Archive for the ‘Humanidades’ Category

Degrau por Degrau

maio 13, 2008

A residência médica é umas 10 vezes mais concorrida do que o vestibular, pra algumas especialidades. Pra outras, não. Por exemplo, esse ano sobrou vaga pra Pediatria. O negócio é que você, depois de ralar 6 anos pra se formar nesse outro plano de existência que é a medicina, quer fazer residência em um lugar bom. Você quer se dar a esse luxo. E são nesses lugares bons em que a concorrência é pior do que o vestibular. E é nesses lugares bons que você vai deixar de ter vida, sábados, domingos, feriados, enfim, você vai pertencer a um hospital. E ainda vai ter que ter todas as respostas na ponta da língua pra não ganhar um olhar de desprezo ou umas palavras amargas de um chefe que se esqueceu como é ser residente (ou, mais provavelmente, quer vingança). Mas, paradoxalmente, é com isso que todo médico recém-formado (ou prestes a jurar hipócrates) sonha. É a famosa residência dos sonhos. Uma boa e escravizante formação.

Acontece que a maioria das pessoas não quer nem pensar no que pode acontecer caso elas não passem no concurso de residência. Pois então, vou esclarecer: a pessoa volta pro curso (ou não), e se prepare, porque é lá que a ficha cai de verdade. Vai dar uma deprimidinha e emagrecer (ou não). Seus pais vão reagir de alguma forma, pois tinham expectativas (ou não). Vai procurar um plantão de emergência ou CTI pra ganhar uma experiência e um dinheirinho (ou não). E vai tocar sua vida pra frente, vai sobreviver. Como eu estou fazendo. Essas coisas podem acontecer com maior ou menor intensidade quando se sofre uma “derrota”. Eu caí num buraco que parecia não ter fim, me entreguei à angústia, a um desespero avassalador.

Mas cortei o cabelo, abri um blog-brechó, me apaixonei pelo budismo, entrei na terapia e estou subindo, estou tentando rise above. Degrau, por degrau.

Girando

setembro 10, 2007

aniversário do meu primo e afilhado:

impressionante como criança precisa de bem pouca coisa mesmo pra ser feliz 🙂

Feliz agora que mamou?

agosto 31, 2007

o david tem 4 meses e internou com pneumonia. não conseguia respirar, ficava roxo, tinha febre. no fim de semana o pulmão dele colabou. tiveram que correr com ele pro centro cirúrgico pra colocar um dreno e tirar o líquido e o ar que estavam dentro do tórax. já está há alguns dias tomando antibiótico na veia (por isso o curativo estranho no bracinho). estava tão mal, tão mal que, quando cheguei na enfermaria e o encontrei todo calmo depois de ter mamado (antes ele também não conseguia mamar, tamanha era a dispnéia) fiquei tão contente que fiz um videozinho dele.

das belezas da vida que a gente encontra na rede

agosto 15, 2007

1:

Me and You and Everyone We Know

Semana retrasada assisti em DVD “Me and you and everyone we know”. É um filme experimental, da Miranda July, que além de ser a atriz principal (interpretando ela mesma: uma artista contemporânea cheia de camadas) ainda é a roteirista e diretora do filme. E, sabe, fiquei encantada. A história é simples, mas a seqüência de imagens e de acontecimentos banais (que se tornam extraordinários aos olhos de algumas pessoas excêntricas) exploram temas sensíveis (como divórcio, pedofilia e solidão) de uma forma que eu nunca tinha visto. Talvez aqui e ali, salpicado em outros filmes, como a cena do saco em “Beleza Americana”, quando ele diz: “Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it, like my heart’s going to cave in.” Eu acho que sou uma viciada incoercível na busca por essa sensação que ele descreve. Eu quero sentir, quero me deixar atropelar, quero ser desintegrada por uma beleza galopante. E que, quando eu conseguir me levantar ou me recompor em moléculas, quero ainda estar sob o efeito embriagante das coisas incríveis. E, assim que ele passar, eu sei que vou precisar de mais.

