Archive for the ‘Cinema’ Category

das belezas da vida que a gente encontra na rede

agosto 15, 2007

1:

Me and You and Everyone We Know

Semana retrasada assisti em DVD “Me and you and everyone we know”. É um filme experimental, da Miranda July, que além de ser a atriz principal (interpretando ela mesma: uma artista contemporânea cheia de camadas) ainda é a roteirista e diretora do filme. E, sabe, fiquei encantada. A história é simples, mas a seqüência de imagens e de acontecimentos banais (que se tornam extraordinários aos olhos de algumas pessoas excêntricas) exploram temas sensíveis (como divórcio, pedofilia e solidão) de uma forma que eu nunca tinha visto. Talvez aqui e ali, salpicado em outros filmes, como a cena do saco em “Beleza Americana”, quando ele diz: “Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it, like my heart’s going to cave in.” Eu acho que sou uma viciada incoercível na busca por essa sensação que ele descreve. Eu quero sentir, quero me deixar atropelar, quero ser desintegrada por uma beleza galopante. E que, quando eu conseguir me levantar ou me recompor em moléculas, quero ainda estar sob o efeito embriagante das coisas incríveis. E, assim que ele passar, eu sei que vou precisar de mais.

O que me lembra de “Candy”, que vi outro dia. Sobre outro tipo de dependência. Dois viciados em heroína e no amor sem fundo que sentem um pelo outro embarcam naquela jornada sem volta que a gente já viu em Réquiem. Como diz o personagem do Geoffrey Rush no filme: “When you can stop, you don’t want to. When you want to stop, you can’t.” É verdade que eu não estava esperando muito, mas me surpreendi imensamente. Esse filme é mais lírico que Réquiem, mais frágil, cheio de recursos visuais maravilhosos com música doída, a atuação entregue do Heath Ledger e preciosidades australianas: a fotografia, os sotaques. A Candy (linda, luminosa e loura) e o Danny vão alimentando o vício e consumindo tudo o que era genuíno: o amor, os sonhos, os valores, a ingenuidade. A gente sabe como termina. Mas mesmo assim parece que acabou de ver uma coisa deprimentemente linda.

Candy (2006)

mas depois de assitir “me and you and everyone we know” resolvi googlar a diretora. cheguei ao blog dela, que é mais uma forma de divulgar o próprio trabalho, o livro que ela escreveu, a agenda de exposições pelos próximos meses, os projetos e instalações dos quais ela participa, etc. mas, de lá, encontrei um link pra outra coisa da qual não páro de falar ultimamente.

2:

Constelação nas costas de Jovana Sarver, Philadelphia, Pennsylvania USA

Uma família de Seattle (2 pais, um filho de 20, 2 adolescentes e uma menininha de 5 anos) está completando o seu projeto: “Learning to Love You More” consiste em 63 assigments (deveres de casa?) que envolvem os mais variados tipos de sentimentos e atitudes. Algumas são altruístas, como 31 – Passe tempo com uma pessoa que está morrendo. Umas são divertidas, como 25 – Faça um vídeo de alguém dançando. Outras são emotivas, como 32 – Desenhe a cena de um filme que te fez chorar. E carinhosas como 39 – Tire uma foto dos seus pais se beijando. E há algumas ao estilo Amélie, como: 36 – Cultive um jardim em um lugar inesperado e 9 – Desenhe uma constelação com as pintinhas de alguém.

Essas tarefas foram assimiladas e executadas por gente dos 4 cantos do mundo e a família Oliver (os artistas idealizadores do “Learning to Love You More”) posta no site os resultados dos desafios aceitos por cada uma de todas essas pessoas desconhecidas que, de alguma forma, chegaram ao projeto e abraçaram a idéia. E daí os vídeos, desenhos, fotografias, músicas, gravações e relatos gerados pelas tarefas ganharão uma exposição no Bumbershoot Festival, em Seattle, em setembro. Eu fiquei encantada com esse projeto. Quero dizer, ISSO é arte contemporânea. Arte digital, interativa e cheia de desdobramentos práticos. Espero que a arte tenha superado, enfim, aquela história de expôr tijolos com um chumaço de cabelos em cima (com a transitoriedade da vida e a desintegração do homem ou explicações parecidas) e exponha mais coisas tão belas como essas, resultantes de 63 variáveis da vida.

