Archive for the ‘Curitiba’ Category

E agora, José?

junho 19, 2007

Na minha última noite em Curitiba saímos com as meninas. Tinha aquele clima de despedida mesmo, sempre que elas lembravam que eu ia embora faziam aquela cara (que o nosso cachorro faz quando a gente tá na porta pronta pra partir), me abraçavam assim meio de lado e resmungavam: não vai embora, não. Daí a banda do lugar começou a tocar aquela música do Lulu Santos: “eu tô voltando pra casaaaa”. Eu falei pra elas: minha música! E elas fizeram a cara e toda a seqüência de novo.

Pra mim voltar pro Rio fechava o ciclo. Era um passo necessário pra poder fazer um balanço dessa coisa meio frenética e meio zen que foi morar em Curitiba. Mas não era uma coisa que doía. Aliás, acho que partir nunca dói. Quando os outros partem é que é uma sangria desatada. Ir embora é uma sensação boa, na verdade, não é? De mudança, de superação, é como se você disesse pro mundo que não precisa dele, não, e que, se der, você volta.

E agora voltei, o Rio é lindo mas a rotina se reajusta depressa, a gente percorre longas distâncias todo dia e, se consegue chegar em casa de bom humor, encontra alguém com o humor abaixo de zero e é sempre difícil não deixar a matemática tomar conta e fazer a média. Tentei mudar o meu lugar de fazer natação, porque lá onde eu fazia era aberto, então sempre que chovia ou tinha frente fria eu ficava lá sendo batendo o queixo, mas depois de ter visitado outros 3 lugares cheguei à conclusão de que lá continua sendo o melhor custo/benefício. O que posso fazer é tentar ir mais de dia. Não sei se consigo por causa dessa parte obrigatória do internato. Que, aliás, não poderia ser mais enrolativa. Comecei por uma matéria em que a gente fica 1 mês alguns dias subindo o morro e entrando em casas com agentes de saúde e tendo aulas sobre sabe-se-lá-o-quê. Outro dia a professora passou “Ilha das Flores” e quis que a gente discutisse no contexto do SUS. E todo mundo meio sem graça de expor suas opiniões. Tinha mil coisas que poderia ter dito, mas fiquei em silêncio também. Pra poder ir pra Curitiba no primeiro semestre tive que mudar de turma e agora estou em uma em que não conheço quase ninguém. É estranho ter a certeza de que vou me formar em menos de 5 meses e não conheço nem metade das pessoas que se formam comigo. Nunca troquei uma palavra sequer com pelo menos um terço. É meio triste, mas não me incomoda, na verdade.

Mas o que aconteceu foi que eu fiquei doente. Depois de tanta arrumação com mudanças e vistoria de apartamento e correria, despedidas, parabéns com 1 semana de antecedência e principalmente da viagem relâmpago à floripa pra ver o Fluminense ser campeão da copa do brasil, uma gripe me derrubou e não poderia ter sido mais inconveniente, dada a quantidade de coisa que eu tinha pra arrumar. E ainda tivemos um preju enorme porque vendemos os ingressos pro show dos LH a preço de banana.

Balanço final: uma família nova bem divertida, quilos de informações ortopédicas armazenados no hipocampo, uns 5 amigos de verdade no sul do brasil, descobrir que eu vivo tão bem e direitinho sozinha, assistir ao vivo um título nacional tricolor com direito a vaga na libertadores, várias roupas novas bonitas, uma cicatriz de um corte que eu não fui suturar e, principalmente, finalmente, aprender que a gente pode se sentir plenamente em casa. Mesmo a 800km de distância.

(muitas fotos!)

É proibido chorar em despedidas

junho 3, 2007


É proibido Proibir

Fui assistir Proibido Proibir numa sessão especial a 3 reais, no shopping Crystal, que fica aqui pertinho. E, sabe, gostei. Gostei dos universitários que tem alguma coisa minha (o jeito de andar, as expressões, não sei, alguma coisa). Da periferia do Rio, que quase nunca aparece. Do triângulo amoroso . E do beijo ardente no final. Em alguns momentos dá um pouquinho de vergonha alheia, mas são raríssimos os filmes brasileiros que não carregam esses instantes. Mas, não sei, algo me pareceu familiar. Aquele sonho de melhorar o mundo, de ajudar pessoas, aquela preocupação que a gente tem com a conjuntura toda, seguida por aquela sensação de impotência, de que está tudo podre, que não existe ninguém a quem confiar a nossa proteção, os nossos valores, os nossos parâmetros de ética e justiça. Aprender a viver na marra, com os conflitos de realidade, e se desiludir vendo que não dá pra tapar o gigantesco buraco do mundo. Quando eu crescer e deixar de ser uma idealista é isso o que eu vou fazer, quando tudo parecer meio desprovido de paixão: ir ao cinema.
(E eu queria ser linda e hippie que nem a Maria Flor, nesse filme.)

É proibido Proibir

Agora, capitalisticamente falando, tem gente mais chata que vendedor de loja?
Essas duas últimas semanas não sei o que me deu, mas andei comprando umas roupas em lojas que não tem no Rio. A conta do cartão me provoca uma certa ansiedade (pai, não fica bravo). Mas sabe quando você percebe que 90% das suas roupas tem mais tempo do que o seu namoro? E, no meu caso, vocês sabem né, isso é tempo. Então tenho entrado em algumas lojas e constatado, cada vez com mais convicção que vendedores são uma raça incômoda. Eu tô lá, olhando as blusas e começa o interrogatório. Já conhecia a loja? Não? Nunca tinha ouvido falar? Ah, você é de onde? Tá gostando da cidade? E o que uma carioca faz por aqui? Estágio em que área? Em qual hospital? Nossa, trabalhar com criança, que máximo, mas não dá uma peninha? E você quer se especializar em pediatria mesmo?
Caraca! Quem eles pensam que são? Meus amigos?
Bem, o que importa é que estou voltando com umas roupas que me deixaram contente.
E acho que meu casaco novo fez sucesso, porque recebi vários.. digamos.. elogios.. digamos… urbanos.

