Archive for the ‘Eu’ Category

Trabalhando com as mãos

agosto 15, 2008

Eu nunca fui boa com habilidades manuais. Tenho a maior inveja de quem faz embrulhos bonitos pra presentes. Afinal, uma das coisas mais especiais de ganhar um presente é quando ele vem com um papel de embrulho bonito, dobrado de um jeito especial, né? (Coisas as que a gente só dá valor depois que cresce e precisa degustar um pedacinho de chocolate pra matar a vontade e não devorar a caixa inteira e fazer um estrago na balança!) Mas, enfim, nunca fui boa. Em tirar nós complicados, em fazer um laçarote bonito atrás do vestido, em confeccionar bijuterias pra vender na escola, em decorar biscoitos de natal com aqueles tubos de creme coloridos de confeiteiro.

É lógico que isso me preocupa horrores, já que considero fazer uma especialidade cirúrgica. Como não sei nem pregar um botão, como é que eu vou consertar retalhos DENTRO de pessoas? Aliás, isso é bem paradoxal: eu sei costurar gente, mas não sei costurar roupa. E o que é pior é que a gente só sabe se leva jeito pra operar depois que aprende a operar. E a gente só aprende mesmo a operar quando já está lá pro final da residência. Então como é que eu vou saber se eu tenho um dom pra uma coisa que eu tenho que decidir agora, mas só vou começar a aprender a fazer daqui a 3, 4 anos?!

O que me conforta é que, no fundo, tudo é prática. Como dizia um professor meu de cirurgia, se você treinar um orangotango a operar, ele vai acabar operando. Algumas pessoas têm um dom e terminam em 10 minutos um trabalho manual que outra pessoa levaria 3 horas pra conseguir acabar. E eu, quando aprendi a encapar meus livros com contact, na 5a série, demorava muito e me enrolava toda. Na 8a eu encapava todos os meus e os da minha irmã em uma tarde! E sem deixar nenhuma bolha.

Ou seja, talvez haja esperança pra mim.

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Degrau por Degrau

maio 13, 2008

A residência médica é umas 10 vezes mais concorrida do que o vestibular, pra algumas especialidades. Pra outras, não. Por exemplo, esse ano sobrou vaga pra Pediatria. O negócio é que você, depois de ralar 6 anos pra se formar nesse outro plano de existência que é a medicina, quer fazer residência em um lugar bom. Você quer se dar a esse luxo. E são nesses lugares bons em que a concorrência é pior do que o vestibular. E é nesses lugares bons que você vai deixar de ter vida, sábados, domingos, feriados, enfim, você vai pertencer a um hospital. E ainda vai ter que ter todas as respostas na ponta da língua pra não ganhar um olhar de desprezo ou umas palavras amargas de um chefe que se esqueceu como é ser residente (ou, mais provavelmente, quer vingança). Mas, paradoxalmente, é com isso que todo médico recém-formado (ou prestes a jurar hipócrates) sonha. É a famosa residência dos sonhos. Uma boa e escravizante formação.

Acontece que a maioria das pessoas não quer nem pensar no que pode acontecer caso elas não passem no concurso de residência. Pois então, vou esclarecer: a pessoa volta pro curso (ou não), e se prepare, porque é lá que a ficha cai de verdade. Vai dar uma deprimidinha e emagrecer (ou não). Seus pais vão reagir de alguma forma, pois tinham expectativas (ou não). Vai procurar um plantão de emergência ou CTI pra ganhar uma experiência e um dinheirinho (ou não). E vai tocar sua vida pra frente, vai sobreviver. Como eu estou fazendo. Essas coisas podem acontecer com maior ou menor intensidade quando se sofre uma “derrota”. Eu caí num buraco que parecia não ter fim, me entreguei à angústia, a um desespero avassalador.

Mas cortei o cabelo, abri um blog-brechó, me apaixonei pelo budismo, entrei na terapia e estou subindo, estou tentando rise above. Degrau, por degrau.