3:

No Girl So Sweet, no DeviantArt

Papéis de parede lindos. Pra pôr no computador, no DeviantArt. E no Icon Factory. Eu não agüentava mais o mesmo papel de parede há 6 meses. Agora salvei um monte, vai dar até pra variar.

E papéis de parede lindos. Pra pôr na parede mesmo. Quando a gente tiver a nossa própria casa ; )

These Words

4:

O final de Edwards Mãos de Tesoura. Tinha me esquecido de como era lindo.

Anúncios

O troço que move montanhas na cidade luz

julho 9, 2007

Paris, Je T’aime

Paris, Je T’Aime é auto-explicativo. Histórias de amor passadas em Paris (não tinha lugar mais adequado, não?)
20 curtas, alguns deles de diretores renomados. uns 2 deles dispensáveis, mas que nem por isso deixam de ser válidos. uma meia dúzia que a gente torce pra que continue, pra que seja um longa.

Mas não sobre o amor óbvio, homem-mulher, arroz com feijão. Tem amor de mãe, amor doentio, amor por desconhecidos, amor de pai que virou avô, amor platônico, amor próprio, amor de filho. Amor que começa na dor, no desespero, na solidão, na identificação. Amor que nasce do fim iminente. Amor que começa com admiração e amor que nunca se consuma. E o que nunca termina, mesmo depois de papéis assinados e famílias reconstituídas.

E umas pérolas, como a Maggie Gyllenhaal doidona de crack, o Gérard Depardieu fazendo uma ponta de maitre, a Ludivine quase indistingüivel, numa cena de pouca luz, Gaspard Ulliel lindo e gay, os gritos da Natalie Portman e o tapa da Fanny Ardant.

É desses que, quando sair em DVD, vou querer ver de novo.

É proibido chorar em despedidas

junho 3, 2007


É proibido Proibir

Fui assistir Proibido Proibir numa sessão especial a 3 reais, no shopping Crystal, que fica aqui pertinho. E, sabe, gostei. Gostei dos universitários que tem alguma coisa minha (o jeito de andar, as expressões, não sei, alguma coisa). Da periferia do Rio, que quase nunca aparece. Do triângulo amoroso . E do beijo ardente no final. Em alguns momentos dá um pouquinho de vergonha alheia, mas são raríssimos os filmes brasileiros que não carregam esses instantes. Mas, não sei, algo me pareceu familiar. Aquele sonho de melhorar o mundo, de ajudar pessoas, aquela preocupação que a gente tem com a conjuntura toda, seguida por aquela sensação de impotência, de que está tudo podre, que não existe ninguém a quem confiar a nossa proteção, os nossos valores, os nossos parâmetros de ética e justiça. Aprender a viver na marra, com os conflitos de realidade, e se desiludir vendo que não dá pra tapar o gigantesco buraco do mundo. Quando eu crescer e deixar de ser uma idealista é isso o que eu vou fazer, quando tudo parecer meio desprovido de paixão: ir ao cinema.
(E eu queria ser linda e hippie que nem a Maria Flor, nesse filme.)

É proibido Proibir

Agora, capitalisticamente falando, tem gente mais chata que vendedor de loja?
Essas duas últimas semanas não sei o que me deu, mas andei comprando umas roupas em lojas que não tem no Rio. A conta do cartão me provoca uma certa ansiedade (pai, não fica bravo). Mas sabe quando você percebe que 90% das suas roupas tem mais tempo do que o seu namoro? E, no meu caso, vocês sabem né, isso é tempo. Então tenho entrado em algumas lojas e constatado, cada vez com mais convicção que vendedores são uma raça incômoda. Eu tô lá, olhando as blusas e começa o interrogatório. Já conhecia a loja? Não? Nunca tinha ouvido falar? Ah, você é de onde? Tá gostando da cidade? E o que uma carioca faz por aqui? Estágio em que área? Em qual hospital? Nossa, trabalhar com criança, que máximo, mas não dá uma peninha? E você quer se especializar em pediatria mesmo?
Caraca! Quem eles pensam que são? Meus amigos?
Bem, o que importa é que estou voltando com umas roupas que me deixaram contente.
E acho que meu casaco novo fez sucesso, porque recebi vários.. digamos.. elogios.. digamos… urbanos.

