Archive for fevereiro \27\UTC 2007

Calouros do meu coração

fevereiro 27, 2007

Acho que tenho um estranho tipo de aversão a pessoas novas. Gente nova em termos de grupos pré-formados. É uma grande falha na minha personalidade. Quando eu era pequena, não gostava muito quando via na lista de chamada, no dia da matrícula, que ia entrar gente nova na minha turma. Eu achava que era porque tinha certeza de que meus amigos iam gostar mais da pessoa nova do que de mim. Olha que baixa auto estima! Mas descobri que não era isso: o que tenho na verdade é um medo de que o “insider” cause um desequilíbrio numa ordem estabelecida.

Por exemplo, não gostei quando a Andy entrou em Dawson’s Creek, quando aquele careca entrou em Sex & the City pra namorar a Charlotte, quando a Ana Lucía e a Libby entraram em Lost… aliás, nem do Rodrigo Santoro eu gostei! Mas também, coitado, ele ainda não mostrou a que veio, só teve umas 5 falas até hoje. E agora, que sempre antes de dormir, fico entretida com meu box de 2a temporada de Grey’s Anatomy, não gostei nada quando entrou uma médica nova. Aliás, alguns erros médicos à parte, é impressionante a verossimilhaça de G.A. com um serviço de residência: sempre tem um Dr. McDreamy, sempre tem uma The Nazi, sempre tem um cirurgião fodão arrogante e um residente playboy. As pegações não são assim tão freqüentes (gente, aquilo é melrose hospitalar!) e, quando ocorrem, são discretas. Mas o seriado é um hit e um ótimo entretenimento pra quem não leva à sério os enlatados americanos (e nem a vida, muito, o que é sempre saudável). A trilha sonora é o máximo, peguei as músicas todas.

grey’s anatomy é legal.

Poisé, seriados. Eu não tomo vergonha nessa cara. Deveria usar meu tempo livre pra ler Nietzsche, Flaubert, Camus, Duras, Foucault, correr maratona ou fazer meditação transcendental. Mas ainda não evoluí espiritualmente a esse ponto. Quem sabe na próxima vida… E médico, além de emburrecer, sempre se acha cansado demais pra ter que mobilizar uns milhares de neurônios ou de miócitos em alguma atividade. Admiro (e invejo) as exceções. Só que estou feliz com minhas séries.

Mas voltando à minha novatofobia, na maioria das vezes acabo gostando do personagem com o passar do tempo. Mas nos primeiros capítulos me dá uma sensação de angústia, tipo, “Droga! Vai entrar um personagem novo e vai estragar tudo!”Não é uma coisa estúpida, isso? Acho que fico com preguiça de conhecer o personagem todo, como já conheço os outros. Serve pro hospital (falando do real agora): toda semana tem um interno de uma faculdade daqui acompanhando a ortopedia pediátrica. Na 2a feira fico com uma sensação esquisita e na 6a quero que a pessoa não vá embora porque ela é tão legal. Mas aí na outra 2a chega um novo e começa tudo de novo.

O engraçado é que meus melhores amigos entraram na minha turma quando eu já estava nela há mais de 5 anos.

O que prova que é uma sensação estúpida e um medo infundado: viva os newbies.

No mais, estou apaixonada pela minha mesinha de cabeceira nova. Ela é linda e fofa.

Chegada Triunfal

fevereiro 24, 2007

Voltei. Os 3 esmates que tinha levado sobreviveram aos rapazes que trabalham no aeroporto jogando nossas malas de um lado pro outro. Instalei meu telefone novo sem fio e ficou bem bonitinho (me liguem!) Minha casa estava do jeito que tinha deixado, não veio nenhum programa de televisão mudar a decoração radicalmente, de surpresa. Mas veio a faxineira, um dia antes da minha chegada. E eu queria comentar há um tempo: como é bom chegar cansada do trabalho e encontrar a casa toda limpinha, a louça guardada, as camisas passadas. Uma pessoa que venha uma vez por semana pra fazer essas tarefas é, de fato, uma ajuda imensa.

Os residentes continuam cansados, mas pelo menos estão mais contentes, porque aproveitaram o carnaval (quer dizer, os que tiveram a sorte de não estarem escalados pro plantão do feriado). As crianças continuam se quebrando ou nascendo tortinhas. Minhas roupas continuam secando no varal.