O que me lembra de “Candy”, que vi outro dia. Sobre outro tipo de dependência. Dois viciados em heroína e no amor sem fundo que sentem um pelo outro embarcam naquela jornada sem volta que a gente já viu em Réquiem. Como diz o personagem do Geoffrey Rush no filme: “When you can stop, you don’t want to. When you want to stop, you can’t.” É verdade que eu não estava esperando muito, mas me surpreendi imensamente. Esse filme é mais lírico que Réquiem, mais frágil, cheio de recursos visuais maravilhosos com música doída, a atuação entregue do Heath Ledger e preciosidades australianas: a fotografia, os sotaques. A Candy (linda, luminosa e loura) e o Danny vão alimentando o vício e consumindo tudo o que era genuíno: o amor, os sonhos, os valores, a ingenuidade. A gente sabe como termina. Mas mesmo assim parece que acabou de ver uma coisa deprimentemente linda.

Candy (2006)

mas depois de assitir “me and you and everyone we know” resolvi googlar a diretora. cheguei ao blog dela, que é mais uma forma de divulgar o próprio trabalho, o livro que ela escreveu, a agenda de exposições pelos próximos meses, os projetos e instalações dos quais ela participa, etc. mas, de lá, encontrei um link pra outra coisa da qual não páro de falar ultimamente.

2:

Constelação nas costas de Jovana Sarver, Philadelphia, Pennsylvania USA

Uma família de Seattle (2 pais, um filho de 20, 2 adolescentes e uma menininha de 5 anos) está completando o seu projeto: “Learning to Love You More” consiste em 63 assigments (deveres de casa?) que envolvem os mais variados tipos de sentimentos e atitudes. Algumas são altruístas, como 31 – Passe tempo com uma pessoa que está morrendo. Umas são divertidas, como 25 – Faça um vídeo de alguém dançando. Outras são emotivas, como 32 – Desenhe a cena de um filme que te fez chorar. E carinhosas como 39 – Tire uma foto dos seus pais se beijando. E há algumas ao estilo Amélie, como: 36 – Cultive um jardim em um lugar inesperado e 9 – Desenhe uma constelação com as pintinhas de alguém.

Essas tarefas foram assimiladas e executadas por gente dos 4 cantos do mundo e a família Oliver (os artistas idealizadores do “Learning to Love You More”) posta no site os resultados dos desafios aceitos por cada uma de todas essas pessoas desconhecidas que, de alguma forma, chegaram ao projeto e abraçaram a idéia. E daí os vídeos, desenhos, fotografias, músicas, gravações e relatos gerados pelas tarefas ganharão uma exposição no Bumbershoot Festival, em Seattle, em setembro. Eu fiquei encantada com esse projeto. Quero dizer, ISSO é arte contemporânea. Arte digital, interativa e cheia de desdobramentos práticos. Espero que a arte tenha superado, enfim, aquela história de expôr tijolos com um chumaço de cabelos em cima (com a transitoriedade da vida e a desintegração do homem ou explicações parecidas) e exponha mais coisas tão belas como essas, resultantes de 63 variáveis da vida.

3:

No Girl So Sweet, no DeviantArt

Papéis de parede lindos. Pra pôr no computador, no DeviantArt. E no Icon Factory. Eu não agüentava mais o mesmo papel de parede há 6 meses. Agora salvei um monte, vai dar até pra variar.

E papéis de parede lindos. Pra pôr na parede mesmo. Quando a gente tiver a nossa própria casa ; )

These Words

4:

O final de Edwards Mãos de Tesoura. Tinha me esquecido de como era lindo.

O troço que move montanhas na cidade luz

julho 9, 2007

Paris, Je T’aime

Paris, Je T’Aime é auto-explicativo. Histórias de amor passadas em Paris (não tinha lugar mais adequado, não?)
20 curtas, alguns deles de diretores renomados. uns 2 deles dispensáveis, mas que nem por isso deixam de ser válidos. uma meia dúzia que a gente torce pra que continue, pra que seja um longa.

Mas não sobre o amor óbvio, homem-mulher, arroz com feijão. Tem amor de mãe, amor doentio, amor por desconhecidos, amor de pai que virou avô, amor platônico, amor próprio, amor de filho. Amor que começa na dor, no desespero, na solidão, na identificação. Amor que nasce do fim iminente. Amor que começa com admiração e amor que nunca se consuma. E o que nunca termina, mesmo depois de papéis assinados e famílias reconstituídas.

