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Degrau por Degrau

maio 13, 2008

A residência médica é umas 10 vezes mais concorrida do que o vestibular, pra algumas especialidades. Pra outras, não. Por exemplo, esse ano sobrou vaga pra Pediatria. O negócio é que você, depois de ralar 6 anos pra se formar nesse outro plano de existência que é a medicina, quer fazer residência em um lugar bom. Você quer se dar a esse luxo. E são nesses lugares bons em que a concorrência é pior do que o vestibular. E é nesses lugares bons que você vai deixar de ter vida, sábados, domingos, feriados, enfim, você vai pertencer a um hospital. E ainda vai ter que ter todas as respostas na ponta da língua pra não ganhar um olhar de desprezo ou umas palavras amargas de um chefe que se esqueceu como é ser residente (ou, mais provavelmente, quer vingança). Mas, paradoxalmente, é com isso que todo médico recém-formado (ou prestes a jurar hipócrates) sonha. É a famosa residência dos sonhos. Uma boa e escravizante formação.

Acontece que a maioria das pessoas não quer nem pensar no que pode acontecer caso elas não passem no concurso de residência. Pois então, vou esclarecer: a pessoa volta pro curso (ou não), e se prepare, porque é lá que a ficha cai de verdade. Vai dar uma deprimidinha e emagrecer (ou não). Seus pais vão reagir de alguma forma, pois tinham expectativas (ou não). Vai procurar um plantão de emergência ou CTI pra ganhar uma experiência e um dinheirinho (ou não). E vai tocar sua vida pra frente, vai sobreviver. Como eu estou fazendo. Essas coisas podem acontecer com maior ou menor intensidade quando se sofre uma “derrota”. Eu caí num buraco que parecia não ter fim, me entreguei à angústia, a um desespero avassalador.

Mas cortei o cabelo, abri um blog-brechó, me apaixonei pelo budismo, entrei na terapia e estou subindo, estou tentando rise above. Degrau, por degrau.