15 minutos de fama nerd

agosto 29, 2007

“Fernanda tem que se controlar para a internet não atrapalhar os estudos”

eu tenho um tiquinho de vergonha de admitir que eu gosto de ler a megazine até hoje. mas é verdade; toda terça-feira, quando pego o jornal, faço uma leitura super dinâmica das manchetes principais e corro logo pro encarte dos jovens e adolescentes. gosto das reportagens, das críticas bobas de filmes e música e mais recentemente das crônicas do cuenca. me lembro na época do vestibular em que ficava tentando fazer as questões (atualmente nem percebo que elas estão lá, de tão automático que é mudar a página quando chega a seção “vestibular”, argh). mas aí um dia uma menina me ligou e me propôs aparecer numa matéria sobre jovens que passam muito tempo na internet. minha fama nerd já havia vazado. topei, né, não é todo dia em que alguém pergunta se você quer aparecer no jornal e contar algum aspecto da sua vidinha mundana. uma coisa assim meio egocêntrica, meio boicote ao nosso próprio (e querido) anonimato. mas vale. daí elas vieram, a menina legal e a fotógrafa doidinha.

fiquei meio personagem, mas era tudo verdade mesmo. todo mundo é um pouquinho personagem. as legendas na minha foto foram meio infelizes, sim: “pesquisa mostra que jovens cariocas deixam de praticar esportes, estudar e ler para ficarem conectados”. quando, que fique registrado, tenho feito natação 3 vezes por semana e malhado 3 vezes também, estou na fase de mais estudo da faculdade e todo dia procuro ler alguma coisa não relacionada a medicina pra relaxar. mas pelo menos não foi que nem meu amigo que, quando apareceu na mesma seção do jornal, há uns anos atrás, se deparou com a legenda: “hoje em dia é tudo na base da pancada” sob a sua foto.

e os scraps e mensagens ao estilo “sai do orkut e vai estudar” proliferam. meus amigos já foram mais criativos nas zoações… ; )

E agora, José?

junho 19, 2007

Na minha última noite em Curitiba saímos com as meninas. Tinha aquele clima de despedida mesmo, sempre que elas lembravam que eu ia embora faziam aquela cara (que o nosso cachorro faz quando a gente tá na porta pronta pra partir), me abraçavam assim meio de lado e resmungavam: não vai embora, não. Daí a banda do lugar começou a tocar aquela música do Lulu Santos: “eu tô voltando pra casaaaa”. Eu falei pra elas: minha música! E elas fizeram a cara e toda a seqüência de novo.

Pra mim voltar pro Rio fechava o ciclo. Era um passo necessário pra poder fazer um balanço dessa coisa meio frenética e meio zen que foi morar em Curitiba. Mas não era uma coisa que doía. Aliás, acho que partir nunca dói. Quando os outros partem é que é uma sangria desatada. Ir embora é uma sensação boa, na verdade, não é? De mudança, de superação, é como se você disesse pro mundo que não precisa dele, não, e que, se der, você volta.

E agora voltei, o Rio é lindo mas a rotina se reajusta depressa, a gente percorre longas distâncias todo dia e, se consegue chegar em casa de bom humor, encontra alguém com o humor abaixo de zero e é sempre difícil não deixar a matemática tomar conta e fazer a média. Tentei mudar o meu lugar de fazer natação, porque lá onde eu fazia era aberto, então sempre que chovia ou tinha frente fria eu ficava lá sendo batendo o queixo, mas depois de ter visitado outros 3 lugares cheguei à conclusão de que lá continua sendo o melhor custo/benefício. O que posso fazer é tentar ir mais de dia. Não sei se consigo por causa dessa parte obrigatória do internato. Que, aliás, não poderia ser mais enrolativa. Comecei por uma matéria em que a gente fica 1 mês alguns dias subindo o morro e entrando em casas com agentes de saúde e tendo aulas sobre sabe-se-lá-o-quê. Outro dia a professora passou “Ilha das Flores” e quis que a gente discutisse no contexto do SUS. E todo mundo meio sem graça de expor suas opiniões. Tinha mil coisas que poderia ter dito, mas fiquei em silêncio também. Pra poder ir pra Curitiba no primeiro semestre tive que mudar de turma e agora estou em uma em que não conheço quase ninguém. É estranho ter a certeza de que vou me formar em menos de 5 meses e não conheço nem metade das pessoas que se formam comigo. Nunca troquei uma palavra sequer com pelo menos um terço. É meio triste, mas não me incomoda, na verdade.

