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There is no place like home

abril 20, 2007

dorothy tinha razão

Por onde começar?

Se me ausentei um pouco não foi por falta de assunto. Muitas coisas têm acontecido, mas tenho tido mesmo pouco tempo para esse piegas e querido relato fielmente enviesado de fatos e ocorridos da minha vida. Será que ela já virou fofoca? Já caiu na boca do povo? Enfim.

Depois de 2 fins de semana seguidos em família (um com eles aqui e outro comigo no Rio) o silêncio na minha casinha, assim que eu cheguei nela, parecia um pouquinho maior do que normalmente. Mas era bom chegar. E em poucas horas era como se eu nunca tivesse saído. Quer dizer, algumas lojas fecharam aqui na minha rua e proximidades. É gozado isso, nessa cidade, como as lojas, boates, bares, pet shops, comércio de rua em geral abrem e fecham de um dia pro outro. Só a Casa China mesmo que detém o império-monopólio das all-things 1.99, e nunca vai falir.

No aeroporto foi uma aventura. Saí de casa às 9:30 e meu vôo era às 10:30. Cheguei no Galeão às 10 e, quando olhei a fila quilométrica da Gol, pensei: ah, sem problemas, vou falar pra essa mulher de uniforme laranja que o meu avião decola em meia hora. Mas eu não conseguia falar com a moça, ela era muito requisitada. E eis que sai de não-sei-onde um cara simpático da Gol gritando: “Curitiba, Foz do Iguaçu, alguém?” E aí gritei eu, eu, eu, eu. Um senhor também se manifestou e aí seguimos o rapaz até uma filinha exclusiva pros retardatários. Não deu pra escolher muito o assento, eu ia falar mas o cara do computadorzinho do check-in estava mais afobado do que eu. Fiquei no 22C, corredor, o que era chato. Mas aí corri pro embarque e tinha uma filona no negócio do Raio-X. Quando tava quase chegando a minha vez era 10:15 e tomei um esporro do cara porque fiquei nervosa com as pessoas (que são muito lerdas pra colocar seus pertences naquela esteira suja) e ultrapassei a linha amarela umas 3 vezes. Finalmente passei – Ufa! Olhei minha passagem, portão 1. Fui pro portão 1 e não tinha nada, avião, gente, fila, nada. Caramba, e agora? Será que o avião foi embora mais cedo? Mas isso não pode, isso é um absurdo. Aí fiquei procurando gente pra quem perguntar, procurei, olhei, não tinha ninguém, só passageiro, que nem eu. Aí desisti de encontrar pessoas do aeroporto e perguntei pra uma mulher que estava ali vendendo cartão de crédito. Ela foi simpática (também, com a minha cara de pânico, quem não seria?) e não é que ela sabia das coisas? “Ah, esse vôo mudou de portão! É o 7.” Aí corri pro 7 e fui a penúltima pessoa a entrar no avião. Tinha uma pessoa mais atrasada ainda do que eu! Mas eu sempre faço isso com vôos domésticos e sempre dá certo! Um dia eu vou ser que nem o Hurley! (essa apenas os telespectadores de Lost pegarão, minhas sinceras desculpas aos demais 3 leitores.)

Foi tão bom ter ido pro Rio. Que bom que consegui aquela passagem a 50 reais e não pensei duas vezes (só liguei pro meu pai pra checar se podia mesmo). Primeiro fiz todas aquelas mil coisas mulherzinha e disse pra minha manicure, pra minha depiladora e pra minha sobrancelheira que não existem manicures, depiladoras e sobrancelheiras como elas em Curitiba. E elas ficaram contentes. E a minha manicure até me deu uma xícarazinha pintada a mão e uma barra de chocolate, que fofa. A Bessie também pareceu mais feliz em me ver dessa vez do que da última e fiquei com dó quando ela me esperou na minha cama na primeira noite, em que eu não ia dormir em casa. Almoçar com a minha mãe na 6a e com meu pai e irmã no sábado e ficar 2 horas conversando é um troço que você só se lembra como é especial quando todos os seus almoços de fim de semana são sozinha, no máximo assistindo seriados ou notícias, pra tirar a seriedade do troço. Engraçado como as coisas rotineiras ganham importância quando elas subitamente desaparecem. E os meus amigos mais queridos, que não vão me chamar de super-nerd quando eu falar que queria uma mapa mundi gigantesco na parede da minha casa, que não vão achar esquisito falar de umas bandas e filmes e shows e que têm as melhores piadas, aquelas que eu não preciso fingir que estou achando engraçada só pra ser simpática. Também fui ver o apê novo da minha vó, que tá ficando um barato e a cara dela e fiz um videozinho maneiro dela na piscina tomando banho na cascatinha e do meu vô fazendo um mini-discurso (ele adora). Estou curiosa pra saber como vai ficar quando estiver tudo pronto, talvez já possamos estrear no dia das mães, que por acaso coincide com o aniversário da minha avó.