Fora isso, nem sei por onde começar de tão atolada que estou de coisas pra fazer até 6a feira. Tenho que escrever a carta de aviso de desocupação, pintar o apartamento, vender móveis, me despedir de pessoas, cancelar contas e fazer toda a mudança de volta. Talvez eu vá até Floripa ver o Flu jogar a final da Copa do Brasil, se meu tio me arranjar um ingresso, já que esgotou tudo em 1 dia. Senão vou ter que me amontoar em algum bar que, de preferência, não esteja cheio de figueirenses sem espírito esportivo. Que nem quando fui com o chefe ver o jogo do Atlético na Arena lotada e meu time eliminou o Furacão. Não comemorei nem nada (só quando cheguei em casa dei uns pulos). Mas ele mal me olhava no dia seguinte. Eu tinha me esquecido como os homens levam essas coisas à sério. É só futebol, sabe, eu adoro e não sei explicar por quê. Mas é basicamente isso. A paixão nacional.

Amanhã vai ter churrasco de despedida minha e dos residentes que, em 3 semanas, estarão voltando pros seus serviços de origem e o hospital estará recebendo a outra metade de residentes de ortopedia da cidade. Na verdade esse churrasco é uma tradição lá no hospital. É feito na chácara do meu querido chefe, ele inclusive manda matar um carneiro e sempre tem muita comilança e bebida pro pessoal se esbaldar e vão os outros chefes também. Mas esses residentes, não sei, andam meio desiludidos da vida. Eles não queriam ir (não sabia que eu estava tão sem prestígio!) mas aí o chefe foi lá e deu um esporro! Falou que não fazia a menor questão de que eles fossem na casa dele, que quem não quisesse ir que não fosse, mas que ele estava fazendo isso pra eles e que eles deviam ir nem que fosse pra se despedir da Fê, que ajudou tanto vocês no ambulatório e nas cirurgias. Fiquei até me sentindo mal.. Mas eles disseram que vão. Então, de repente, funcionou, né? Vamos ver como vai ser amanhã. Depois conto.
Quinta feira saí com as meninas. Todas médicas, óbvio. Os meus únicos 2 amigos não-médicos nessa cidade são o meu anjo da guarda, que é engenheiro de telecom, e a minha amiga que estudou comigo na escola e que veio pra cá por causa do noivo, ela é psicóloga. Mas, enfim, sexta feira estava destruída. E é tão especialmente difícil levantar no frio. Cheguei 7:20 no hospital, 20 minutos atrasada. O mais legal foi o olhar cúmplice que o residente que eu tinha encontrado (completamente bêbado) na night me mandou. Ele me disse, baixinho: “acho que ainda tô bêbado!” E ele ainda estava de plantão pelas próximas 24 horas! Fiquei o dia todo me sentindo um zumbi. Pensava o tempo todo: não sou feita pra vida noturna mesmo, tenho uma alma velha, que merda. Mas pelo menos atendi umas crianças fodas. Primeiro teve um bebê de7 meses que tinha uns olhos azuis que pareciam duas bolas de gude. O pediatra encaminhou pra gente porque estava suspeitando que o quadril estivesse fora do lugar. Depois atendi um recém-nato de 8 dias de vida que nasceu com 1 dedinho a mais no pé. Depois uma guria de 1 ano e meio com osteogênese imperfeita (aquela doença dos ossos de vidro, lembra do velhinho de Amélie?) que ficava me mandando beijos e tinha a risada mais gostosa. E depois uns 3 adolescentes bem gente boa. E o pior foi o meu casaco novo ter ficado empestiado com nicotina; quando é que vão passar aquela lei de N.Y. de não poder fumar em lugar fechado? Meu cabelo e minhas roupas agradeceriam imensamente. Assim como meus pulmões e bolsos, já que toda vez que saio no dia seguinte você pode me encontrar na lavanderia.

Hoje fiz janta e, enquanto isso, vi o último episódio de Felicity. Me lembrei de como achei que era o fim de uma era, quando vi aquele episódio pela televisão. Mas outras séries vieram, Sex & the City, Lost, Grey’s Anatomy… A mídia está sempre vendendo algo que a gente possa estar precisando consumir.

Felicity e Ben

Visitas – Modo de Usar

maio 28, 2007

a ponte da ópera de arame e o patinho

As visitas têm um grande e irremediável problema: elas vão embora.

Experimente, porque vale à pena. Ter uma companhia familiar pra ir almoçar, passear, ir pra night boa e até passar frio. Mesmo quando a sua hóspede chega às 5:30 da manhã, com 3 graus lá fora, e você sai direto da cama pra abrir a porta. No final de contas, acaba sendo a melhor coisa, porque o dia fica comprido quando a gente leva ele à sério e sai de casa cedinho.

Aí dá tempo de fazer tudo. Turismo, comilança, compras, passeios, night, tanta conversa.
Trate bem sua visita, assim quem sabe ela não volta? Ou não espalha pra todo mundo que você é uma boa guia turística/anfitriã/dona de casa/distraidora do incrível mundo das coisas por resolver?

No fundo esses momentos são os melhores. Por isso que eu nunca vou ganhar o meu primeiro milhão, como deu no teste que eu fiz na revista claudia. Porque ao invés de estar investindo nos negócios eu estava com a minha ilustre visita, num parque, tentando descobrir uma forma de passar pelos gansos sem ser atacada pra fotografar e passar a mão no pêlo de umas capivaras tomando sol.

E quando ela vai embora a gente se lembra porque é que é tão especial aquilo tudo. Porque eu estava longe, sozinha, com frio e com gripe. E, por 2 dias, esqueci tudo isso e nem percebi.

Queria ter te dado um abraço mais apertado quando você saiu do taxi laranja ; )

[ http://www.flickr.com/photos/fernanda ]

O mala do supermercado me dando idéia

maio 19, 2007

Se tivesse um espaço extra naquele filme “Coffee and Cigarettes” eu colocava esse diálogo. Porque foi uma das coisas mais awkward que me aconteceram aqui.

As filas estavam enormes. Acho que curitibano não tem o que fazer quando chove e aí vai pro supermercado, é a única explicação, porque eu nunca tinha visto o Mercadorama cheio daquele jeito.

3 caras na fila do lado olhavam pra mim. Tirei meu headphone. Um deles mudou pra minha fila (eu era a última até então). Os outros 2 foram pra fila lá do canto esquerdo.

– Desculpa comentar, mas isso são compras típicas de quem mora sozinha…
-É?
– … pão, refrigerante, manteiga…
– É…
– … não tem carne, verduras…
– Carne já tem em casa.
– … carrinho típico mesmo.
– …

Pausa de uns 5 minutos. Os caras lá do outro lado gritaram blabalbla, carioca!
A fila não andava. Fiquei entediada e resolvi bater papo com o cara mala, não tinha noção do quão mala ele era.