Mas o que aconteceu foi que eu fiquei doente. Depois de tanta arrumação com mudanças e vistoria de apartamento e correria, despedidas, parabéns com 1 semana de antecedência e principalmente da viagem relâmpago à floripa pra ver o Fluminense ser campeão da copa do brasil, uma gripe me derrubou e não poderia ter sido mais inconveniente, dada a quantidade de coisa que eu tinha pra arrumar. E ainda tivemos um preju enorme porque vendemos os ingressos pro show dos LH a preço de banana.

Balanço final: uma família nova bem divertida, quilos de informações ortopédicas armazenados no hipocampo, uns 5 amigos de verdade no sul do brasil, descobrir que eu vivo tão bem e direitinho sozinha, assistir ao vivo um título nacional tricolor com direito a vaga na libertadores, várias roupas novas bonitas, uma cicatriz de um corte que eu não fui suturar e, principalmente, finalmente, aprender que a gente pode se sentir plenamente em casa. Mesmo a 800km de distância.

(muitas fotos!)

É permitido chorar em despedidas

junho 8, 2007

obrigada por ter sido um exemplo tao imenso

Minha bisa morreu.

Ela tinha 102 anos e teve uma pneumonia. Foi pro CTI, ficou melhor (aquela melhorada, sabe, aquela da qual a gente da área médica sente um medo) e o coração dela desistiu. Imagina.. Ficar 102 anos batendo, sem parar, sem descansar, só trabalhando, trabalhando…

Fiquei triste. E na verdade escrevi esse post assim que meu avô me deu a notícia, no domingo. Mas, por alguns motivos, só estou publicando agora.

O que a gente deve pensar quando acontece isso? A gente diz assim: “foi melhor, ela descansou, estava sofrendo.” Mas será que não é uma hipocrisia falar uma coisa dessas?
Bem, definitivamente é uma forma de a gente tentar se sentir melhor. E de tentar confortar o outro, que é alguma coisa que sempre deve ser tentada, não importa muito como.

Acho que essa é a coisa mais difícil pra se pensar sobre. Talvez como meu avô disse (e achei tão bonito): ela foi muito boa, está do lado de Deus. Talvez se tivéssemos aprendido budismo na escola teríamos outra lógica de pensamento, outra manifestação de fé. Mas acho que o sentimento seria o mesmo. Que, no caso, é: não tenho mais minha bisa.

Me lembro da festa de 100 anos que a gente fez pra ela. Foi tão legal. Minha mãe fez uma montagem de fotos antigas e a gente comemorava cada vez que ela reconhecia alguém nas fotos.

No final da festa, depois de já ter dançado, comido, bebido, soprado velas, rido e se esbaldado, ela começou a trocar um pouco as bolas e apontou pra mim e disse assim pro meu tio:

– Ela é sua namorada?
– Não, vó! É a Nanda, a sua primeira bisneta…
– Ah! Nanda!
e me abraçava…
10 minutos depois:
– É sua namorada, Arthur?
– Não, mulata. Ela é a filha da Branca!
– Ah! É?
e sorria e me abraçava..
5 minutos depois:
– Ela é sua namorada?
– É, vó. É minha namorada.
– Que linda! Mas é muito bonita, a sua namorada! Parabéns…
e me abraçava mais do que das outras vezes.

🙂

E quando as pessoas que eu amo tanto de amor forem deixar essa vida eu realmente não sei o que vou fazer com a minha. Mas é como meu pai disse, um dia, meio triste, se lembrando do meu avô: “ah, nanda… é uma saudade que nunca passa.”