Fora isso, nem sei por onde começar de tão atolada que estou de coisas pra fazer até 6a feira. Tenho que escrever a carta de aviso de desocupação, pintar o apartamento, vender móveis, me despedir de pessoas, cancelar contas e fazer toda a mudança de volta. Talvez eu vá até Floripa ver o Flu jogar a final da Copa do Brasil, se meu tio me arranjar um ingresso, já que esgotou tudo em 1 dia. Senão vou ter que me amontoar em algum bar que, de preferência, não esteja cheio de figueirenses sem espírito esportivo. Que nem quando fui com o chefe ver o jogo do Atlético na Arena lotada e meu time eliminou o Furacão. Não comemorei nem nada (só quando cheguei em casa dei uns pulos). Mas ele mal me olhava no dia seguinte. Eu tinha me esquecido como os homens levam essas coisas à sério. É só futebol, sabe, eu adoro e não sei explicar por quê. Mas é basicamente isso. A paixão nacional.

Amanhã vai ter churrasco de despedida minha e dos residentes que, em 3 semanas, estarão voltando pros seus serviços de origem e o hospital estará recebendo a outra metade de residentes de ortopedia da cidade. Na verdade esse churrasco é uma tradição lá no hospital. É feito na chácara do meu querido chefe, ele inclusive manda matar um carneiro e sempre tem muita comilança e bebida pro pessoal se esbaldar e vão os outros chefes também. Mas esses residentes, não sei, andam meio desiludidos da vida. Eles não queriam ir (não sabia que eu estava tão sem prestígio!) mas aí o chefe foi lá e deu um esporro! Falou que não fazia a menor questão de que eles fossem na casa dele, que quem não quisesse ir que não fosse, mas que ele estava fazendo isso pra eles e que eles deviam ir nem que fosse pra se despedir da Fê, que ajudou tanto vocês no ambulatório e nas cirurgias. Fiquei até me sentindo mal.. Mas eles disseram que vão. Então, de repente, funcionou, né? Vamos ver como vai ser amanhã. Depois conto.
Quinta feira saí com as meninas. Todas médicas, óbvio. Os meus únicos 2 amigos não-médicos nessa cidade são o meu anjo da guarda, que é engenheiro de telecom, e a minha amiga que estudou comigo na escola e que veio pra cá por causa do noivo, ela é psicóloga. Mas, enfim, sexta feira estava destruída. E é tão especialmente difícil levantar no frio. Cheguei 7:20 no hospital, 20 minutos atrasada. O mais legal foi o olhar cúmplice que o residente que eu tinha encontrado (completamente bêbado) na night me mandou. Ele me disse, baixinho: “acho que ainda tô bêbado!” E ele ainda estava de plantão pelas próximas 24 horas! Fiquei o dia todo me sentindo um zumbi. Pensava o tempo todo: não sou feita pra vida noturna mesmo, tenho uma alma velha, que merda. Mas pelo menos atendi umas crianças fodas. Primeiro teve um bebê de7 meses que tinha uns olhos azuis que pareciam duas bolas de gude. O pediatra encaminhou pra gente porque estava suspeitando que o quadril estivesse fora do lugar. Depois atendi um recém-nato de 8 dias de vida que nasceu com 1 dedinho a mais no pé. Depois uma guria de 1 ano e meio com osteogênese imperfeita (aquela doença dos ossos de vidro, lembra do velhinho de Amélie?) que ficava me mandando beijos e tinha a risada mais gostosa. E depois uns 3 adolescentes bem gente boa. E o pior foi o meu casaco novo ter ficado empestiado com nicotina; quando é que vão passar aquela lei de N.Y. de não poder fumar em lugar fechado? Meu cabelo e minhas roupas agradeceriam imensamente. Assim como meus pulmões e bolsos, já que toda vez que saio no dia seguinte você pode me encontrar na lavanderia.

Hoje fiz janta e, enquanto isso, vi o último episódio de Felicity. Me lembrei de como achei que era o fim de uma era, quando vi aquele episódio pela televisão. Mas outras séries vieram, Sex & the City, Lost, Grey’s Anatomy… A mídia está sempre vendendo algo que a gente possa estar precisando consumir.

Felicity e Ben

More than this you know there’s nothing

novembro 25, 2006

Esse é um dos poucos filmes em que eu fico triste por quem achou chato. Porque, me desculpa o egocentrismo, mas essa pessoa simplesmente não entende.

