Respirar é preciso

Uma das poucas coisas que eu lamento na minha vida de médica é não gostar de Dermato ou de Cirurgia Plástica. Porque, verdade seja dita, essas especialidades têm um retorno financeiro nada desprezível e, dentro delas, você consegue ter uma vida mais ou menos organizada. Além do fato de terem pouca ou nenhuma emergência. Imagina alguém te ligando às 3 da manhã porque surgiu uma espinha na ponta do nariz? Ou por que precisa de um a lipo urgentemente? Acho que não, né..

Mas o problema não está nas especialidades, e sim em mim. Parece papo de fim de namoro, mas a verdade é que sou eu quem não se sente bem fazendo especialidades estéticas, depois de tanto estudo e de ter visto tanto sofrimento e de ter se sentido tantas vezes impotente diante da dor alheia, da morte e da limitação. A razão pela qual fiz medicina continua sendo a mesma: fazer uma diferença. Ajudar outras pessoas, dormir um sono de consciência leve e carregar sempre aquele sonho (e realizá-lo a cada consulta, cirurgia ou procedimento) quase adolescente, quase visionário mas tão precioso, de estar fazendo a minha parte pra que o mundo seja melhor, com menos sofrimento, com mais qualidade de vida. A estética tem uma importância fundamental! Muitas vezes uma pessoa recupera a sua vontade de viver graças à resolução de alguma coisa que a incomodava. E muitas vezes isso se traduz em crescimento pessoal e profissional, em impactos extremamente positivos, é um tipo de ajuda bem específico na realidade. Acontece que simplesmente não é pra mim.

O que é uma pena! Porque eu realmente valorizo qualidade de vida, o bem estar… Não quero ser aquela médica que manda os pacientes fazerem exercício, se alimentarem corretamente e levarem uma vida menos estressante se eu mesma vou ser uma pessoa sedentária, que mal tem tempo pra comer e dormir e trabalha que nem uma desesperada. Eu já vi pneumologistas que fumam e endocrinologistas obesos aos montes por aí. Mas esses são protótipos do paradoxo entre ser médico e ser humano. Há hábitos com relação de causalidade muito mais suave do que esses, e praticados por TODOS os especialistas.

E eu acho uma coisa maravilhosa quando eu consigo pegar sol durante meia horinha num dia de semana. Quando vou pra yoga 2 vezes por semana ou quando faço natação. Quando como alguma coisinha de 3 em 3 horas e me mantenho num peso, porque quem come de 3 em 3 horas não morre de fome, não prepara o organismo pra absorver uma maçã como se fosse uma feijoada, não fica irritado e nem sem energia o tempo inteiro. Acho incrível dormir 8 horas por noite, pegar um cineminha no domingo à tarde, encontrar amigos e jogar conversa fora e dar risada 1 vez por semana e levar o cachorro pra passear todo dia de manhã cedinho ou nos finais de semana no calçadão. Essas coisas que fazem um bem tão grande à gente, que ajudam o sistema imunológico, que dão mais pique, que tornam a vida mais prazeirosa.

Então eu ainda não sei com qual das 3 especialidades loucas eu vou ficar. Mas eu sei aonde quero chegar com ela: em uma vida o mais leve possível. Pra que eu esteja cheia de energia vital.

Afinal, quem não tem luz própria como vai fazer pra ajudar a iluminar o vida dos outros?

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Uma resposta to “Respirar é preciso”

  1. peixequecomiaestrelas Says:

    Sou estudante de medicina. Achei seu blog fazendo um trabalho pra faculdade! E, olha só… Estou devorando seus posts. Adorei aqui.

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