Outro dia fui à arena com o chefe. Primeiros comemos aquela pizza deliciosa que vem dentro da focaccia, que só tem aqui na cidade. Depois fomos eu, o chefe e sua família (que agora é um pouco minha também): a mulher e a Ana. Foi bem divertido, o jogo era Atlético X Cianorte, pelo campeonato paranaense. O estádio é tão bonitinho, todo limpo, as cadeiras vermelhas envernizadas, brilhando, em nada lembra o trash (porém querido) maracanã. Fico impressionada como gosto de ir assistir jogo em estádio. O mais legal é a fauna. Tinha uma menina na nossa frente que, a cada 5 minutos, parecia que ia infartar. (E eu achava que o doutor chefe é que era atleticano doente, ele se divertia calmamente, que nem eu.) Do nosso lado também tinha uns caras super hilários, com xingamentos dos mais criativos. Me lembrei daquele jogo que assisti nas Laranjeiras, contra o Bangu, com o meu tio fanático, que chamou o goleiro adversário pra dizer que ele tava parecendo uma balairina, entre outras coisas. Fiquei pensando também como deve ser legal ter um estádio pertinho de casa e seguro e poder ir quase toda semana ver os jogos.

As cirurgias têm sido interessantes. Outro dia entrei numa amputação…
Era uma menininha de 3 anos que nasceu sem um dos ossos da perna (a tíbia), nas duas pernas, e aí amputamos os pés dela (ela andava com os joelhos) pra, no futuro, colocar uma prótese pra que ela possa andar como todo mundo. Não posso dizer que foi uma cirurgia bonita. Era visível que, no fundo, o cirurgião não estava gostando de estar ali, fazendo aquilo. Aí, à noite, quando contei isso pro meu pai, ele disse: “ah, filha, ninguém gosta.” Cada especialidade tem o seu calcanhar de aquiles, eu acho…

Tem várias outras histórias de gente. Teve a menina que foi picada por uma cobra e teve síndrome compartimental e precisaram abrir a perna dela de urgência ou ela perderia o membro. Teve o bebê de 2 meses que eu atendi hoje mas que não tinha nada. Teve o menino de 16 anos de moicano e cheio de piercings que era filho adotivo e tinha um cisto na mão. Teve o Norton, que tem 4 anos, é uma espoleta e vai operar o outro pé dessa vez. Tem uns que só choram, tem outros que têm mães desesperadas, mas tem tantos legais.

Adoro quando dá pra voltar pra casa pra almoçar. Porque dou uma estudada, uma descansada e vejo um episódio de Felicity enquanto como. O que, aliás, é muito 1999! Eles gravavam fita uns pros outros e achavam o máximo aquele mac grandão todo meio transparente e colorido. Mas eu ainda gosto de Felicity, quão mongol uma pessoa pode ser?