Bob: Can you keep a secret? I’m trying to organize a prison break. We have to first get out of this bar, then the hotel, then the city, and then the country. Are you in or are you out?
Charlotte: I’m in.

🙂

Blogs, Orkut e a Monica Bellucci

outubro 10, 2006

>
Nos meus favoritos tenho uma pasta chamada “Blogteca”. Outro dia resolvi organizá-la. Foi um choque: mais da metade dos blogs estavam desativados ou então abandonados desde 2004. Fiz uma limpa e agora a blogteca está enxutinha, atualizada e verossímel, porque a lista era muito maior do que o meu tempo de visitar os escritos alheios.

>
O Orkut anda um porre. Tudo bem, é ótimo pra mandar recadinhos que não pertenceriam a uma mídia grande e branca como o email. O problema mesmo é que eu criei 11 comunidades, sendo que algumas têm entre 10 mil e 30 mil membros e a “eu amo meus avós” tem 237 mil membros. Pode não ser nada comparada à “sou legal, não tô te dando mole”, da qual faço parte, que tem mais de um milhão de integrantes. Mas, de qualquer modo, são comunidades grandes. E comunidades grandes atraem spam. Então, vira-e-mexe tem um sujeito me deixando scrap pedindo pelo amor de deus que eu “apague os tópicos indecentes e as propagandas da nossa querida comunidade”. Não que eu me importe tanto assim com uma comunidade no orkut (aliás, tem coisa mais inútil nesse mundo?) mas gera uma certa inquietude interna olhar o fórum da comunidade que você criou e ver que mais da metade dele é de tópicos como “Dani tesudinha – veja as fotos”, “Gere créditos grátis para celular”, “Sex Free” e similares. E o pior é que apagar esses tópicos é algo que toma um tempo absurdo (principalmente se a gente descontar a quantidade incontável de vezes que da erro no orkut) e é inútil (porque daqui a 2 dias os mesmos tópicos, dos mesmos perfis falsos, vão estar lá, por mais que você expulse os autores). Então, mais cedo ou mais tarde, vou acabar transferindo as minhas incríveis criações pra alguém que queira adotá-las. Por incompetência do orkut em dar um jeito nessas coisas irritantes.

>
Passou Irreversivel no telecine e eu finalmente assisti.

Mas, sabe, achei chato. Vai ver não tenho “capacidade pra compreender”, como li em algumas críticas. Mas achei o filme pretencioso pra caramba, com aquela forma de filmar tremida (a câmera parece às vezes estar bêbada, às vezes estar convulsionando, às vezes corre junto com os personagens e, na famosa cena do estupro, fica parada no chão, como se tivesse sido esquecida lá), sendo narrado em desconstrução do tempo, contado de trás pra frente (que nem Amnésia), com os lugares sombrios, iluminação esquisita. Oh, meu deus, que inovador! Esse cara é um gênio! : P
É verdade que o Gaspar Noé conseguiu o que queria: entrar pro hall da fama de filmes altamente polêmicos.

Mas fiquei achando tudo tão vazio, a argumentação fraca, o roteiro batido, parece que tudo é feito com o propósito claro de quebrar barreiras, de gerar reações fortes; fica forçado.

A cena do estupro: tinham falado tanto dela que achei que não fosse dormir à noite, depois que visse. Dura uns 10 intragáveis minutos e me chocou, sim, mas pelo prazer que o cara demonstra versus a dor que ela sente. (Achei gratuita também, mas muitas coisas na vida o são.) E gerou várias discussões de quem assistiu e se sentiu excitado ao mesmo tempo que enojado. O famoso paradigma do ser humano moral e consciente se contrapondo ao instinto básico, de prazer-dominação-poder. E talvez aí more o mérito da cena: vai ver que o mal estar provém, justamente, da excitação com algo repugnante, com o que há de pior no homem. Eu fiquei incomodada, mas não tanto quanto fiquei em “A Filha do General”. Talvez porque fosse mais jovem e porque tinha entrado no cinema sem saber do que se tratava e fui surpreendida pela história e pelas cenas.

Aparentemente, as coisas melhoram, ficam felizes e leves a cada vez que a história volta no tempo, o que dá aquela sensação de desespero, já que sabemos o que acontece com os personagens (porque as cenas do futuro já passaram). Mas a idéia, qual é? Somos reféns do nosso próprio destino (que é irreversível)? O tempo destrói tudo? Não sei, talvez eu esteja sendo muito rígida, mas tudo isso me pareceu pouco.