De qualquer forma, não importa a idade. Se ainda está dentro da barriga ou se é uma velhinha linda de 103 anos. Sempre parece cedo demais.

É proibido chorar em despedidas

junho 3, 2007


É proibido Proibir

Fui assistir Proibido Proibir numa sessão especial a 3 reais, no shopping Crystal, que fica aqui pertinho. E, sabe, gostei. Gostei dos universitários que tem alguma coisa minha (o jeito de andar, as expressões, não sei, alguma coisa). Da periferia do Rio, que quase nunca aparece. Do triângulo amoroso . E do beijo ardente no final. Em alguns momentos dá um pouquinho de vergonha alheia, mas são raríssimos os filmes brasileiros que não carregam esses instantes. Mas, não sei, algo me pareceu familiar. Aquele sonho de melhorar o mundo, de ajudar pessoas, aquela preocupação que a gente tem com a conjuntura toda, seguida por aquela sensação de impotência, de que está tudo podre, que não existe ninguém a quem confiar a nossa proteção, os nossos valores, os nossos parâmetros de ética e justiça. Aprender a viver na marra, com os conflitos de realidade, e se desiludir vendo que não dá pra tapar o gigantesco buraco do mundo. Quando eu crescer e deixar de ser uma idealista é isso o que eu vou fazer, quando tudo parecer meio desprovido de paixão: ir ao cinema.
(E eu queria ser linda e hippie que nem a Maria Flor, nesse filme.)

É proibido Proibir

Agora, capitalisticamente falando, tem gente mais chata que vendedor de loja?
Essas duas últimas semanas não sei o que me deu, mas andei comprando umas roupas em lojas que não tem no Rio. A conta do cartão me provoca uma certa ansiedade (pai, não fica bravo). Mas sabe quando você percebe que 90% das suas roupas tem mais tempo do que o seu namoro? E, no meu caso, vocês sabem né, isso é tempo. Então tenho entrado em algumas lojas e constatado, cada vez com mais convicção que vendedores são uma raça incômoda. Eu tô lá, olhando as blusas e começa o interrogatório. Já conhecia a loja? Não? Nunca tinha ouvido falar? Ah, você é de onde? Tá gostando da cidade? E o que uma carioca faz por aqui? Estágio em que área? Em qual hospital? Nossa, trabalhar com criança, que máximo, mas não dá uma peninha? E você quer se especializar em pediatria mesmo?
Caraca! Quem eles pensam que são? Meus amigos?
Bem, o que importa é que estou voltando com umas roupas que me deixaram contente.
E acho que meu casaco novo fez sucesso, porque recebi vários.. digamos.. elogios.. digamos… urbanos.

Fora isso, nem sei por onde começar de tão atolada que estou de coisas pra fazer até 6a feira. Tenho que escrever a carta de aviso de desocupação, pintar o apartamento, vender móveis, me despedir de pessoas, cancelar contas e fazer toda a mudança de volta. Talvez eu vá até Floripa ver o Flu jogar a final da Copa do Brasil, se meu tio me arranjar um ingresso, já que esgotou tudo em 1 dia. Senão vou ter que me amontoar em algum bar que, de preferência, não esteja cheio de figueirenses sem espírito esportivo. Que nem quando fui com o chefe ver o jogo do Atlético na Arena lotada e meu time eliminou o Furacão. Não comemorei nem nada (só quando cheguei em casa dei uns pulos). Mas ele mal me olhava no dia seguinte. Eu tinha me esquecido como os homens levam essas coisas à sério. É só futebol, sabe, eu adoro e não sei explicar por quê. Mas é basicamente isso. A paixão nacional.