Aliás, falando em seriados, minha vida agora está completa aqui: descobri uma anestesista que também vê lost e também baixa os episódios! Em quase 3 meses aqui, eu ainda não tinha mencionado o seriado pra ninguém, porque estava evitando aqueles olhares de: “ok, você é uma pessoa estranha.” Mas aí ela estava falando de Lost outro dia e eu não me contive e aí meu plano foi todo por água abaixo! 3 meses de esforço e trabalho na minha auto-imagem para nada! A cirurgia já tinha acabado e a gente estava só fazendo um gesso quando a Dra. Anestesista entrou na sala perguntando se eu já tinha visto o episódio de ontem. Aí ela começou a falar de como o episódio tinha sido foda e de como que eu tinha que ver pra gente comentar e blalabla, mas eu disse que só ia baixar 6a à noite porque o meu namorado estava vindo nesse fim de semana e ele ia ficar chateado se eu não esperasse pra ver com ele. Ela falou: “não, mas você tem que ver logo! Depois você assiste de novo, com ele! Você não vai agüentar esperar até sábado!” Poxa! Assim não dá. Sabe o diabinho da sua cabeça, que fica te tentando com as coisas? Mas aí eu mudei de assunto rápido e me deixei levar pela empolgação da identificação e a gente ficou falando de como o Charlie não deve morrer e do que pode acontecer com a Sun pelo fato de ela estar grávida na ilha e das visões do Desmond. E aí, foi bem aí que meu segredo foi revelado e 2 residentes + o chefe descobriram que eu sou uma mega nerd esquisita. Porque eles perguntaram: do que diabos vocês estão falando?
Tá vendo? Tanto esforço pra parecer uma pessoa normal… tudo em vão! Eu sou mesmo uma loser de não ter resistido e ter feito uma amiga (ela deve ter uns 30 e muitos) só pra falar de Lost.

Mas, de todo jeito, depois de tanta verborragia (e de vários dias escrevendo cada vez um pouco desse post), penso que ter ido pra casa foi mesmo a melhor coisa que eu poderia ter feito no fim de semana passado. Engraçado, porque parece que já faz tanto tempo. E, quando eu cheguei lá, parecia que não ia há séculos. Parecia que eu não me lembrava mais das cores e do cheiro e da luz da minha casa. Você estranha algumas coisas: como o box do banheiro é maior, como o armário está vazio, como o arroz é soltinho. Mas sem perceber você se acostuma, você percebe que está tudo do jeito que você deixou. E a rotina parece estar toda lá: o cantinho fresco em que a bessie gosta de ficar, espremida entre a mesa da cozinha e a parede. O barulho escandaloso do motor do carro. O sorriso simpático do porteiro. As seções do jornal espalhadas pelos cantos. Alguma coisa que está lá sem funcionar há um tempão (sempre tem alguma coisa que não funciona e que vai sendo ignorada até que se tome uma atitude a respeito, no caso é o forninho;). O vento cantando no final da tarde. Que importante, isso tudo…

Por isso senti uma alegria, um conforto (sabe aquele colo que vez ou outra a gente ganha da mãe ou aquele abraço de urso com o qual o pai nos surpreende?) quando recebi o email do menino da comissão de formatura, falando que a foto da turma de formandos vai ser no dia 6 de maio. O que significa que vou ao Rio dois fins de semana seguidos, porque já tinha comprado passagem pro dias das mães em fevereiro. E sabe? Que bom.

E aí tem aqui também. Aqui eu tenho barulho ou não, comida ou não, estudo ou não, sono ou não. Tomo banho com a porta do banheiro aberta. Expulso (liberto?) educadamente as mariposas que entram pela varanda. Apanho as roupas no varal ainda quentinhas do sol. E sinto uma brisa geladinha todo dia de manhã cedo, nos 10 minutos em que ando, sem música sem nada, só com os carros e as pessoas, até o hospital. Sempre presto atenção no tempo, nos sinais, nos outros pedestres. Sempre passo por uma praça onde as pessoas às vezes estão caminhando mais depressa do que eu. Mas não tem importânica. Porque, sabe? É sempre só minha, essa caminhada.

É só minha essa sensação de chegada e partida. E a permissão (ou seria uma decisão?) de confundir as duas.

Estar em casa é bom. É meio maravilhoso, na verdade.

Leite quente

abril 2, 2007

pães artesanais da padaria américa

Acho que trouxe meus cobertores, casacos e aquecedor tudo à toa. Acho que essa história de que Curitiba é frio é um mito. As pessoas estão realmente perplexas por aqui, porque já é abril e o calor realmente incomoda. E a cidade fica a 900 metros de altitude (será que as minhas hemácias ficaram mais ávidas por oxigênio?), então é aquele calor abafado e aquele sol cortante de serra. Além do quê, não é uma cidade preparada para o calor. Só tem ar condicionado em alguns shoppings e olhe lá. No hospital não tem ar e nem aquele pé direito altíssimo das enfermarias da santa casa, que fazem a gente preferir ficar dentro dela (com todas as suas deficiências e precariedades) do que do lado de fora, exposta àquela agressão que é o calor no centro do Rio.