– Você é do Rio?!
– Sou, por quê? [com um sorriso babaca]
– Eu também.
– Sério?! [com um sorriso embasbacado]
– …
– Mas como assim? O que você tá fazendo aqui?
– Um estágio.
– Você não tem o biotipo carioca.
– ?
– Poisé, você não parece carioca.
– É, eu tenho o biotipo de quem faz medicina. Cansada, branquela..
– Ah, você não tá branquela! Quer dizer, você não tá bronzeada, mas tá muito bonita.
– …
– Com todo o respeito, é claro. Mas você é bonita. Desculpa se..
– Não, tudo bem.
– …
– …
– Estágio em que área?
– Medicina.
– Medicina?!!! Mentira! Você não tem 20 anos na cara!
– 20 + 3
– Uau! E é bom aqui, na sua área?
– É. Bem, o melhor hospital pediátrico do Brasil é aqui e eu tô nele.
– Caraca!!! [sorriso extremamente babaca] Tão linda e ainda por cima cheia de conteúdo… Parabéns, viu?
– …
– Uma mulher que corre atrás do que quer…
– E você, tá fazendo o quê aqui?
– Vim pra fazer um concurso que vai ter amanhã.
– Trabalha em quê?
– No judiciário, fiz direito, né [aí ele fez uma carra muito de: “odeio meu trabalho, é uma merda”]
– Ahn. Legal.
– Você tá aqui há quanto tempo?
– 4 meses.
– Uau… bravo. Muito bom mesmo.
– Tô voltando já, em 3 semanas…
– E tá achando o quê, da cidade?
– É um bom lugar pra viver, né. Organizada, menos caótica. As pessoas são mais fechadas…
– É, mas você já tá pegando esse jeito fechado…
– …
– … quando eu falei do carrinho você resmungou umas palavras e virou a cara.
– …
– Agora, a noite aqui é uma merda, né?
– Ah, é. Não se compara à do Rio.
– E como você faz?
– Ah, vou onde as meninas me levam..
– [incompreensível]namora[incompreensível]
– …
– Agora te fiz A pergunta, hein?
– O quê?
– Se você você namora aqui ou lá?
– Namoro lá.
– Aaah, mas aí é ruim, né..
– Não, ele vem sempre. Teve aqui há pouco tempo, ficou 2 semanas.
– Mas aí se fala pouco, né..
– Não, todo dia, na verdade. Graças à internet, webcam, essas coisas…
– Ah, mas aí é ruim. Tem que dar uma saudadezinha.
– É, saudade é bom. Mas melhor ainda é matar a saudade.
– …

Daí chegou a minha vez e eu tava cansada demais pra ensacar as coisas. A mulher do caixa ia passando e ensacando ao mesmo tempo.
– Tá vendo? Se fosse no Rio você tava ali, ó. [apontou pro lugar onde a gente fica quando põe as compras nas sacolas]
– … [puta que pariu, que cara mala]
– Tsc tsc tsc, virou curitibana mesmo…

A mulher do caixa pediu minha identidade quando eu entreguei o cartão pra pagar.
– Isso é Curitiba mesmo, né?! Conferindo assinatura!
– …
– …
– Tchau! Boa sorte lá, amanhã!
– Obrigado! Vou precisar. Tchau!

There is no place like home

abril 20, 2007

dorothy tinha razão

Por onde começar?

Se me ausentei um pouco não foi por falta de assunto. Muitas coisas têm acontecido, mas tenho tido mesmo pouco tempo para esse piegas e querido relato fielmente enviesado de fatos e ocorridos da minha vida. Será que ela já virou fofoca? Já caiu na boca do povo? Enfim.

Depois de 2 fins de semana seguidos em família (um com eles aqui e outro comigo no Rio) o silêncio na minha casinha, assim que eu cheguei nela, parecia um pouquinho maior do que normalmente. Mas era bom chegar. E em poucas horas era como se eu nunca tivesse saído. Quer dizer, algumas lojas fecharam aqui na minha rua e proximidades. É gozado isso, nessa cidade, como as lojas, boates, bares, pet shops, comércio de rua em geral abrem e fecham de um dia pro outro. Só a Casa China mesmo que detém o império-monopólio das all-things 1.99, e nunca vai falir.

No aeroporto foi uma aventura. Saí de casa às 9:30 e meu vôo era às 10:30. Cheguei no Galeão às 10 e, quando olhei a fila quilométrica da Gol, pensei: ah, sem problemas, vou falar pra essa mulher de uniforme laranja que o meu avião decola em meia hora. Mas eu não conseguia falar com a moça, ela era muito requisitada. E eis que sai de não-sei-onde um cara simpático da Gol gritando: “Curitiba, Foz do Iguaçu, alguém?” E aí gritei eu, eu, eu, eu. Um senhor também se manifestou e aí seguimos o rapaz até uma filinha exclusiva pros retardatários. Não deu pra escolher muito o assento, eu ia falar mas o cara do computadorzinho do check-in estava mais afobado do que eu. Fiquei no 22C, corredor, o que era chato. Mas aí corri pro embarque e tinha uma filona no negócio do Raio-X. Quando tava quase chegando a minha vez era 10:15 e tomei um esporro do cara porque fiquei nervosa com as pessoas (que são muito lerdas pra colocar seus pertences naquela esteira suja) e ultrapassei a linha amarela umas 3 vezes. Finalmente passei – Ufa! Olhei minha passagem, portão 1. Fui pro portão 1 e não tinha nada, avião, gente, fila, nada. Caramba, e agora? Será que o avião foi embora mais cedo? Mas isso não pode, isso é um absurdo. Aí fiquei procurando gente pra quem perguntar, procurei, olhei, não tinha ninguém, só passageiro, que nem eu. Aí desisti de encontrar pessoas do aeroporto e perguntei pra uma mulher que estava ali vendendo cartão de crédito. Ela foi simpática (também, com a minha cara de pânico, quem não seria?) e não é que ela sabia das coisas? “Ah, esse vôo mudou de portão! É o 7.” Aí corri pro 7 e fui a penúltima pessoa a entrar no avião. Tinha uma pessoa mais atrasada ainda do que eu! Mas eu sempre faço isso com vôos domésticos e sempre dá certo! Um dia eu vou ser que nem o Hurley! (essa apenas os telespectadores de Lost pegarão, minhas sinceras desculpas aos demais 3 leitores.)