Amanhã vai ter churrasco de despedida minha e dos residentes que, em 3 semanas, estarão voltando pros seus serviços de origem e o hospital estará recebendo a outra metade de residentes de ortopedia da cidade. Na verdade esse churrasco é uma tradição lá no hospital. É feito na chácara do meu querido chefe, ele inclusive manda matar um carneiro e sempre tem muita comilança e bebida pro pessoal se esbaldar e vão os outros chefes também. Mas esses residentes, não sei, andam meio desiludidos da vida. Eles não queriam ir (não sabia que eu estava tão sem prestígio!) mas aí o chefe foi lá e deu um esporro! Falou que não fazia a menor questão de que eles fossem na casa dele, que quem não quisesse ir que não fosse, mas que ele estava fazendo isso pra eles e que eles deviam ir nem que fosse pra se despedir da Fê, que ajudou tanto vocês no ambulatório e nas cirurgias. Fiquei até me sentindo mal.. Mas eles disseram que vão. Então, de repente, funcionou, né? Vamos ver como vai ser amanhã. Depois conto.
Quinta feira saí com as meninas. Todas médicas, óbvio. Os meus únicos 2 amigos não-médicos nessa cidade são o meu anjo da guarda, que é engenheiro de telecom, e a minha amiga que estudou comigo na escola e que veio pra cá por causa do noivo, ela é psicóloga. Mas, enfim, sexta feira estava destruída. E é tão especialmente difícil levantar no frio. Cheguei 7:20 no hospital, 20 minutos atrasada. O mais legal foi o olhar cúmplice que o residente que eu tinha encontrado (completamente bêbado) na night me mandou. Ele me disse, baixinho: “acho que ainda tô bêbado!” E ele ainda estava de plantão pelas próximas 24 horas! Fiquei o dia todo me sentindo um zumbi. Pensava o tempo todo: não sou feita pra vida noturna mesmo, tenho uma alma velha, que merda. Mas pelo menos atendi umas crianças fodas. Primeiro teve um bebê de7 meses que tinha uns olhos azuis que pareciam duas bolas de gude. O pediatra encaminhou pra gente porque estava suspeitando que o quadril estivesse fora do lugar. Depois atendi um recém-nato de 8 dias de vida que nasceu com 1 dedinho a mais no pé. Depois uma guria de 1 ano e meio com osteogênese imperfeita (aquela doença dos ossos de vidro, lembra do velhinho de Amélie?) que ficava me mandando beijos e tinha a risada mais gostosa. E depois uns 3 adolescentes bem gente boa. E o pior foi o meu casaco novo ter ficado empestiado com nicotina; quando é que vão passar aquela lei de N.Y. de não poder fumar em lugar fechado? Meu cabelo e minhas roupas agradeceriam imensamente. Assim como meus pulmões e bolsos, já que toda vez que saio no dia seguinte você pode me encontrar na lavanderia.

Hoje fiz janta e, enquanto isso, vi o último episódio de Felicity. Me lembrei de como achei que era o fim de uma era, quando vi aquele episódio pela televisão. Mas outras séries vieram, Sex & the City, Lost, Grey’s Anatomy… A mídia está sempre vendendo algo que a gente possa estar precisando consumir.

Felicity e Ben

Parlons d’avenir

maio 22, 2007

É tão difícil de articular. Essa sensação que ele provoca, o futuro.

Porque é isso. Tem uma hora em que chega aquele momento. O momento pelo qual todos estávamos esperando. O momento da verdade? E as cores parecem ter tantas camadas a mais do que simplesmente branco e preto. Sucesso ou fracasso. Como se mede isso? Ainda não tenho a resposta. Ainda não tenho quase nenhuma resposta.

O ser humano é cliché, porque toda vez que fecha um ciclo resolve fazer um balanço. Mas talvez esse seja um dos aspectos que o tornam tão fascinante. Meu objeto de estudo e dedicação. Aquilo o que eu escolhi fazer, da melhor forma que eu puder.

