabetes, doença de crohn, hipertireoidismo e rubéola). Brincadeira, mas essa inflamação no esôfago aí, isso eu tenho mesmo, olha a foto aí pra comprovar. E já cortei o chocolate, já cortei o ácido, o guaraná, até pão vou ter que cortar. A genética não se corta (minha mãe, tio e avô têm problemas de esôfago e/ou estômago). Então só falta cortar o estresse.

O problema é que já estive muito mais vulnerável ao estresse. Com sinceridade, ultimamente não tenho me achado tão estressada assim. Mas é que as coisas se acumulam. As pequenas coisas, as obrigações (até as sociais), o trânsito diário, a pressa, o cansaço, os sapos engolidos porque “não é nada pessoal” ou porque “meus problemas são muito maiores que os seus”, a preocupação com os outros, o coração que fica apertadinho quando alguém que a gente adora está sofrendo, as pressões. Pra ser organizada, realizada, saudável, bonita, bem-sucedida. Quem sofre é o aparelho digestivo. É assim mesmo. Pronto, quero ir morar no interior e criar galinhas.

Agora estou mal-humorada, de orgulho ferido porque levei bronca e começando tratamento de 6 semanas. Depois posto uma nova foto do meu esôfago: espero que no próximo exame ele esteja menos bravo comigo.

Amizade é um troço relativo

novembro 1, 2006

Ela tem fobia de computador; não sabe falar inglês direito; só gosta de música que toca em rádio e filme que seja uma mega-produção de hollywood; não lê jornal; não se interessa por poesia, exposição, teatro; fica reclamando quando tem que andar 15 minutos até um restaurante; não sabe dirigir mas dá palpite na direção dos outros.

Mas, sabe, é minha amiga.