Foi tão bom ter ido pro Rio. Que bom que consegui aquela passagem a 50 reais e não pensei duas vezes (só liguei pro meu pai pra checar se podia mesmo). Primeiro fiz todas aquelas mil coisas mulherzinha e disse pra minha manicure, pra minha depiladora e pra minha sobrancelheira que não existem manicures, depiladoras e sobrancelheiras como elas em Curitiba. E elas ficaram contentes. E a minha manicure até me deu uma xícarazinha pintada a mão e uma barra de chocolate, que fofa. A Bessie também pareceu mais feliz em me ver dessa vez do que da última e fiquei com dó quando ela me esperou na minha cama na primeira noite, em que eu não ia dormir em casa. Almoçar com a minha mãe na 6a e com meu pai e irmã no sábado e ficar 2 horas conversando é um troço que você só se lembra como é especial quando todos os seus almoços de fim de semana são sozinha, no máximo assistindo seriados ou notícias, pra tirar a seriedade do troço. Engraçado como as coisas rotineiras ganham importância quando elas subitamente desaparecem. E os meus amigos mais queridos, que não vão me chamar de super-nerd quando eu falar que queria uma mapa mundi gigantesco na parede da minha casa, que não vão achar esquisito falar de umas bandas e filmes e shows e que têm as melhores piadas, aquelas que eu não preciso fingir que estou achando engraçada só pra ser simpática. Também fui ver o apê novo da minha vó, que tá ficando um barato e a cara dela e fiz um videozinho maneiro dela na piscina tomando banho na cascatinha e do meu vô fazendo um mini-discurso (ele adora). Estou curiosa pra saber como vai ficar quando estiver tudo pronto, talvez já possamos estrear no dia das mães, que por acaso coincide com o aniversário da minha avó.

Outro dia fui à arena com o chefe. Primeiros comemos aquela pizza deliciosa que vem dentro da focaccia, que só tem aqui na cidade. Depois fomos eu, o chefe e sua família (que agora é um pouco minha também): a mulher e a Ana. Foi bem divertido, o jogo era Atlético X Cianorte, pelo campeonato paranaense. O estádio é tão bonitinho, todo limpo, as cadeiras vermelhas envernizadas, brilhando, em nada lembra o trash (porém querido) maracanã. Fico impressionada como gosto de ir assistir jogo em estádio. O mais legal é a fauna. Tinha uma menina na nossa frente que, a cada 5 minutos, parecia que ia infartar. (E eu achava que o doutor chefe é que era atleticano doente, ele se divertia calmamente, que nem eu.) Do nosso lado também tinha uns caras super hilários, com xingamentos dos mais criativos. Me lembrei daquele jogo que assisti nas Laranjeiras, contra o Bangu, com o meu tio fanático, que chamou o goleiro adversário pra dizer que ele tava parecendo uma balairina, entre outras coisas. Fiquei pensando também como deve ser legal ter um estádio pertinho de casa e seguro e poder ir quase toda semana ver os jogos.

As cirurgias têm sido interessantes. Outro dia entrei numa amputação…
Era uma menininha de 3 anos que nasceu sem um dos ossos da perna (a tíbia), nas duas pernas, e aí amputamos os pés dela (ela andava com os joelhos) pra, no futuro, colocar uma prótese pra que ela possa andar como todo mundo. Não posso dizer que foi uma cirurgia bonita. Era visível que, no fundo, o cirurgião não estava gostando de estar ali, fazendo aquilo. Aí, à noite, quando contei isso pro meu pai, ele disse: “ah, filha, ninguém gosta.” Cada especialidade tem o seu calcanhar de aquiles, eu acho…

Tem várias outras histórias de gente. Teve a menina que foi picada por uma cobra e teve síndrome compartimental e precisaram abrir a perna dela de urgência ou ela perderia o membro. Teve o bebê de 2 meses que eu atendi hoje mas que não tinha nada. Teve o menino de 16 anos de moicano e cheio de piercings que era filho adotivo e tinha um cisto na mão. Teve o Norton, que tem 4 anos, é uma espoleta e vai operar o outro pé dessa vez. Tem uns que só choram, tem outros que têm mães desesperadas, mas tem tantos legais.

Adoro quando dá pra voltar pra casa pra almoçar. Porque dou uma estudada, uma descansada e vejo um episódio de Felicity enquanto como. O que, aliás, é muito 1999! Eles gravavam fita uns pros outros e achavam o máximo aquele mac grandão todo meio transparente e colorido. Mas eu ainda gosto de Felicity, quão mongol uma pessoa pode ser?

Aliás, falando em seriados, minha vida agora está completa aqui: descobri uma anestesista que também vê lost e também baixa os episódios! Em quase 3 meses aqui, eu ainda não tinha mencionado o seriado pra ninguém, porque estava evitando aqueles olhares de: “ok, você é uma pessoa estranha.” Mas aí ela estava falando de Lost outro dia e eu não me contive e aí meu plano foi todo por água abaixo! 3 meses de esforço e trabalho na minha auto-imagem para nada! A cirurgia já tinha acabado e a gente estava só fazendo um gesso quando a Dra. Anestesista entrou na sala perguntando se eu já tinha visto o episódio de ontem. Aí ela começou a falar de como o episódio tinha sido foda e de como que eu tinha que ver pra gente comentar e blalabla, mas eu disse que só ia baixar 6a à noite porque o meu namorado estava vindo nesse fim de semana e ele ia ficar chateado se eu não esperasse pra ver com ele. Ela falou: “não, mas você tem que ver logo! Depois você assiste de novo, com ele! Você não vai agüentar esperar até sábado!” Poxa! Assim não dá. Sabe o diabinho da sua cabeça, que fica te tentando com as coisas? Mas aí eu mudei de assunto rápido e me deixei levar pela empolgação da identificação e a gente ficou falando de como o Charlie não deve morrer e do que pode acontecer com a Sun pelo fato de ela estar grávida na ilha e das visões do Desmond. E aí, foi bem aí que meu segredo foi revelado e 2 residentes + o chefe descobriram que eu sou uma mega nerd esquisita. Porque eles perguntaram: do que diabos vocês estão falando?
Tá vendo? Tanto esforço pra parecer uma pessoa normal… tudo em vão! Eu sou mesmo uma loser de não ter resistido e ter feito uma amiga (ela deve ter uns 30 e muitos) só pra falar de Lost.