Monica Bellucci

O que importa é que eu, que sempre fui contra-Angelina, descobri que sou pró-Monica Bellucci. Que mulher cretinamente bonita! Uma diva e boa atriz.
Não é possível, deve ter chulé.

Monica Bellucci toda poderosa

O que veste o diabo

outubro 8, 2006

Olha, nem só de filmes cults se faz uma cinéfila : )

Achei “O Diabo Veste Prada” um pipocão de qualidade. Vamos deixar a esculhambação por conta da crítica, porque fato é que a Merryl Streep está impagável, Anne Hathaway é uma fofa, o namorado dela uma graça e NYC e Paris, não tem erro, vão ser sempre NY e Paris.

sempre tem o casal pelo qual a gente fica torcendo

Tem aquela coisa de filme americano, de sempre ter uma moral didática no final, a mania de humanizar o vilão, mas também tem aquela propriedade de saber entreter a platéia e a gente sai do cinema com astral bom.

O tema não é nada de novo: homem primata, sobreviva no capitalismo selvagem. Não que a personagem da Anne (universitária recém-formada, cheia de planos, sonhos e gentilezas) seja uma ativista do Greenpeace e não tenha outra opção senão aceitar um trabalho como vendedora de roupas numa loja que só vende casacos de pele. Mas ela certamente vai matando um leão por dia naquele mundo fashion que não acha importante (e, deus do céu, nem eu). Há as inesgotáveis questões de limites. Entre ter ambição e se vender, entre se dedicar e trabalhar demais, entre aceitar propostas e passar a perna em alguém. Tudo debaixo de muitas grifes, Starbucks coffee e maquiagem. E, claro, com bastante estereótipo, pra não perder o costume.

chefe humilha assistente - cena 147

Depois de tanto existencialismo na 7ª arte, uma sessão da tarde como essa veio a calhar.

Minha vida sem minhas mães

outubro 6, 2006

a mãe sueca

Filme lindo, lindo.

Em plena 2ª guerra, um menino finlandês muito do bonitinho, de uns 8 anos, perde o pai pras bombas russas. A mãe entra em depressão e, sem condições psicológicas e físicas (guerra) de cuidar do garoto, o manda pra Suécia, junto com um grupo de “crianças da guerra”. Lá, ele é mais ou menos acolhido por uma família. Mais ou menos porque ele não fala a língua, não compreende por que não pode estar com sua mãe e, principalmente, porque sua mãe sueca é uma mulher fria e amarga, que perdeu recentemente sua única filha, de 6 anos.

Eedro e sua mae (biologica)

Cartas da mãe biológica (a finlandesa) vão chegando, dando, progressivamente, a impressão de que Eedro (o guri) não é mais desejado. A partir daí, não resta a ele outro remédio senão usar a ferramente mais incrível da qual dispõem a criança: a adaptabilidade. E aprender a amar aquela nova família.

Assim, as coisas vão mudando, os pais suecos vão se deixando conquistar pela situação e , aos poucos vão acolhendo o menino, afetivamente falando, como se fosse realmente filho biológico deles. Eedro, enfim, ganha um novo lar, família, amor e carinho, ou seja, tudo.

o menino finlandes e sua familia sueca

Só que um dia a guerra acaba. E a mãe finlandesa resolve querer o filho de volta. Então ele é levado, novamente contra sua vontade (e contra a de sua mãe sueca), para longe de sua (2ª) mãe.

A história é contada pelo próprio Eedro, 60 anos depois, como num acerto de contas com o passado, que é a cores, enquanto o presente (Eedro velhinho) é em pb.

eedro no recreio da escola

Trilha sonora bonita, fotografia ótima, atores entregues de alma e tudo ao roteiro (que é todo redondinho e perfeito) e cenas simples e lindas, cheias de carga emocional.

Ainda bem que eu levei lencinhos.

Quelques jours en Septembre

outubro 1, 2006

Quelques jours en Septembre

Texto curto, sem sinopse, sem nada, pra não estragar o momento de quem quiser ver. Afinal, deve entrar em grande circuito.