Me lembro do vestibular, como eu sentia uma certa angústia por aquelas pessoas que não sabiam o que queriam. E um certo alívio por não ser uma delas. Eu sabia exatamente o que queria. Aos 18 anos eu sabia exatamente o que queria. E estava tão pronta, mal conseguia esperar pra emergir daquele tipo de vida, que me parecia tão pouco, tão raso, tão obsoleto. O tempo passa, mais depressa pra uns do que pra outros. As pessoas fazem escolhas e aproveitam o seu tempo da forma que julgam ser melhor. Faço 24 em menos de 1 mês. A vida segue. E, de novo, sei exatamente o que quero fazer com ela. Mas, dessa vez, me sinto tão verde, tão despreparada pra profundidade. Acho que dessa vez sou um daqueles amigos perdidos, não tanto pela indecisão, mas pela imaturidade. Acho que talvez, justamente por ter noção da dimensão do que está por vir, tenho a certeza de não ter as armas pra guerra. Estou vulnerável e sem ferramentas. Se eu tenho que me expor desse jeito, tem mesmo que ser nesse tempo? A gente tem sempre que aprender as coisas pela via mais difícil? Não existe um caminho alternativo, que a gente não se julgue (e seja julgado) covarde por escolher? Não existe uma forma de a gente dizer “eu não estou pronta, por favor espera um pouco”?

(É, eu sei que não.)

Nunca achei que fosse me preocupar com esse tipo de coisa ou dizer uma frase do tipo pare-o-mundo-porque-eu-quero-descer. Mas seria bom. Mais tempo. A gente sempre quer mais tempo. Mas nem sempre merece. Não é mesmo?

Tempo pra compensar o que deixou escapar. As oportunidades que não pareciam assim, tão oportunas.

Às vezes acontece, é raro mas acontece. Isso de, de repente, se ver flutuando dois dedos acima da rotina. Tem umas coisas que quero tanto. Mas tanto. Que simplesmente esqueço. Aprender violão (tenho até vergonha de admitir). Fazer o curso de fotografia (eu sei que é lugar-comum). Tem até essa câmera maravilhosa numa promoção inédita, tenho umas economias. Mas pode ser tudo escapismo. Pode ser que não. Algumas coisas simplesmente são importantes..

Talvez seja uma daquelas típicas e facilmente diagnosticáveis crises de formando. Talvez seja o fato de eu não fazer a mínima idéia de onde estarei ou do que acontecerá com a minha vida daqui a um ano. Talvez seja culpa ou medo de fracassar e decepcionar as opiniões com as quais eu me importo tanto. (E verdade seja dita, não são poucas). Talvez tudo já tenha começado a desmoronar.

Talvez um pouco de cada. Mas é o que eu sinto. E, no fundo, não importa quantas pessoas verdadeiramente se importem, talvez a gente tenha que passar por isso tudo por conta própria mesmo. E, no final de contas, o quanto eu cresci ao longo desses anos talvez ajude em alguma coisa. Nesse friozinho na barriga, esse sede repentina, as pernas um pouco tontas, um apertinho rápido no peito, essa sensação de impotência. (Quanta angústia.) Que eu sinto só de pensar no que está por vir.

♫ :
Ryan Adams – La Cienga Just Smiled
Azure Ray – Displaced
Tresspassers William – Lie in the Sound

Sob nova direção

fevereiro 5, 2007

Meu namorado veio e, com ele, meu computador. Agora mando notícias por aqui, em textos que já estavam escritos, só esperando chegar o envelope com selinho pro mundo.

Quando cheguei aqui descobri que tenho um anjo da guarda no Paraná. Que se chama Gil. Foi me buscar no aeroporto (eu e meus 60 quilos de excesso de bagagem), me levou até a imobiliária e depois de lá até em casa, me ajudou a conseguir telefone, me ensinou um atalho pra uma rua super fofa, me levou ao supermercado e a lugares baratinhos pra comprar panelas, tupperware, numa rua de móveis usados onde fiz um ótimo negócio comprando uma escrivaninha. Me concedeu um tour gratuito e cheio de comentários curiosos pelo centro, me deu um modem, um telefone e uma cadeira. E ainda me trouxe hortelã da horta dele. Gente! Não é super anjo da guarda? Vou começar uma petição pra concederem ao Gil o título de anfitrião honorário de Curitiba.