Sintam o luxo: meu chefe me deu carona até o H.C. Lá, fiquei no ambulatório com a filha fofíssima dele, que é R3 de ortopedia. Ela me concedeu um tour de primeira linha pelo hospital da UFPR. É bacana ver pai e filha trabalharem juntos. E depois ainda fui almoçar com eles na casa da mãe do doutor chefe. Ela é uma graça de vó e os filhos e netos sempre vão comer por lá. Era pertinho aqui de casa, voltei à pé.

Hoje descobri uma coisa importantíssima.

Tem um casal rastafari que de vez em quando encontro no elevador. Outro dia, saindo pro hospital, arrumadinha e tudo mais, vi que eles estavam esperando o elevador. Engraçado foi o nosso contraste, as 6:50 da manhã, escuro-tipo-noite-mesmo lá fora. Eles com as roupas que eu uso quando vou acampar, eu com os trajes e maquiagem de médica responsável. Confesso que senti uma pontinha de inveja porque me lembrei de como é mais fácil e divertido usar a fantasia de acampamento. Mas, enfim, tranquei a porta. E, quando olhei pro casal rasta, o cara me deu um sorriso. Mas uma sorriso simpático, meio de cumplicidade, como se, sei lá, a gente fizesse aniversário no mesmo dia e estivesse perto. Achei peculiar, mas retribuí a simpatia.
Daí encontrei eles umas duas vezes depois disso, na portaria, no elevador ou no corredor do meu andar. Eis que hoje estou aqui, quietinha na sala, quando ouço um barulho lá fora. Olhei no olho mágico e descobri a pólvora! Na porta em frente à minha quem mora é o casal rastafari! Então pensei que, quando eles me viram saindo de casa e trancaram a porta, descobriram quem era a vizinha da frente e de repente tudo fez sentido: o sorriso cúmplice às 10 pras 7 da manhã, a música do Bob Marley alta no fim de semana, o cheiro de incenso (pra camuflar outro cheiro, talvez? hihihi)

Então, poxa, quis comemorar essa descoberta em grande estilo: fui fazer brigadeiro com o cacau em pó da godiva que tinha trazido da yankeelândia. Separei o chocolate em pó nestlé pra misturar e o leite moça. Mas uma coisa muito me intrigou: não encontrei meu abridor de latas! Que estranho. Tinha certeza que tinha comprado naquela loja de panelas do centro que o Gil me levou uma vez. Procurei por toda a parte. Nada do abridor de latas. Muito confusa, troquei de roupa rápido e fui à Casa China, aqui pertinho, comprar abridor. 60 centavos mais pobre, voltei. E fiz um brigadeiro digno de nota em revista gastronômica na categoria de melhores brigadeiros de Curitiba.

Agora estou preocupada com uma coisa: meu matador de insetos nojentos sumiu! Me lembro bem do dia em que comprei ele: era meu primeiro dia aqui e eu estava no setor de inseticidas do supermercado, me sentindo muito confusa. Eu olhava aquelas opções todas: mata formiga, mata pernilongo, mata barata, mata o mosquito da dengue… Já estava achando que ia ter que comprar todos quando eis que surge uma luz do horizonte pra indicar o item de sobrevivência básica da menina fresca morando sozinha: Mata Tudo. Tinha um desenhozinho de uma barata, um pernilongo, um besouro, uma formiga e um inseto que não consegui identificar mas que certamente vou querer eliminar caso entre na minha casa. E essa foi a história da aquisição do meu Baygon. Tive a oportunidade de usá-lo algumas poucas vezes, acho que os bichos nojentos de Curitiba têm medo de mim (ainda bem). Mas me lembro uma vez que usei num bicho esquisito que tava voando desordenadamente e daí ele entrou dentro da cúpula de luz da sala! Acho que ele, num momento heróico, pensou que preferia morrer de insolação a morrer intoxicado. Mas o cadáver já foi devidamente removido.

Então daqui a pouco vou aproveitar o sábado pra sair e adquirir um novo insetisida e uma mesinha de cabeceira na rua de móveis usados. Está me fazendo muita falta, uma dessas.

(fotos recentes, do congresso e do rio:

http://flickr.com/photos/fernanda/ )

As 4 estações em um dia

fevereiro 13, 2007


Dizem que aqui em Curitiba podemos experenciar as 4 estações em um único dia. É verdade.

Um exemplo de dia normal: amanhece nublado, às 11 horas vai abrindo o sol, às 2 o céu está limpo, às 4 começam a aparecer umas nuvens, que às 5 se tornam pretas, cai um toró que alaga cidades vizinhas, começa a fazer sol de novo, mesmo com chuva, o céu limpa de novo e rola um pôr do sol bonito. De qualquer forma, em Curitiba chove bastante.