E umas pérolas, como a Maggie Gyllenhaal doidona de crack, o Gérard Depardieu fazendo uma ponta de maitre, a Ludivine quase indistingüivel, numa cena de pouca luz, Gaspard Ulliel lindo e gay, os gritos da Natalie Portman e o tapa da Fanny Ardant.

É desses que, quando sair em DVD, vou querer ver de novo.

É permitido chorar em despedidas

junho 8, 2007

obrigada por ter sido um exemplo tao imenso

Minha bisa morreu.

Ela tinha 102 anos e teve uma pneumonia. Foi pro CTI, ficou melhor (aquela melhorada, sabe, aquela da qual a gente da área médica sente um medo) e o coração dela desistiu. Imagina.. Ficar 102 anos batendo, sem parar, sem descansar, só trabalhando, trabalhando…

Fiquei triste. E na verdade escrevi esse post assim que meu avô me deu a notícia, no domingo. Mas, por alguns motivos, só estou publicando agora.

O que a gente deve pensar quando acontece isso? A gente diz assim: “foi melhor, ela descansou, estava sofrendo.” Mas será que não é uma hipocrisia falar uma coisa dessas?
Bem, definitivamente é uma forma de a gente tentar se sentir melhor. E de tentar confortar o outro, que é alguma coisa que sempre deve ser tentada, não importa muito como.

Acho que essa é a coisa mais difícil pra se pensar sobre. Talvez como meu avô disse (e achei tão bonito): ela foi muito boa, está do lado de Deus. Talvez se tivéssemos aprendido budismo na escola teríamos outra lógica de pensamento, outra manifestação de fé. Mas acho que o sentimento seria o mesmo. Que, no caso, é: não tenho mais minha bisa.

Me lembro da festa de 100 anos que a gente fez pra ela. Foi tão legal. Minha mãe fez uma montagem de fotos antigas e a gente comemorava cada vez que ela reconhecia alguém nas fotos.

No final da festa, depois de já ter dançado, comido, bebido, soprado velas, rido e se esbaldado, ela começou a trocar um pouco as bolas e apontou pra mim e disse assim pro meu tio:

– Ela é sua namorada?
– Não, vó! É a Nanda, a sua primeira bisneta…
– Ah! Nanda!
e me abraçava…
10 minutos depois:
– É sua namorada, Arthur?
– Não, mulata. Ela é a filha da Branca!
– Ah! É?
e sorria e me abraçava..
5 minutos depois:
– Ela é sua namorada?
– É, vó. É minha namorada.
– Que linda! Mas é muito bonita, a sua namorada! Parabéns…
e me abraçava mais do que das outras vezes.

🙂

E quando as pessoas que eu amo tanto de amor forem deixar essa vida eu realmente não sei o que vou fazer com a minha. Mas é como meu pai disse, um dia, meio triste, se lembrando do meu avô: “ah, nanda… é uma saudade que nunca passa.”

De qualquer forma, não importa a idade. Se ainda está dentro da barriga ou se é uma velhinha linda de 103 anos. Sempre parece cedo demais.

É proibido chorar em despedidas

junho 3, 2007


É proibido Proibir

Fui assistir Proibido Proibir numa sessão especial a 3 reais, no shopping Crystal, que fica aqui pertinho. E, sabe, gostei. Gostei dos universitários que tem alguma coisa minha (o jeito de andar, as expressões, não sei, alguma coisa). Da periferia do Rio, que quase nunca aparece. Do triângulo amoroso . E do beijo ardente no final. Em alguns momentos dá um pouquinho de vergonha alheia, mas são raríssimos os filmes brasileiros que não carregam esses instantes. Mas, não sei, algo me pareceu familiar. Aquele sonho de melhorar o mundo, de ajudar pessoas, aquela preocupação que a gente tem com a conjuntura toda, seguida por aquela sensação de impotência, de que está tudo podre, que não existe ninguém a quem confiar a nossa proteção, os nossos valores, os nossos parâmetros de ética e justiça. Aprender a viver na marra, com os conflitos de realidade, e se desiludir vendo que não dá pra tapar o gigantesco buraco do mundo. Quando eu crescer e deixar de ser uma idealista é isso o que eu vou fazer, quando tudo parecer meio desprovido de paixão: ir ao cinema.
(E eu queria ser linda e hippie que nem a Maria Flor, nesse filme.)