Fui comer uma pizza na casa do chefe ontem e ele falou que está pensando em instalar ar condicionados para o próximo verão, o que há até pouco tempo era super desnecessário e inimaginável pra um curitibano. É sempre bom ir na casa do chefe, a gente fica lá batendo papo, vê tv e dá risada dos cachorros. Eles têm um casal de schnauzers bem figuras.

Mas, voltando ao calor, acho que como carioca estou sobrevivendo bem ao famigerado aquecimento global na capital mais fria do Brasil.

E vou incorporando as gírias. Tosco é tigre, salsicha é vina, Loiro é polaco, menino é piá, catarinense é só catarina, Coritiba é coxa, bolado é de cara, sinal de trânsito é sinaleiro. E tem umas coisas que eles falam sempre, como o dinheiro no aumentativo: cincão, dezão, cinqüentão, cenzão. Olha o tipo! – quando querem dizer “que idéia” ou “que figura”. E volta e meia eles falam voltimeia. Eles usam o imperativo muito mais que a gente: “faça esse exame”, “veja o bisturi”, “volte em 2 meses”. É mais correto, não?

Vou incorporando hábitos também. Daqueles que tornam a rotina mais sobrevivível, menos pesada. 2a tomo sorvete antes de começar a estudar. 4a sempre almoço com o chefe e chego tarde, bem cansada. Às vezes ponho uma essência aromaterapêutica no difusor. 5a à noite tomo um banho bem comprido, com meu esfoliante de pitanga e meu shampoo economizado da Redken, porque é um dia bem exaustivo e aí me recompenso com um tempo bem investido debaixo do chuveiro.

e 6a tem a tarde que eu reservo pra ir ao supermercado, à lavanderia e a duas padarias diferentes, porque uma tem um croissantzinho gostoso e porque outra tem uns pães alemães caseiros especiais. Nessa 6a cheguei a andar umas 20 quadras. Ando bem por aqui. Como umas coisas muito anômalas, que nunca tive coragem de comer em casa, como nutella, geléias, massas, e não engordo. É incrível! Mas tenho uma reclamação a fazer em relação às calçadas: são irregulares demais! Não dá pra andar de sandália, por exemplo. Passei até a integrar uma comunidade sobre o repudio às calçadas curitibanas, que a Ana me indicou.

Sábado eles entregam as minhas roupas e eu adoro o cheiro de quando elas chegam. E é um dia em que eu durmo mais, estudo, às vezes faço comida, às vezes peço comida, às vezes vou num a quilo aqui perto e trago pra casa numa quentinha. Eu sempre prefiro comer em casa porque dá pra ficar à vontade, ver tv ou falar no telefone. Mas nesse sábado almocei no shopping, com a Ana. Não tinha ido ainda no Shopping Mueller, e ela me levou lá pra gente passear e contar as novidades. Agora já fui aos shoppings principais da cidade (ei, ir a shopping é algo vital pra quem mora na capital do paraná). Mas acho que gosto mais do Crystal, que é bem bonito e gostoso de passear, e do Barigüi, que é todo reto e tem cinemark, a loja de calcinhas fofas e a loja só de all star. Aliás, sábado passado fomos ao shopping Barigüi, né.. Sábado, 8 horas da noite. Já fui preparada psicologicamente pra encontrar um lugar intransitável e insuportável e não conseguir comprar ingresso pro filme. Mas, não. Aqui até ir ao shopping em pleno sábado é menos estressante. Dava até pra dançar tango nos corredores, se a gente quisesse. E tinha só mais um casal além da gente na fila pra comprar ingresso pro cinema! Ah, assim não dá, vou ficar muito mal acostumada.

E agora a melhor notícia da semana: que eu tinha conseguido passagem da Gol a 50 reais pra um fim de semana no Rio não é novidade. Mas que meu namorado conseguiu ida E volta a 50 e vai passar o tiradentes E o feriado de primeiro de maio aqui, isso sim, é um troço meio incrível e que me deixou bem contente. Espero só que os controladores fiquem menos bravos também. E urgentemente, porque minha família vem na semana santa.

Agora vou pra 5 horas de hemato no medcurso. Hemato. Quero ser ortopedista logo e pôr fraturas no lugar, engessar pessoas e aprender a fazer todas aquelas cirurgias bonitas. Mas, não. Por enquanto, hemato.