Só que o pessoal aqui parece estar tão acostumado que a maioria não usa guarda-chuva. Ou talvez as pessoas estejam sempre sendo pegas desprevinidas. Mas acho que a primeira teoria está mais próxima da realidade. Pelo seguinte: tive dificuldade pra encontrar um guarda-chuva pra vender. Se o Lonely Planet de Curitiba existisse, deveria ser a primeira dica – onde comprar um bom guarda-chuva.

Só que existe aquela lei que diz que sempre que se sai de casa com guarda-chuva, o tempo abre e faz um solzão. Ah, e tem um inconveniente. Quando você precisa pegar um ônibus e começa a chover torrencialmente, por mais que os pontos aqui sejam bonitinhos e fechadinhos, você acaba se molhando consideravelmente. E aí o ônibus atrasa também, por causa da chuva. E aí você resolve pegar um táxi. Só que não passa nenhum táxi quando você precisa. Ainda por cima, Curitiba tem muito táxi cooperativado, então você vai fazer sinal debaixo daquele temporal e nenhum vai parar. Então você tem que sair e ir caçar um táxi em algum ponto. Ou ligar pra algum radio taxi. E é assim que o meu sapato vermelho novo molhou e eu quase chorei. Mas sobreviveu, o valente.

Sabe.. acho que aquela frase neozelandesa cabe aqui tambem: ” if you don’t like the weather in curitiba, wait five minutes.”

🙂

Ruim com eles, pior sem eles

fevereiro 10, 2007

chuveiro!

Parece que um dos meus carmas é lidar com chuveiros temperamentais. Parece que exerço algum tipo de atração sobre eles. Estou pensando em abrir um centro psiquiátrico pra chuveiros com transtorno bipolar. Ou um grupo de apoio para pessoas que sofrem do mesmo mal. Vou botar na minha porta uma plaquinha assim: “você tem problemas de relacionamento com o seu chuveiro? Nós podemos ajudar.”

Por que é que é tão difícil regular um mecanismo tão indispensável pra humanidade?

O ápice do meu problema com chuveiros foi há pouco tempo em uma pousada no caminho de Curitiba pro Rio. O bicho ficava ou infernalmente pelando ou polarmente congelante. E o jeito foi tomar banho na breve transição de 30 segundos entre cada estado de humor.

Outra coisa que sempre tive dificuldade pra manipular é o ar condicionado do carro. O do meu, por exemplo, vai até o centro todo dia sendo ligado e desligado. Porque o “1” é frio demais e no “0” parece faltar oxigênio pra respirar. Mas com esse problema eu não preciso me preocupar mais, porque aqui eu sou pedestre.

Aliás, isso me lembra uma vez que fui pra Teresópolis de ônibus. Sentei lá na frente, bem do lado do motorista, e ganhei de presente aquela janelona dianteira pra ficar espiando os motoristas e passageiros dos carros da frente. Nesse dia descobri que as pessoas fazem obsessivamente 2 coisas enquanto dirigem: mudam a estação do rádio e abaixam ou aumentam o ar condicionado. E, desde então, sempre que ando num veículo alto em que dê pra observar as pessoas dentro dos carros, não deixo de perceber e me parabenizar pela descoberta dessa compulsão coletiva por trocar a estação do rádio e o nível do ar.

Deviam fazer um estudo sociológico.

A tão sonhada residência

fevereiro 7, 2007

Convivendo com uma penca deles diariamente, nem preciso de vidente ou tarot: posso vislumbrar o futuro.

Pra quem ainda confunde alhos com bugalhos, residente é o pobre coitado, exausto e mal pago médico recém-formado que se aventura num serviço onde, dali a 2, 3 ou 4 anos, sai especialista em algum pedaço do corpo humano. E aí ou vira residente de novo, de uma subespecialidade, ou então, se der mais sorte, vira chefe e vai mandar nos novos residentes.

Pois bem. Algumas verdades sobre o residente. É um dos caras mais injustiçados do mundo. Na hierarquia do hospital, até o faxineiro manda no residente. E, como não podia deixar de ser (como todo pobre e oprimido), é disparado o ser mais reclamão da área médica. Em alguns momentos, as lamentações viram uma diversão e o ritual do café da manhã é disputar quem levou mais esporro, quem se deu pior na escala dos plantões e, claro, inventar as histórias mais esdrúxulas possíveis sobre o general ou generala mais temido(a) do Q.G.