É proibido Proibir

Agora, capitalisticamente falando, tem gente mais chata que vendedor de loja?
Essas duas últimas semanas não sei o que me deu, mas andei comprando umas roupas em lojas que não tem no Rio. A conta do cartão me provoca uma certa ansiedade (pai, não fica bravo). Mas sabe quando você percebe que 90% das suas roupas tem mais tempo do que o seu namoro? E, no meu caso, vocês sabem né, isso é tempo. Então tenho entrado em algumas lojas e constatado, cada vez com mais convicção que vendedores são uma raça incômoda. Eu tô lá, olhando as blusas e começa o interrogatório. Já conhecia a loja? Não? Nunca tinha ouvido falar? Ah, você é de onde? Tá gostando da cidade? E o que uma carioca faz por aqui? Estágio em que área? Em qual hospital? Nossa, trabalhar com criança, que máximo, mas não dá uma peninha? E você quer se especializar em pediatria mesmo?
Caraca! Quem eles pensam que são? Meus amigos?
Bem, o que importa é que estou voltando com umas roupas que me deixaram contente.
E acho que meu casaco novo fez sucesso, porque recebi vários.. digamos.. elogios.. digamos… urbanos.

Fora isso, nem sei por onde começar de tão atolada que estou de coisas pra fazer até 6a feira. Tenho que escrever a carta de aviso de desocupação, pintar o apartamento, vender móveis, me despedir de pessoas, cancelar contas e fazer toda a mudança de volta. Talvez eu vá até Floripa ver o Flu jogar a final da Copa do Brasil, se meu tio me arranjar um ingresso, já que esgotou tudo em 1 dia. Senão vou ter que me amontoar em algum bar que, de preferência, não esteja cheio de figueirenses sem espírito esportivo. Que nem quando fui com o chefe ver o jogo do Atlético na Arena lotada e meu time eliminou o Furacão. Não comemorei nem nada (só quando cheguei em casa dei uns pulos). Mas ele mal me olhava no dia seguinte. Eu tinha me esquecido como os homens levam essas coisas à sério. É só futebol, sabe, eu adoro e não sei explicar por quê. Mas é basicamente isso. A paixão nacional.

Amanhã vai ter churrasco de despedida minha e dos residentes que, em 3 semanas, estarão voltando pros seus serviços de origem e o hospital estará recebendo a outra metade de residentes de ortopedia da cidade. Na verdade esse churrasco é uma tradição lá no hospital. É feito na chácara do meu querido chefe, ele inclusive manda matar um carneiro e sempre tem muita comilança e bebida pro pessoal se esbaldar e vão os outros chefes também. Mas esses residentes, não sei, andam meio desiludidos da vida. Eles não queriam ir (não sabia que eu estava tão sem prestígio!) mas aí o chefe foi lá e deu um esporro! Falou que não fazia a menor questão de que eles fossem na casa dele, que quem não quisesse ir que não fosse, mas que ele estava fazendo isso pra eles e que eles deviam ir nem que fosse pra se despedir da Fê, que ajudou tanto vocês no ambulatório e nas cirurgias. Fiquei até me sentindo mal.. Mas eles disseram que vão. Então, de repente, funcionou, né? Vamos ver como vai ser amanhã. Depois conto.
Quinta feira saí com as meninas. Todas médicas, óbvio. Os meus únicos 2 amigos não-médicos nessa cidade são o meu anjo da guarda, que é engenheiro de telecom, e a minha amiga que estudou comigo na escola e que veio pra cá por causa do noivo, ela é psicóloga. Mas, enfim, sexta feira estava destruída. E é tão especialmente difícil levantar no frio. Cheguei 7:20 no hospital, 20 minutos atrasada. O mais legal foi o olhar cúmplice que o residente que eu tinha encontrado (completamente bêbado) na night me mandou. Ele me disse, baixinho: “acho que ainda tô bêbado!” E ele ainda estava de plantão pelas próximas 24 horas! Fiquei o dia todo me sentindo um zumbi. Pensava o tempo todo: não sou feita pra vida noturna mesmo, tenho uma alma velha, que merda. Mas pelo menos atendi umas crianças fodas. Primeiro teve um bebê de7 meses que tinha uns olhos azuis que pareciam duas bolas de gude. O pediatra encaminhou pra gente porque estava suspeitando que o quadril estivesse fora do lugar. Depois atendi um recém-nato de 8 dias de vida que nasceu com 1 dedinho a mais no pé. Depois uma guria de 1 ano e meio com osteogênese imperfeita (aquela doença dos ossos de vidro, lembra do velhinho de Amélie?) que ficava me mandando beijos e tinha a risada mais gostosa. E depois uns 3 adolescentes bem gente boa. E o pior foi o meu casaco novo ter ficado empestiado com nicotina; quando é que vão passar aquela lei de N.Y. de não poder fumar em lugar fechado? Meu cabelo e minhas roupas agradeceriam imensamente. Assim como meus pulmões e bolsos, já que toda vez que saio no dia seguinte você pode me encontrar na lavanderia.