Mas, de todo jeito, depois de tanta verborragia (e de vários dias escrevendo cada vez um pouco desse post), penso que ter ido pra casa foi mesmo a melhor coisa que eu poderia ter feito no fim de semana passado. Engraçado, porque parece que já faz tanto tempo. E, quando eu cheguei lá, parecia que não ia há séculos. Parecia que eu não me lembrava mais das cores e do cheiro e da luz da minha casa. Você estranha algumas coisas: como o box do banheiro é maior, como o armário está vazio, como o arroz é soltinho. Mas sem perceber você se acostuma, você percebe que está tudo do jeito que você deixou. E a rotina parece estar toda lá: o cantinho fresco em que a bessie gosta de ficar, espremida entre a mesa da cozinha e a parede. O barulho escandaloso do motor do carro. O sorriso simpático do porteiro. As seções do jornal espalhadas pelos cantos. Alguma coisa que está lá sem funcionar há um tempão (sempre tem alguma coisa que não funciona e que vai sendo ignorada até que se tome uma atitude a respeito, no caso é o forninho;). O vento cantando no final da tarde. Que importante, isso tudo…

Por isso senti uma alegria, um conforto (sabe aquele colo que vez ou outra a gente ganha da mãe ou aquele abraço de urso com o qual o pai nos surpreende?) quando recebi o email do menino da comissão de formatura, falando que a foto da turma de formandos vai ser no dia 6 de maio. O que significa que vou ao Rio dois fins de semana seguidos, porque já tinha comprado passagem pro dias das mães em fevereiro. E sabe? Que bom.

E aí tem aqui também. Aqui eu tenho barulho ou não, comida ou não, estudo ou não, sono ou não. Tomo banho com a porta do banheiro aberta. Expulso (liberto?) educadamente as mariposas que entram pela varanda. Apanho as roupas no varal ainda quentinhas do sol. E sinto uma brisa geladinha todo dia de manhã cedo, nos 10 minutos em que ando, sem música sem nada, só com os carros e as pessoas, até o hospital. Sempre presto atenção no tempo, nos sinais, nos outros pedestres. Sempre passo por uma praça onde as pessoas às vezes estão caminhando mais depressa do que eu. Mas não tem importânica. Porque, sabe? É sempre só minha, essa caminhada.

É só minha essa sensação de chegada e partida. E a permissão (ou seria uma decisão?) de confundir as duas.

Estar em casa é bom. É meio maravilhoso, na verdade.

Leite quente

abril 2, 2007

pães artesanais da padaria américa

Acho que trouxe meus cobertores, casacos e aquecedor tudo à toa. Acho que essa história de que Curitiba é frio é um mito. As pessoas estão realmente perplexas por aqui, porque já é abril e o calor realmente incomoda. E a cidade fica a 900 metros de altitude (será que as minhas hemácias ficaram mais ávidas por oxigênio?), então é aquele calor abafado e aquele sol cortante de serra. Além do quê, não é uma cidade preparada para o calor. Só tem ar condicionado em alguns shoppings e olhe lá. No hospital não tem ar e nem aquele pé direito altíssimo das enfermarias da santa casa, que fazem a gente preferir ficar dentro dela (com todas as suas deficiências e precariedades) do que do lado de fora, exposta àquela agressão que é o calor no centro do Rio.

Fui comer uma pizza na casa do chefe ontem e ele falou que está pensando em instalar ar condicionados para o próximo verão, o que há até pouco tempo era super desnecessário e inimaginável pra um curitibano. É sempre bom ir na casa do chefe, a gente fica lá batendo papo, vê tv e dá risada dos cachorros. Eles têm um casal de schnauzers bem figuras.

Mas, voltando ao calor, acho que como carioca estou sobrevivendo bem ao famigerado aquecimento global na capital mais fria do Brasil.

E vou incorporando as gírias. Tosco é tigre, salsicha é vina, Loiro é polaco, menino é piá, catarinense é só catarina, Coritiba é coxa, bolado é de cara, sinal de trânsito é sinaleiro. E tem umas coisas que eles falam sempre, como o dinheiro no aumentativo: cincão, dezão, cinqüentão, cenzão. Olha o tipo! – quando querem dizer “que idéia” ou “que figura”. E volta e meia eles falam voltimeia. Eles usam o imperativo muito mais que a gente: “faça esse exame”, “veja o bisturi”, “volte em 2 meses”. É mais correto, não?

Vou incorporando hábitos também. Daqueles que tornam a rotina mais sobrevivível, menos pesada. 2a tomo sorvete antes de começar a estudar. 4a sempre almoço com o chefe e chego tarde, bem cansada. Às vezes ponho uma essência aromaterapêutica no difusor. 5a à noite tomo um banho bem comprido, com meu esfoliante de pitanga e meu shampoo economizado da Redken, porque é um dia bem exaustivo e aí me recompenso com um tempo bem investido debaixo do chuveiro.

e 6a tem a tarde que eu reservo pra ir ao supermercado, à lavanderia e a duas padarias diferentes, porque uma tem um croissantzinho gostoso e porque outra tem uns pães alemães caseiros especiais. Nessa 6a cheguei a andar umas 20 quadras. Ando bem por aqui. Como umas coisas muito anômalas, que nunca tive coragem de comer em casa, como nutella, geléias, massas, e não engordo. É incrível! Mas tenho uma reclamação a fazer em relação às calçadas: são irregulares demais! Não dá pra andar de sandália, por exemplo. Passei até a integrar uma comunidade sobre o repudio às calçadas curitibanas, que a Ana me indicou.

Sábado eles entregam as minhas roupas e eu adoro o cheiro de quando elas chegam. E é um dia em que eu durmo mais, estudo, às vezes faço comida, às vezes peço comida, às vezes vou num a quilo aqui perto e trago pra casa numa quentinha. Eu sempre prefiro comer em casa porque dá pra ficar à vontade, ver tv ou falar no telefone. Mas nesse sábado almocei no shopping, com a Ana. Não tinha ido ainda no Shopping Mueller, e ela me levou lá pra gente passear e contar as novidades. Agora já fui aos shoppings principais da cidade (ei, ir a shopping é algo vital pra quem mora na capital do paraná). Mas acho que gosto mais do Crystal, que é bem bonito e gostoso de passear, e do Barigüi, que é todo reto e tem cinemark, a loja de calcinhas fofas e a loja só de all star. Aliás, sábado passado fomos ao shopping Barigüi, né.. Sábado, 8 horas da noite. Já fui preparada psicologicamente pra encontrar um lugar intransitável e insuportável e não conseguir comprar ingresso pro filme. Mas, não. Aqui até ir ao shopping em pleno sábado é menos estressante. Dava até pra dançar tango nos corredores, se a gente quisesse. E tinha só mais um casal além da gente na fila pra comprar ingresso pro cinema! Ah, assim não dá, vou ficar muito mal acostumada.