Dia-a-dia de residente de ortopedia em um lugar bom é assim: acorda às 5 da manhã, chega no hospital com sono porque foi dormir a 1 da manhã (ficou estudando ou estava em cirurgia) e vai passar visita nos doentes. A visita é feita em grupo, todos os residentes e todos os chefes. Aí cada um vai passando o que tem seu(s) paciente(s), como ele está naquele dia, quais as medicações que está tomando, mostra os rx comentando o que está alterado e diz o plano cirúrgico. Aí ele começa a ser sabatinado: onde está o raio-x de 7 anos atrás dese paciente? Por que ele vai fazer essa cirurgia e não aquela? Qual a chance da cirurgia não dar certo? Qual a fisiopatologia da luxação paralítica do quadril e qual a diferença dela pra luxação congênita? Entre outras. Quando não sabe, toma bronca. Quando sabe, continua a ser sabatinado até chegar a uma pergunta que não sabe responder. Aí, sim, toma bronca.

Depois da visita, eles tomam café, onde se passam os eventos divertidos que contei acima. E após esse rápido momento de descontração, vão pro ambulatório, atendem uns 10 paciente cada um, fazem gesso, curativo, entram em cirurgia (o chefe pergunta alguma coisa e, quando o residente não sabe, adivinha o que acontece:), e de vez em quando atendem emergências. Almoçam a comida do hospital, que até é comível mas é sempre a mesma coisa. Depois voltam pra onde estiverem escalados: ambulatório, cirurgia. Escrevem pra caramba, pedem exame, dão atestado, fazem descrição cirúrgica, prescrevem remédio, marcam cirurgia, fazem mil medidas no raio-x (e no paciente, é incrível a quantidade de ângulos que nossas articulações são capazes de formar). e de repente, quando estão crentes que podem ir pra casa junto com suas olheiras profundas, chega a secretária e diz: doutor fulano, você vai entrar em cirurgia agora, tá? tem uma fratura supracondiliana de emergência. Se derem sorte saem do hospital às 7 da noite. Senão, esquece. Só lá pelas 10. E quem tá de plantão fica até o dia seguinte.

E chega o sábado, mas o que você acha que residente faz sábado?

Vai passar visita e pode ter que entrar em cirurgia de última hora também. Ah, mas aí tem domingo, você pensa.  É, tem o domingo, pra quem dá sorte de não ser escalado pra plantão ou sobreaviso.

Uma observação importante: os residentes falam muitos palavrões por dia.

Mas tudo vem, residente amaldiçoa o chefe. O chefe diz que residente bom é uma espécie em extinção e que “essa raça é fogo, é tudo igual”. Faz parte e, com o tempo, os papéis se invertem.

O mais irônico é que o sonho de todo mundo que está no último ano de medicina é, de fato, virar residente. E é pra essa vida supra-citada que a gente estuda mil horas por dia, entra em cursinho à la vestibular e na paranóia de fazer mil questões de concursos. Porque as vagas são pouquíssimas e só tem o privilégio de se tornar o saco de pancada de uns staff’s fodões quem passa no funil.

Ah, sim! Lembra que eu tinha falado que quem inventasse um bom nome pro sexto-anista de medicina ganharia um doce?

Aqui eles chamam de “doutoranda”. É muito esquisito e sempre que tenho que me apresentar pra alguém não consigo dizer que sou doutoranda. Poxa, doutorando é quem faz doutorado. Eu acabo sendo prolixa: oi, eu sou interna do sexto ano, sou do rio de janeiro e vou ficar aqui até junho. Pronto, né. As pessoas costumam ficar satisfeitas com essa apresentação. E quando atendo um paciente (tem que assinar no prontuário) assino “Fernanda (interna)”.

Os residentes brincam que até eu estou acima deles na hierarquia. Só porque não tomo esporro quando respiro errado e porque, quando a cirurgia termina tarde (como ocorreu hoje, em que fiquei em cirurgia de 7 da manhã às 3 da tarde sem parar), o chefe me leva pra almoçar. E ainda é super estilo: ele vai me apresentando pra todo mundo que encontra no caminho. Hoje me apresentou à diretora do hospital, que falou pra eu passar na sala dela um dia desses pra  gente bater um papo. Fiquei pensando que deve ter sido uma gentileza da parte dela. Porque imagina, a situação? “Oi, lembra de mim? Então, vim bater papo. Como vai a administração do hospital?”