Hoje fiz janta e, enquanto isso, vi o último episódio de Felicity. Me lembrei de como achei que era o fim de uma era, quando vi aquele episódio pela televisão. Mas outras séries vieram, Sex & the City, Lost, Grey’s Anatomy… A mídia está sempre vendendo algo que a gente possa estar precisando consumir.

Felicity e Ben

Parlons d’avenir

maio 22, 2007

É tão difícil de articular. Essa sensação que ele provoca, o futuro.

Porque é isso. Tem uma hora em que chega aquele momento. O momento pelo qual todos estávamos esperando. O momento da verdade? E as cores parecem ter tantas camadas a mais do que simplesmente branco e preto. Sucesso ou fracasso. Como se mede isso? Ainda não tenho a resposta. Ainda não tenho quase nenhuma resposta.

O ser humano é cliché, porque toda vez que fecha um ciclo resolve fazer um balanço. Mas talvez esse seja um dos aspectos que o tornam tão fascinante. Meu objeto de estudo e dedicação. Aquilo o que eu escolhi fazer, da melhor forma que eu puder.

Me lembro do vestibular, como eu sentia uma certa angústia por aquelas pessoas que não sabiam o que queriam. E um certo alívio por não ser uma delas. Eu sabia exatamente o que queria. Aos 18 anos eu sabia exatamente o que queria. E estava tão pronta, mal conseguia esperar pra emergir daquele tipo de vida, que me parecia tão pouco, tão raso, tão obsoleto. O tempo passa, mais depressa pra uns do que pra outros. As pessoas fazem escolhas e aproveitam o seu tempo da forma que julgam ser melhor. Faço 24 em menos de 1 mês. A vida segue. E, de novo, sei exatamente o que quero fazer com ela. Mas, dessa vez, me sinto tão verde, tão despreparada pra profundidade. Acho que dessa vez sou um daqueles amigos perdidos, não tanto pela indecisão, mas pela imaturidade. Acho que talvez, justamente por ter noção da dimensão do que está por vir, tenho a certeza de não ter as armas pra guerra. Estou vulnerável e sem ferramentas. Se eu tenho que me expor desse jeito, tem mesmo que ser nesse tempo? A gente tem sempre que aprender as coisas pela via mais difícil? Não existe um caminho alternativo, que a gente não se julgue (e seja julgado) covarde por escolher? Não existe uma forma de a gente dizer “eu não estou pronta, por favor espera um pouco”?

(É, eu sei que não.)

Nunca achei que fosse me preocupar com esse tipo de coisa ou dizer uma frase do tipo pare-o-mundo-porque-eu-quero-descer. Mas seria bom. Mais tempo. A gente sempre quer mais tempo. Mas nem sempre merece. Não é mesmo?

Tempo pra compensar o que deixou escapar. As oportunidades que não pareciam assim, tão oportunas.

Às vezes acontece, é raro mas acontece. Isso de, de repente, se ver flutuando dois dedos acima da rotina. Tem umas coisas que quero tanto. Mas tanto. Que simplesmente esqueço. Aprender violão (tenho até vergonha de admitir). Fazer o curso de fotografia (eu sei que é lugar-comum). Tem até essa câmera maravilhosa numa promoção inédita, tenho umas economias. Mas pode ser tudo escapismo. Pode ser que não. Algumas coisas simplesmente são importantes..

Talvez seja uma daquelas típicas e facilmente diagnosticáveis crises de formando. Talvez seja o fato de eu não fazer a mínima idéia de onde estarei ou do que acontecerá com a minha vida daqui a um ano. Talvez seja culpa ou medo de fracassar e decepcionar as opiniões com as quais eu me importo tanto. (E verdade seja dita, não são poucas). Talvez tudo já tenha começado a desmoronar.