Olha, eu sou muito suspeita pra falar de qualquer filme com a Juliette Binoche. Sou tiete dessa mulher cheia de charme, mistério, curvas, do olhar doce-triste-denso. Esse é um dos melhores filmes de espião que eu já vi. Tem um pouco de tudo, mas compondo uma alquimia irresistível: humor, romance, paris, suspense, psicopata, drama familiar, veneza e umas tiradas imperdíveis sobre a eterna rixa americano X europeu. Me lembrou Albergue Espanhol, com aquela ótima frase-paródia em que a inglesa explica pro francês enciumado por quê, afinal, estava dormindo com o americano: “i’m attracted to him!”

Juliette e os outros dois jovens atores principais

Mystic Ball

setembro 27, 2006

greg (ao centro, borrado, no ar) jogando chinlone com seus amigos de mandalay

Mystic Ball foi um filme que eu vi depois de um dia super cansativo. Eu estava exausta e achei que fosse dormir no cinema. Mas a história era tão cativante que manteve meus olhinhos pendentes bem abertos e impressionados.

Um canadense chamado Greg Hamilton (diretor e ator principal) descobre um jogo, o chinlone, e se apaixona perdidamente por tudo o que ele proporciona. E resolve ir até o seu berço, Myanmar (antiga Birmânia), para aprender tudo sobre o esporte tradicional local. Chegando lá, descobre que jogar chinlone é uma atividade constante: em toda esquina, em todas as faixas etárias, sexos, raças, momentos do dia. É mais ou menos como o nosso futebol. Mas só nesse sentido: de tradição.
O filme é, na realidade, um documentário sobre Greg descobrindo e aprendendo o chinlone. Misturando esporte, dança e jogo de time, o chinlone é praticado com uma bola vazada feita de pedaços de bambu torcidos e pintada de branco, que é jogada pro alto (à primeira vista, parecem embaixadinhas, mas é muito mais que isso) de várias formas possíveis, sendo que ela encosta em todas as partes do pé e em algumas partes do corpo. Pode ser jogado individualmente ou em grupo, mas com outras pessoas parece fazer muito mais sentido.

uma das apresentações da solista de chinlone mais famosa de myanmar

O mais legal é que nesse esporte não há vencedores, não há perdedores, não existe disputa, nem “nós contra eles”. A meta é unir os participantes de forma que todos se ajudem a manter a bola no ar pela maior parte de tempo possível. Pra isso, é preciso um certo transe, uma sintonia total das mentes envolvidas, parecido com o que se consegue na meditação zen. E o objetivo primordial é criar beleza. Achei aquilo um troço tão bonito: a forma como se joga, a alegria que gera; uma forma de arte. Uma manifestação artística dinâmica, física e espiritual.

Uma vez por ano em Myanmar acontece o Festival de Chinlone, durante o qual vários grupos se apresentam em oferenda a Buda e uma arena fica lotada de gente (monges ou não) assistindo. Quando Greg começou a se apresentar, a lona ficou ainda mais abarrotada, ele virou a sensação e cada vez que ele tocava na bola sem deixá-la cair ou zuní-la (o que era bem comum já que o jogo é super difícil pra quem não o pratica desde que nasceu), a platéia aplaudia e ovacionava, porque nunca nenhum estrangeiro tinha jogado chinlone em Myanmar. Era uma graça. Ele começou a voltar todo ano e a se apresentar com equipes diferentes e a se sentir muito mais em casa do que no Canadá. Ele ficou super conhecido por lá e até ganhou um troféu por ser o primeiro estrangeiro a se apresentar. Segundo alguns amigos birmaneses, Greg devia ter sido um grande jogador de chinlone numa encarnação passada.

Su Su fazendo uma oferenda a Buda, atraves da pratica de chinlone

O curioso é que o diretor estava presente na sessão e falou, lá na frente, que ele não se conformava com o fato do chinlone existir e do resto do mundo simplesmente não fazer a menor idéia. Então você via um documentário, logo, uma história real de uma grande parte da vida de um cara e, ao sair do cinema, encontrava esse mesmo cara, o próprio Greg Hamilton logo ali, sorrindo pra você. Era uma sensação bem esquisita.

Bem, como chinlone é um jogo e, por definição, cheio de movimento, nada melhor do que o trailer pra se ter uma idéia dos nuances e por que é tão bonito:

Trailer

A Grande Final

setembro 26, 2006

La Gran Final, de Gerardo Olivares

Uma das sinopses mais curiosas que já li: “Documentário sobre uma família de nômades na Mongólia, tuaregues do Saara e uma tribo de índios amazonenses que têm duas coisas em comum: vivem nos recantos mais distantes do planeta e estão determinados a assistir à final da Copa do Mundo do Japão, em 2002, pela TV”.