E agora a melhor notícia da semana: que eu tinha conseguido passagem da Gol a 50 reais pra um fim de semana no Rio não é novidade. Mas que meu namorado conseguiu ida E volta a 50 e vai passar o tiradentes E o feriado de primeiro de maio aqui, isso sim, é um troço meio incrível e que me deixou bem contente. Espero só que os controladores fiquem menos bravos também. E urgentemente, porque minha família vem na semana santa.

Agora vou pra 5 horas de hemato no medcurso. Hemato. Quero ser ortopedista logo e pôr fraturas no lugar, engessar pessoas e aprender a fazer todas aquelas cirurgias bonitas. Mas, não. Por enquanto, hemato.

Solidão que nada

março 27, 2007

Rio Nhundiaquara

O fim de semana foi um sucesso absoluto.

Primeiro porque quando a gente fica 1 mês sem ver o namorado até ir à padaria de mãos dadas é um programa importante. E ainda ganhar um monte de mordomias como ele não te deixar lavar a louça ou carregar as compras do mercado e a roupa suja pra lavanderia e ainda tirar o lixo, fazer a cama e trazer croissant de nutella do cafeína. Ter a companhia que a gente quer ter todo dia pra comer, pra ver o novo episódio de lost, ir ao cinema, passear pelas ruas da cidade, pegar ônibus e táxi.

Domingo foi divertido. 2 residentes do hospital (um piá e a única guria) nos buscaram, com seus respectivos namorados. Aqui perto, a 1 hora e meia de carro, tem uma cidade chamada de Morretes. Perto de Morretes tem o Rio Nhundiaquara. Onde tem um troço chamado bóia-cross. O sujeito é levado de kombi por um percurso que demora uns 15 minutos, chega lá, pula no rio na sua bóia, que é uma câmara de ar de pneu de caminhão, e desce com o fluxo. Às vezes tem umas corredeiras e ganha uma conotação de aventura, fica todo mundo rindo que nem bobo. Às vezes as águas ficam bem calmas e o sujeito fica só tomando sol e deixando o rio levar, achando, como bem disse meu amigo, que, se um dia se estressou, não se lembra. Isso tudo leva quase umas 3 horas (tanto tempo em uma coisa tão simples e recompensadora pra 15 minutos banais de kombi, impressionante como tempo é um troço relativo).

Depois come-se um barreado, que é uma comida típica daqui: carne de boi desfiada feita com farinha de mandioca e servida com banana. É gostoso.. molhadinho, um salgado que a banana quebra um pouco, estrategicamente. Disseram que fica 12 horas cozinhando, o barreado. O que é engraçado é que já conheci vários curitibanos que não gostam.

O problema da visita de quem a gente gosta é que ele vai embora. Mas deixa uma sensação de paz que dura uns dias inteiros e uma impressão de que pode-se viver com quase nada mesmo. Comer, dormir, um lugar limpo. E alguns sonhos que a gente vai polindo e esculpindo devagarinho, pra ficar cheio de detalhes e preciosismos.

E aconteceu uma coisa mágica: não me senti sozinha depois. A casa ficou cheia desses sentimentos bons. Meus amigos me tratam como se a gente estivesse junto há um tempão (e fica muito tempo junto por dia). E eu fico achando que é verdade mesmo, apesar de saber muito pouco sobre eles, a não ser o essencial, os highlights. Talvez o preço da vida adulta seja perder de vista alguns detalhes sobre as pessoas e sobre as coisas. Mas tem o gordinho super engraçado e que sempre ajuda todo mundo; o minhoca gozado do interior com opiniões polêmicas; o gaúcho figura, cheio de histórias mirabolantes e vítima de todas as piadas possíveis; a menina que é menina mesmo mas tem que ser menos menina do que a maioria das meninas porque está em minoria; o galã cheio das pretendentes mas com a namorada de longa data; o altão zen que parece estar sempre tendo um barato; o empolgadão que sai toda noite e é engraçado sem querer ser; o puxa-saco dos chefes que ninguém confia e todo mundo chama de fura-olhos; o gordão que é todo bebê e gente boa e simpático; o que zoa todo mundo por qualquer coisa e tomou porrada do namorado de uma guria na night um dia desses.

São todos bem queridos. Como dizem por aqui. E ajudam a get through the days. Fica tudo pequeno quando se tem umas pessoas marcantes por perto: a distância, a saudade, as responsabilidades.

Aqui também tem ovos de páscoa nos tetos dos supermercados e das lojas, patinhas de coelhos no chão de algumas farmácias e lojas de 1.99 e dias tão bonitos.

O céu de Curitiba é mais azul que o do Rio.

Como sobreviver entre os solteiros sem ser um deles

março 16, 2007

eu na naite com minhas duas amigas residentes e com um povo que eu não sei quem é

Tenho um bloqueio com a vida noturna.

Todo o ritual, todo o processo de começar a se arrumar às 10:30 da noite, só voltar às 4:30 da manhã (ou mais), tirar a maquiagem, tomar um banho e lavar o cigarro dos outros do cabelo, deixar a roupa numa sacola separada pra não empestiar as outras roupas, deixar a bolsa na janela pra ela tomar um arzinho e dormir um sono esquisito, meio pesado, meio culpado, meio com ouvido estourado e só acordar depois do meio-dia. Me parece tudo meio inorgânico e anti-circadiano. Fico me sentindo meio zumbi no dia seguinte e fico achando que devia ter aproveitado melhor o dia pra passear, estudar ou fazer qualquer outra coisa.