Talvez um pouco de cada. Mas é o que eu sinto. E, no fundo, não importa quantas pessoas verdadeiramente se importem, talvez a gente tenha que passar por isso tudo por conta própria mesmo. E, no final de contas, o quanto eu cresci ao longo desses anos talvez ajude em alguma coisa. Nesse friozinho na barriga, esse sede repentina, as pernas um pouco tontas, um apertinho rápido no peito, essa sensação de impotência. (Quanta angústia.) Que eu sinto só de pensar no que está por vir.

♫ :
Ryan Adams – La Cienga Just Smiled
Azure Ray – Displaced
Tresspassers William – Lie in the Sound

Eu ♥ Balneário do Caos

maio 6, 2007

Tomei uma decisão:

quero ver assim tambem

quero viver o rio.

é.

que nem a camila pitanga. ela disse na entrevista: “faço hidroginástica, ioga e musculação. corro na lagoa, não fico muitos dias sem ir à praia e adoro caminhar nas paineiras. vivo muito o rio.” Mora na Gávea e está se mudando pro Jardim Botânico. Essa última parte, bem, eu vou ter que pular. O problema é que morar na Barra é tão consumptivo que a gente se esquece do resto da cidade toda. E aprendi que isso é uma heresia. Sabe? Um dia percebi que todas as pessoas de Curitiba têm uma fascinação doída pela minha cidade. Então pensei: não é possível, tem alguma coisa errada comigo. (E com a minha família e com os meus amigos.) Pensando nisso, nesse último fim de semana em que estive no Rio pra ir tirar a foto de formatura acho que enxerguei a cidade com os olhos mais de-turista que eu já tive.

Fui pra Santa Casa domingo de manhã cedinho. A névoa tomava conta da cidade, como disse a Marisa Monte na primeira música do disco colorido dela. Mas aos poucos ela se dissipava e eu não precisava mais dos óculos escuros. Nenhuma nuvem no céu. O mar brilhava ali, visto do Elevado do Joá. Tinha inversão térmica no horizonte, mas com aquilo eu estava acostumada, olhei que nem local, não como turista abobalhada. Depois fui pela Lagoa, que estava mais bonita do que eu me lembrava que ela era, e como ela ficava silenciosa e serena às 7 da manhã de um domingo. Peguei o Humaitá e depois o Aterro. O Pão de Açúcar não parece ter sido pintado ali naquele céu azul, às vezes? Aquela parte final do Aterro tava fechada. Não faz mal, fui por dentro do Flamengo. Ali tem que ter cuidado porque tem muito Pardal. Tinha uma médica entrando no Fernandes Figueira. Depois passei ali na rua do consulado americano, tudo vazio, aquele centro fantasmagórico dos fins de semana. A Santa Luzia tava interditada. Não faz mal de novo, faço umas voltinhas, uma baianada e pronto, chego na Santa Casa. Pra encontrar aqueles amigos com quem eu vou me formar. Um monte de gente com quem eu não tenho muita afinidade. Mas por quem eu tenho carinho. É engraçado isso, a faculdade passa depressa e, se a gente não estabelece laços estreitos ao longo dela, não vai ser nos 45 do segundo tempo que a gente vai recuperar o degrau. De repente, quando estava quieta, na minha posição de baixinha-privilegiada da foto de turma, esperando o fotógrafo acertar o pessoal lá de trás que estava torto, me dei conta de que não vou levar mesmo muita gente dali. Uns 3 ou 4, se muito. E, na verdade, que estranho, não sinto nostalgia ou remorso de nada. Fica uma ternura daquilo tudo. Talvez baste. Um caipira me falou uma vez: a vida é um rio que só vai pra frente, nunca pra trás.

Voltei pra casa pela orla. A outra pista estava reservada aos pedestres, ciclistas, patinadores, malabaristas, pernas de pau, anônimos, famosos, bebês e velhinhos. Escolhi a Niemeyer. Me deixei ficar embriagada por aquelas cores saturadas todas da cidade e pegamos 1 hora e meia de praia antes de dar a minha hora de me mandar pro Galeão. A água estava gelada mas sempre vale à pena. Estava transparente e cheia de piscinas. Comemos biscoito globo e tomamos mate. Que instituição, isso.