Fui comprando as coisas que precisava aos pouquinhos. O que foi bem divertido porque cada nova aquisição era motivo de uma festa interna. Chegava em casa e era: u-hu, tenho cabides! lálálá, uma tábua de passar roupa! yessss, consegui um liquidificador! (esse consumo particularmente foi bastante comemorado e, na seqüência, “tivemos” sessões diárias de sucos de diferentes frutas, que até hoje fazem sucesso)

A melhor coisa de todas é poder chegar ao hospital em 7 minutos andando. Eu durmo menos, tenho menos tempo pra me alimentar direito, estudo mais, sou dona de casa dedicada e ainda assim me sinto menos cansada do que no Rio. O que, a meu ver, prova o quanto o trânsito carioca suga minha energia e meu humor.

Meu hospital só atende criança, é o hospital infantil com o maior volume de pacientes, cirurgias e procedimentos do Brasil. É referência pra uma série de patologias e tudo funciona, um médico me disse uma vez: “parece primeiro mundo”. As pessoas vêm do sul inteiro (em alguns casos, de vários cantos do país) pra serem tratadas no Pequeno Príncipe. Só lá na ortopedia devem ser umas 90 crianças por dia, sem contar as emergências. As idades variam. É interessante: você atende um bebê de 1 mês e depois um adolescente todo grandão e desengonçado de 16. Tem uns 10 residentes homens e só mais uma menina além de mim. São todos bem figuras e divertidos. E tem os chefes. Tem o chefe-mor e os outros chefes, cada dia é um. Tem uma que é a mais brava de todas e distribui broncas e lições. Tenho medo dela.

Antes de eu vir pra cá, as pessoas me advertiram tanto sobre a frieza e a falta de educação dos curitibanos que vim tão psicologicamente preparada, pra ser ignorada ou mal tratada, que estou achando todos eles uns amores. Ou vai ver é o carioca é que anda anormalmente mal humorado nos últimos tempos…

Mas, pra começar, os curitibanos são incrivelmente pontuais. Logo que cheguei liguei pro chaveiro pra que ele viesse trocar o segredo e pra companhia de telefone, pra instalarem a minha linha. Os dois disseram que viriam no dia seguinte pela manhã. Só que, no Rio, isso significaria que um deles chegaria na hora do almoço (a 1 da tarde) e o outro só lá pelas 5. Então já sabia que ficaria o dia inteiro em casa. Deixei a faxina e uma parte da louça pro dia seguinte, em que certamente ficaria presa esperando os caras. Às 9 horas em ponto tocou meu interfone, era o chaveiro. Que resolveu rápido o lance do segredo. Fiquei maravilhada. Ainda mais porque às 10:15 chegou o técnico pra instalar o telefone. E ao meio-dia eu estava livre pra sair pra passear e resolver mais coisas. Não é incrível?

Por outro lado, não existe aquela informalidade generalizada carioca. Outro dia estava no shopping e fiquei impressionada com umas meninas de uns 14 anos usando mais maquiagem do que já usei em toda a minha vida. No shopping! Às 2 da tarde! E também tem essa coisa de todo mundo tratar os outros por senhor e senhora. Tenho que me policiar pra não parecer abusada tratando o chefe por “você”. Me lembrei de uma vez em que abri o Lonely Planet do Rio, na Argumento, e tava escrito assim: primeira coisa que você precisa saber sobre o Rio de Janeiro – é a cidade mais informal do mundo.

Mas aviso, essa cidade aqui tem todo um charme, um je ne sais quois e corre o sério risco de me conquistar.

Quando a gente descobre que não é de ferro

novembro 7, 2006

Há dois anos atrás, eu tinha essa queimação no peito. Vinha depois de comer (tem gente que chama de azia, mas eu detesto a sonoridade dessa palavra) e durava uns 20 minutos. Fui à médica.