O horário batia com o meu e não tive dúvida: fui conferir e, olha, foi muito, mas muito mais divertido do que eu poderia supor.
Primeiro, os nômades que vivem nas montanhas geladas da Mongólia. Usavam roupas de esquimó, se transportavam através de uns bichos que pareciam umas lamas e tinham toda uma hierarquia: o avô (como se fosse o pajé), o pai (a equivalência do cacique), o tio, o primo e o narrador, um rapaz que não falava nada e usava uns fones no ouvido o tempo inteiro. O pai tinha uma mania esquisita de comprar (em Ulan Bator) e estocar coisas inusitadas como, por exemplo, uma canoa enorme (considerando que não tinha nenhum lago por perto) e, o melhor, sem remos! Tinha também uma coleção de patinhos de borracha que eram sagrados e ninguém podia mexer. Foram andando, junto com os vizinhos, em direção ao próximo lugar que lhes parecesse simpático ao acampamento (as tendas eram chiquérrimas por dentro, com mil tapetes, vasos, esculturas, não sei como eles conseguiam carregar e montar aquilo tudo). E aí fizeram um gato com uma fiação de rede elétrica pra que a tv pudesse funcionar. Eis que, no meio do nada, aparece um militar, com seus 2 oficiais, a cavalo (ou lama?) pra multar os nômades e dar bronca e dizer que eles não podiam fazer aquilo, não, que se eles quisessem usar a eletricidade do governo teriam que pagar tanto. Só que quando o polícia descobriu que aquilo tudo era pra ver a final da Copa, tudo mudou e ele inclusive ficou pra jogar uma pelada com os civis (!), tomar um chá e, enfim, ver o jogo.

Um nômade da Mongólia e sua águia caçadora

Os sheiks estavam com seus camêlos se locomovendo naquela imensidão amarela do deserto quando, de repente, passou um caminhão absolutamente lotado de gente se dirigindo em sentido oposto. Só que os árabes eram espertos: mostraram a tv a cores, convenceram o motorista de que o caminhão nunca chegaria no seu destino a tempo de ver o jogo e ele cedeu: foi todo mundo de caminhão pra um lugar que eles chamavam de “árvore”, que eles usariam como antena. Chegando lá, a árvore era um poste e um dos passageiros do caminhão perguntou pra um dos sheiks por que é que eles chamavam aquele lugar de “árvore”. E ele contou: “antigamente tinha uma árvore aqui, era a única árvore de todo esse deserto. Mas um dia um caminhão estava passando e não viu a árvore: bateu nela! E então construíram esse poste no lugar” (!)

Uns 5 índios amazonenses vidrados em futebol tinham uma tv velha jogada num canto da oca e precisavam de uma antena. Então, foram até uma serraria ali perto, no meio da mata, pé-ante-pé, pros homens brancos não ouvirem e não saírem de lá putos da vida atirando pra tudo que é lado. Encontraram uma parabólica da Directv e se mandaram de volta pro acampamento deles. Só que, na hora do jogo, a antena não funcionava direito e eles acabaram voltando pra serraria e ficaram lá na varanda, bem quietinhos, vendo o jogo através da tv dos homens brancos, que estavam lá dentro, torcendo. Mas na hora dos gols, poxa, foi tão engraçado, os índios entraram que nem uns doidos e todo mundo começou a se abraçar, índio e branco, e beber cerveja junto e comemorar e gritar e não tinha mais diferença. Eram só uns 10 brasileiros felizes da vida.

indios tentando ser discretos torcendo pelo brasil

Nunca imaginei que veria um filme essencialmente sobre futebol transcendendo (e muito!) as fronteiras nacionais. Foi gostoso ver os três povos paralelamente correndo em seus habitats inóspitos, com suas pequeninas TVs, pra chegar a tempo de assistir à grande final. Tudo ao som instrumental de uma Aquarela do Brasil em versão moderna, cheia de ginga e samba e batuque. Ary Barroso teria gostado de ver.

E saí do cinema com a maior saudade de ganhar copa do mundo. Mesmo a última vez tendo sido só há 4 anos atrás.
🙂