Então, graças à Camila Pitanga e à população de Curitiba, eu acho que estou conseguindo enxergar a minha cidade através do caos e da violência. Porque, apesar de tudo, é minha, é linda. Não sei quanto tempo dura o barato (até meu primeiro engarrafamento de 2 horas e meia ou até a primeira ignorada-básica pelo padeiro ou pelo feirante ou alguma outra coisa um pouco mais pessoal), mas espero que ele não vá mais embora. E traga aquela luzinha de esperança, de vontade, de respeito mútuo. Assim: Eu quero tentar dar certo com essa cidade.

Então diante de vocês, minhas testemunhas, de quem eu quero ganhar um abraço quando eu voltar mesmo, daqui a 4 semanas, uma lista de carioquices, algumas eu já fiz há tempos, outras nunca. Mas tudo isso eu quero viver, mesmo que em doses homeopáticas, culpa da rotina apertada. Mas uma coisa de cada vez, sem pressa mesmo. Pra poder respirar o Rio através da fumaça, através do jornal, através de tudo o que se fala e se sabe de mal. Dessa cidade que a gente odeia quase tanto quanto ama.

1 – ir à praia em ipanema

2 – subir no cristo

3 – caminhar nas paineiras

4 – tomar café da manhã no parque lage

5 – andar de pedalinho na lagoa

6 – passear na pista claudio coutinho

7 – ver nascer do sol no arpoador

8 – andar de bondinho

9 – chorinho em laranjeiras

10 – samba na lapa

11 – aproveitar a vista do parque das ruínas

12 – conhecer uma praia de niterói

13 – ver vitória régia e orquídea no jardim botânico

14 – pedra da gávea

15 – espiar maratonas

16 – ir ao burle marx

17 – comer biju na feira de são cristóvão

18 – andar de bicicleta na orla

19 – dar um pulo na floresta da tijuca

20 – a ilha fiscal

21 – fazer o tour do castelinho da fiocruz

22 – ir ao planetário num dia em que tenha observação

23 – lanchar nos quiosques novos de copa

24 – outeiro da glória

25 – caminhar no aterro num domingo

26 – ir à praia no grumari

27 – simplesmente contemplar

Scars and Souveniers

março 30, 2007

algumas coisas são assim

Todo mundo tem bagagem boa e bagagem ruim. E as cicatrizes, lógico, tem umas que continuam incomodando um tempão depois que a gente tira os pontos. E nesse mérito, por um ângulo, invejo um pouco os americanos. Porque eles superam as coisas. Eles saem, compram, alguns bebem tequila, outros comem um pote de sorvete e superam! Get over it, move on.

Mas algumas relações, depois de certos acontecimentos, não se restabelecem. As cicatrizes ficam lá, compridas e lembrando do que aconteceu, o tempo todo. A gente tenta escapar, tem gente que muda de cidade, tem gente que abandona a pátria. Mas elas estão lá. E ninguém pode mudar os fatos consumados. Ninguém pode des-dizer coisas desnecessárias ou desfazer decepções sedimentadas. O que foi, foi. Vide cicatrizes e souvenirs.

Quem tinha razão? Quem teve culpa? Quem fez a coisa certa? Qual a verdade?

Não importa mais, já era. Aquele espaço que existe entre duas pessoas: entre dois amigos, entre dois familiares, entre homem e mulher, entre duas pessoas que se consideram. Às vezes mais do que são. Aquele espaço onde tudo acontece. É nele que as coisas mudam. É ele que sofre a agressão e fica correndo o risco de virar um deserto.

Mas, previsivelmente, as feridas antigas ajudam a definir uma pessoa. Ensinam lições. Estabelecem parâmetros. Estão lá para nos dizer o que fazer pra evitar que aquilo volte a acontecer.

Ao menos é o que a gente fica se repetindo pra tentar, como os americanos, superar as mágoas da vida.

Tentar ser alguém melhor. Mas o que exatamente significa ser melhor? Mais altruísta ou mais egoísta? Mais contido ou mais extravasador? Mais impulsivo ou mais racional? Mais sincero ou mais falso? Tem umas medidas que não vendem nas lojas de artigos pra cozinha, que pena…

Algumas feridas demoram muito pra cicatrizar, mas saram.

Já outras a gente parece estar esperando até hoje.