Sob nova direção

fevereiro 5, 2007

Meu namorado veio e, com ele, meu computador. Agora mando notícias por aqui, em textos que já estavam escritos, só esperando chegar o envelope com selinho pro mundo.

Quando cheguei aqui descobri que tenho um anjo da guarda no Paraná. Que se chama Gil. Foi me buscar no aeroporto (eu e meus 60 quilos de excesso de bagagem), me levou até a imobiliária e depois de lá até em casa, me ajudou a conseguir telefone, me ensinou um atalho pra uma rua super fofa, me levou ao supermercado e a lugares baratinhos pra comprar panelas, tupperware, numa rua de móveis usados onde fiz um ótimo negócio comprando uma escrivaninha. Me concedeu um tour gratuito e cheio de comentários curiosos pelo centro, me deu um modem, um telefone e uma cadeira. E ainda me trouxe hortelã da horta dele. Gente! Não é super anjo da guarda? Vou começar uma petição pra concederem ao Gil o título de anfitrião honorário de Curitiba.

Fui comprando as coisas que precisava aos pouquinhos. O que foi bem divertido porque cada nova aquisição era motivo de uma festa interna. Chegava em casa e era: u-hu, tenho cabides! lálálá, uma tábua de passar roupa! yessss, consegui um liquidificador! (esse consumo particularmente foi bastante comemorado e, na seqüência, “tivemos” sessões diárias de sucos de diferentes frutas, que até hoje fazem sucesso)

A melhor coisa de todas é poder chegar ao hospital em 7 minutos andando. Eu durmo menos, tenho menos tempo pra me alimentar direito, estudo mais, sou dona de casa dedicada e ainda assim me sinto menos cansada do que no Rio. O que, a meu ver, prova o quanto o trânsito carioca suga minha energia e meu humor.

Meu hospital só atende criança, é o hospital infantil com o maior volume de pacientes, cirurgias e procedimentos do Brasil. É referência pra uma série de patologias e tudo funciona, um médico me disse uma vez: “parece primeiro mundo”. As pessoas vêm do sul inteiro (em alguns casos, de vários cantos do país) pra serem tratadas no Pequeno Príncipe. Só lá na ortopedia devem ser umas 90 crianças por dia, sem contar as emergências. As idades variam. É interessante: você atende um bebê de 1 mês e depois um adolescente todo grandão e desengonçado de 16. Tem uns 10 residentes homens e só mais uma menina além de mim. São todos bem figuras e divertidos. E tem os chefes. Tem o chefe-mor e os outros chefes, cada dia é um. Tem uma que é a mais brava de todas e distribui broncas e lições. Tenho medo dela.

Antes de eu vir pra cá, as pessoas me advertiram tanto sobre a frieza e a falta de educação dos curitibanos que vim tão psicologicamente preparada, pra ser ignorada ou mal tratada, que estou achando todos eles uns amores. Ou vai ver é o carioca é que anda anormalmente mal humorado nos últimos tempos…

Mas, pra começar, os curitibanos são incrivelmente pontuais. Logo que cheguei liguei pro chaveiro pra que ele viesse trocar o segredo e pra companhia de telefone, pra instalarem a minha linha. Os dois disseram que viriam no dia seguinte pela manhã. Só que, no Rio, isso significaria que um deles chegaria na hora do almoço (a 1 da tarde) e o outro só lá pelas 5. Então já sabia que ficaria o dia inteiro em casa. Deixei a faxina e uma parte da louça pro dia seguinte, em que certamente ficaria presa esperando os caras. Às 9 horas em ponto tocou meu interfone, era o chaveiro. Que resolveu rápido o lance do segredo. Fiquei maravilhada. Ainda mais porque às 10:15 chegou o técnico pra instalar o telefone. E ao meio-dia eu estava livre pra sair pra passear e resolver mais coisas. Não é incrível?

Por outro lado, não existe aquela informalidade generalizada carioca. Outro dia estava no shopping e fiquei impressionada com umas meninas de uns 14 anos usando mais maquiagem do que já usei em toda a minha vida. No shopping! Às 2 da tarde! E também tem essa coisa de todo mundo tratar os outros por senhor e senhora. Tenho que me policiar pra não parecer abusada tratando o chefe por “você”. Me lembrei de uma vez em que abri o Lonely Planet do Rio, na Argumento, e tava escrito assim: primeira coisa que você precisa saber sobre o Rio de Janeiro – é a cidade mais informal do mundo.

Mas aviso, essa cidade aqui tem todo um charme, um je ne sais quois e corre o sério risco de me conquistar.