– O que te traz aqui?

– Ah, eu acho que estou com refluxo gastro-esofágico.

Estudante de medicina é assim: já chega se queixando do diagnóstico. Fazer o quê?

E era mesmo. Tratei.

Dois anos e meio depois voltaram os sintomas. Junto com eles, vieram uma plenitude pós prandial horrível. Traduzindo: eu comia uma refeição comum, um macarrão ou só uma salada com frango grelhado e parecia que eu tinha comido um boi inteiro. Ficava aquela sensação horrível, como se a gente estivesse cheia de entulho por dentro.

Voltei na médica.

– Nossa, quanto tempo a gente não se vê!

– Pois é, 2 anos?

– Um pouco mais. O que está acontecendo dessa vez?

– Acho que o refluxo voltou.

Ela me mandou fazer uma endoscopia. Eu fico nervosa quando tenho que fazer endoscopia. Meu pai entrou comigo e ficou de olho no oxímetro (aquele pregadorzinho que colocam no dedo da gente pra ver se o oxigênio está sendo bem aproveitado), que também dá a nossa freqüência cardíaca. A gente esperava o médico chegar. Meu pai olhou pro monitor e disse assim: toda vez que abrem a porta sua freqüência dispara. Falei pra ele: acho que não vai dar nada, não.
O médico era atencioso e a sedação foi pancada: meperidina, midazolam e propofol. Você vai sentir como se estivesse fazendo esforço pra me focalizar, sua visão vai ficar turva, seu corpo vai ficar todo tonto e.

Acordei na salinha. Que nem da outra vez. Assim que é bom.

Só que veio no laudo: esofagite péptica grau II. Na fotinho tinha umas erosões que ainda não chegam a ser úlcera. Ainda bem. Ó:

meu esôfago doente, com erosões-quase-úlceras

Mas, né, fiquei triste. Porque (fui ler no livro) “a esofagite erosiva pode causar sangramento e cicatrizar com metaplasia intestinal (Esôfago de Barret), que é um fator de risco para adenocarcinoma”.

Poxa. Sabe? Vamos deixar esse tipo de coisa pra gente com mais de 40 anos, que já viajou pelo interior da itália, já comprou um apartamento com o próprio dinheiro e já tem 2 filhos grandes? O sujeito não precisa saber aos 20 e poucos anos que tem um troço que pode vir a ser um baita fator de risco pra câncer de esôfago. Ainda mais se faz tudo direitinho: não fuma, não bebe, come tudo saudável, faz exercício físico e dorme à noite. Ainda mais se for estudante de medicina, que “tem” todas as doenças do mundo (ano passado “tive” diabetes, doença de crohn, hipertireoidismo e rubéola). Brincadeira, mas essa inflamação no esôfago aí, isso eu tenho mesmo, olha a foto aí pra comprovar. E já cortei o chocolate, já cortei o ácido, o guaraná, até pão vou ter que cortar. A genética não se corta (minha mãe, tio e avô têm problemas de esôfago e/ou estômago). Então só falta cortar o estresse.

O problema é que já estive muito mais vulnerável ao estresse. Com sinceridade, ultimamente não tenho me achado tão estressada assim. Mas é que as coisas se acumulam. As pequenas coisas, as obrigações (até as sociais), o trânsito diário, a pressa, o cansaço, os sapos engolidos porque “não é nada pessoal” ou porque “meus problemas são muito maiores que os seus”, a preocupação com os outros, o coração que fica apertadinho quando alguém que a gente adora está sofrendo, as pressões. Pra ser organizada, realizada, saudável, bonita, bem-sucedida. Quem sofre é o aparelho digestivo. É assim mesmo. Pronto, quero ir morar no interior e criar galinhas.

Agora estou mal-humorada, de orgulho ferido porque levei bronca e começando tratamento de 6 semanas. Depois posto uma nova foto do meu esôfago: espero que no próximo exame ele esteja menos bravo comigo.