Mas os tempos estão mudando e, nos 2 últimos sábados, fui pra noitada (ou pra balada, como se dizem os curitibanos, à la paulista) com as meninas. Aliás, duas meninas solteiras de 29 anos são companhia certa pra sair à noite. E, no caso, da melhor qualidade, porque são divertidas e daquele tipo de gente que fazem a gente achar que já é amiga há um tempão. Esse lugar do último sábado era bem bacana, desses com um clima bom. Tocava só música anos 80. Quer dizer, só não, porque “Hung Up, Madonna” não é anos 80. Mas digamos assim: se meu amigo dj fosse apelar na fosfobox e tocasse a música mais famosa de cada banda indie ou 80’s seria mais ou menos o setlist ao qual a gente dançou no sábado. Ou seja, seleção musical bem decente. Tinha um lounge no mezzanino com varanda simpática. Agora, algo importante. Nessas badalações noturnas percebi uma coisa: contato ocular é a maior arma dos solteiros. Quando saímos pra parte que era aberta, sem barulho, pra beber alguma coisa, as meninas comentaram um ou outro menino que estavam olhando pra elas. Uma falou: “mas eu não consigo olhar de volta!” Eu me manifestei logo: mas você TEM QUE olhar de volta, você tem que fazer o contrário do que eu faço. Acho que não manter eye contact com alguém que olha pra você funciona bem pra mim porque parece que tenho um anel na mão esquerda. É uma atitude que traduz alguma coisa importante, é algo como: foi só uma coincidência que seu olhar cruzou o meu. E pronto. Assim se estabelece convivência pacífica com os solteiros quando não se é um deles.

Conheci recentemente 2 hospitais onde eu posso ir fazer residência: o Evangélico (é o hospital com maior número de leitos do estado, roda a ortopedia pediátrica no Pequeno Príncipe) e o H.C., que é da UFPR. Ambos bem simpáticos, pessoas idem. Sabe, gosto do fato de só ter homens na ortopedia. Não por qualquer interesse (vide parágrafo acima; ). Mas porque acho tão mais fácil lidar com os XY. Menos fofoca, menos falsidade, menos panelinha. Ah, meninas, convenhamos, nós somos (irresistivelmente) complexas.

Tenho estado muito amiga dos meus amigos daqui. Outro dia meu anjo da guarda me ligou, depois de 20 e tantos dias de sumiço (estava viajando). Fomos almoçar num lugar que ele disse que era o melhor peixe daqui. Teve uma hora em que lutamos contra uma abelha que queria a nossa comida e aí aconteceu um acidente com meu guaraná e o mate dele. Depois fomos passear no Bosque do Papa, que tem as casinhas que reproduzem as moradias antigas dos poloneses. E depois fomos encontrar uma amiga dele que estava se mudando ali pra perto e ela me fez perceber que eu não tenho problemas. Porque ela tem uns 4 anos a mais do que eu, tem 2 filhos de pais diferentes sendo que um ignora o filho e o outro tem a guarda provisória da filha e está numa briga hardcore na justiça pra conseguir a guarda permanente. E, como se já não fosse motivo suficiente, porque um cara que ela nem conhecia, um barbeiro honesto, humilde, trabalhador, casado e pai de 2 filhos, foi baleado e morreu nos braços dela um dia desses.

Essa semana fui tomar sorvete com uma amiga antiga, do Rio, que está morando aqui porque o noivo dela trabalha em Curitiba. Só que o sorvete virou um papo de 4 horas (quase uma mega-análise, na verdade, ela é psicóloga) na qual a gente falou sem parar sobre todos os aspectos das nossas vidas. Ufa. Tava precisando. Sabe como é.. na ortopedia só tem homem.

Ontem foi aniversário da menina que tem me levado pras nights: a filha do chefe. Já mencionei que ela é R3 de ortopedia n  H.C.? Isso significa que ela não passa no Pequeno Príncipe, porque o H.C. e o Cajuru são os únicos que têm ortopedia pediátrica própria e, por isso, seus residentes não passam os habituais 6 meses no P.P. Mas, enfim, saímos do ambulatório, eu e o chefe e fomos pra casa dele jantar por lá. A Ana é tão divertida e, em 1 dia, acontecem com ela mil histórias mirabolantes (“tudo lorota”, diz o chefe, que parece ter assumido mesmo a minha figura paternal em curitiba, que fofo). Daí comemos filés gostosos que a mãe da Ana (que também é um barato) pediu e ficamos um tempão ouvindo e contando histórias mirabolates. E depois uma amiga da irmã mais nova da Ana (que é designer), bem bonita, amigável e japa, me trouxe até em casa.

No mais?

Acabou meu suco de uva natural sem conservantes. Ouço músicas que baixei. Atendo uns bebês que me olham fixamente e examino umas mãos muito pequenas. Sinto falta de ir ao cinema. Esqueci meu guarda-chuva no hospital. Gasto meu iluminador em textos médicos. Quase comprei uma revista de fofocas. Acho que encontrei uma manicure decente. Tento poupar gás e água. Varro a casa quando sinto vontade. Quero escrever cartas pros meus amigos. Minha cama é tão boa. Faço caminhos diferentes pra andar pelos mesmos percursos. Como umas coisas gostosas e não engordo. Atendo umas crianças tímidas e outras falantes, mas nenhuma é igual. Adoro cirurgia com transposições de tendões. Às vezes não consigo cortar ponto com a pontinha da tesoura. Às vezes bate uma saudade de casa. Mas sinto muito menos queimação no esôfago. Alguns pacientes têm bastante chulé. Quarta e quinta não tenho hora pra sair do hospital. Um dia desses vou cortar o cabelo. Quebrei um copo. Meu pai apareceu no fantástico e meu amigo, no jornal nacional. A Camila Pitanga tá feia nessa novela nova, o que não achei que fosse possível.

Bom fim de semana pra vocês.

Chegada Triunfal

fevereiro 24, 2007

Voltei. Os 3 esmates que tinha levado sobreviveram aos rapazes que trabalham no aeroporto jogando nossas malas de um lado pro outro. Instalei meu telefone novo sem fio e ficou bem bonitinho (me liguem!) Minha casa estava do jeito que tinha deixado, não veio nenhum programa de televisão mudar a decoração radicalmente, de surpresa. Mas veio a faxineira, um dia antes da minha chegada. E eu queria comentar há um tempo: como é bom chegar cansada do trabalho e encontrar a casa toda limpinha, a louça guardada, as camisas passadas. Uma pessoa que venha uma vez por semana pra fazer essas tarefas é, de fato, uma ajuda imensa.

Os residentes continuam cansados, mas pelo menos estão mais contentes, porque aproveitaram o carnaval (quer dizer, os que tiveram a sorte de não estarem escalados pro plantão do feriado). As crianças continuam se quebrando ou nascendo tortinhas. Minhas roupas continuam secando no varal.

Sintam o luxo: meu chefe me deu carona até o H.C. Lá, fiquei no ambulatório com a filha fofíssima dele, que é R3 de ortopedia. Ela me concedeu um tour de primeira linha pelo hospital da UFPR. É bacana ver pai e filha trabalharem juntos. E depois ainda fui almoçar com eles na casa da mãe do doutor chefe. Ela é uma graça de vó e os filhos e netos sempre vão comer por lá. Era pertinho aqui de casa, voltei à pé.

Hoje descobri uma coisa importantíssima.

Tem um casal rastafari que de vez em quando encontro no elevador. Outro dia, saindo pro hospital, arrumadinha e tudo mais, vi que eles estavam esperando o elevador. Engraçado foi o nosso contraste, as 6:50 da manhã, escuro-tipo-noite-mesmo lá fora. Eles com as roupas que eu uso quando vou acampar, eu com os trajes e maquiagem de médica responsável. Confesso que senti uma pontinha de inveja porque me lembrei de como é mais fácil e divertido usar a fantasia de acampamento. Mas, enfim, tranquei a porta. E, quando olhei pro casal rasta, o cara me deu um sorriso. Mas uma sorriso simpático, meio de cumplicidade, como se, sei lá, a gente fizesse aniversário no mesmo dia e estivesse perto. Achei peculiar, mas retribuí a simpatia.
Daí encontrei eles umas duas vezes depois disso, na portaria, no elevador ou no corredor do meu andar. Eis que hoje estou aqui, quietinha na sala, quando ouço um barulho lá fora. Olhei no olho mágico e descobri a pólvora! Na porta em frente à minha quem mora é o casal rastafari! Então pensei que, quando eles me viram saindo de casa e trancaram a porta, descobriram quem era a vizinha da frente e de repente tudo fez sentido: o sorriso cúmplice às 10 pras 7 da manhã, a música do Bob Marley alta no fim de semana, o cheiro de incenso (pra camuflar outro cheiro, talvez? hihihi)

Então, poxa, quis comemorar essa descoberta em grande estilo: fui fazer brigadeiro com o cacau em pó da godiva que tinha trazido da yankeelândia. Separei o chocolate em pó nestlé pra misturar e o leite moça. Mas uma coisa muito me intrigou: não encontrei meu abridor de latas! Que estranho. Tinha certeza que tinha comprado naquela loja de panelas do centro que o Gil me levou uma vez. Procurei por toda a parte. Nada do abridor de latas. Muito confusa, troquei de roupa rápido e fui à Casa China, aqui pertinho, comprar abridor. 60 centavos mais pobre, voltei. E fiz um brigadeiro digno de nota em revista gastronômica na categoria de melhores brigadeiros de Curitiba.

Agora estou preocupada com uma coisa: meu matador de insetos nojentos sumiu! Me lembro bem do dia em que comprei ele: era meu primeiro dia aqui e eu estava no setor de inseticidas do supermercado, me sentindo muito confusa. Eu olhava aquelas opções todas: mata formiga, mata pernilongo, mata barata, mata o mosquito da dengue… Já estava achando que ia ter que comprar todos quando eis que surge uma luz do horizonte pra indicar o item de sobrevivência básica da menina fresca morando sozinha: Mata Tudo. Tinha um desenhozinho de uma barata, um pernilongo, um besouro, uma formiga e um inseto que não consegui identificar mas que certamente vou querer eliminar caso entre na minha casa. E essa foi a história da aquisição do meu Baygon. Tive a oportunidade de usá-lo algumas poucas vezes, acho que os bichos nojentos de Curitiba têm medo de mim (ainda bem). Mas me lembro uma vez que usei num bicho esquisito que tava voando desordenadamente e daí ele entrou dentro da cúpula de luz da sala! Acho que ele, num momento heróico, pensou que preferia morrer de insolação a morrer intoxicado. Mas o cadáver já foi devidamente removido.

Então daqui a pouco vou aproveitar o sábado pra sair e adquirir um novo insetisida e uma mesinha de cabeceira na rua de móveis usados. Está me fazendo muita falta, uma dessas.

(fotos recentes, do congresso e do rio:

http://flickr.com/photos/fernanda/ )

As 4 estações em um dia

fevereiro 13, 2007


Dizem que aqui em Curitiba podemos experenciar as 4 estações em um único dia. É verdade.

Um exemplo de dia normal: amanhece nublado, às 11 horas vai abrindo o sol, às 2 o céu está limpo, às 4 começam a aparecer umas nuvens, que às 5 se tornam pretas, cai um toró que alaga cidades vizinhas, começa a fazer sol de novo, mesmo com chuva, o céu limpa de novo e rola um pôr do sol bonito. De qualquer forma, em Curitiba chove bastante.

Só que o pessoal aqui parece estar tão acostumado que a maioria não usa guarda-chuva. Ou talvez as pessoas estejam sempre sendo pegas desprevinidas. Mas acho que a primeira teoria está mais próxima da realidade. Pelo seguinte: tive dificuldade pra encontrar um guarda-chuva pra vender. Se o Lonely Planet de Curitiba existisse, deveria ser a primeira dica – onde comprar um bom guarda-chuva.

Só que existe aquela lei que diz que sempre que se sai de casa com guarda-chuva, o tempo abre e faz um solzão. Ah, e tem um inconveniente. Quando você precisa pegar um ônibus e começa a chover torrencialmente, por mais que os pontos aqui sejam bonitinhos e fechadinhos, você acaba se molhando consideravelmente. E aí o ônibus atrasa também, por causa da chuva. E aí você resolve pegar um táxi. Só que não passa nenhum táxi quando você precisa. Ainda por cima, Curitiba tem muito táxi cooperativado, então você vai fazer sinal debaixo daquele temporal e nenhum vai parar. Então você tem que sair e ir caçar um táxi em algum ponto. Ou ligar pra algum radio taxi. E é assim que o meu sapato vermelho novo molhou e eu quase chorei. Mas sobreviveu, o valente.

Sabe.. acho que aquela frase neozelandesa cabe aqui tambem: ” if you don’t like the weather in curitiba, wait five minutes.”

🙂