Archive for the ‘Medicina’ Category

Trabalhando com as mãos

agosto 15, 2008

Eu nunca fui boa com habilidades manuais. Tenho a maior inveja de quem faz embrulhos bonitos pra presentes. Afinal, uma das coisas mais especiais de ganhar um presente é quando ele vem com um papel de embrulho bonito, dobrado de um jeito especial, né? (Coisas as que a gente só dá valor depois que cresce e precisa degustar um pedacinho de chocolate pra matar a vontade e não devorar a caixa inteira e fazer um estrago na balança!) Mas, enfim, nunca fui boa. Em tirar nós complicados, em fazer um laçarote bonito atrás do vestido, em confeccionar bijuterias pra vender na escola, em decorar biscoitos de natal com aqueles tubos de creme coloridos de confeiteiro.

É lógico que isso me preocupa horrores, já que considero fazer uma especialidade cirúrgica. Como não sei nem pregar um botão, como é que eu vou consertar retalhos DENTRO de pessoas? Aliás, isso é bem paradoxal: eu sei costurar gente, mas não sei costurar roupa. E o que é pior é que a gente só sabe se leva jeito pra operar depois que aprende a operar. E a gente só aprende mesmo a operar quando já está lá pro final da residência. Então como é que eu vou saber se eu tenho um dom pra uma coisa que eu tenho que decidir agora, mas só vou começar a aprender a fazer daqui a 3, 4 anos?!

O que me conforta é que, no fundo, tudo é prática. Como dizia um professor meu de cirurgia, se você treinar um orangotango a operar, ele vai acabar operando. Algumas pessoas têm um dom e terminam em 10 minutos um trabalho manual que outra pessoa levaria 3 horas pra conseguir acabar. E eu, quando aprendi a encapar meus livros com contact, na 5a série, demorava muito e me enrolava toda. Na 8a eu encapava todos os meus e os da minha irmã em uma tarde! E sem deixar nenhuma bolha.

Ou seja, talvez haja esperança pra mim.

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Degrau por Degrau

maio 13, 2008

A residência médica é umas 10 vezes mais concorrida do que o vestibular, pra algumas especialidades. Pra outras, não. Por exemplo, esse ano sobrou vaga pra Pediatria. O negócio é que você, depois de ralar 6 anos pra se formar nesse outro plano de existência que é a medicina, quer fazer residência em um lugar bom. Você quer se dar a esse luxo. E são nesses lugares bons em que a concorrência é pior do que o vestibular. E é nesses lugares bons que você vai deixar de ter vida, sábados, domingos, feriados, enfim, você vai pertencer a um hospital. E ainda vai ter que ter todas as respostas na ponta da língua pra não ganhar um olhar de desprezo ou umas palavras amargas de um chefe que se esqueceu como é ser residente (ou, mais provavelmente, quer vingança). Mas, paradoxalmente, é com isso que todo médico recém-formado (ou prestes a jurar hipócrates) sonha. É a famosa residência dos sonhos. Uma boa e escravizante formação.

Acontece que a maioria das pessoas não quer nem pensar no que pode acontecer caso elas não passem no concurso de residência. Pois então, vou esclarecer: a pessoa volta pro curso (ou não), e se prepare, porque é lá que a ficha cai de verdade. Vai dar uma deprimidinha e emagrecer (ou não). Seus pais vão reagir de alguma forma, pois tinham expectativas (ou não). Vai procurar um plantão de emergência ou CTI pra ganhar uma experiência e um dinheirinho (ou não). E vai tocar sua vida pra frente, vai sobreviver. Como eu estou fazendo. Essas coisas podem acontecer com maior ou menor intensidade quando se sofre uma “derrota”. Eu caí num buraco que parecia não ter fim, me entreguei à angústia, a um desespero avassalador.

Mas cortei o cabelo, abri um blog-brechó, me apaixonei pelo budismo, entrei na terapia e estou subindo, estou tentando rise above. Degrau, por degrau.

Feliz agora que mamou?

agosto 31, 2007

o david tem 4 meses e internou com pneumonia. não conseguia respirar, ficava roxo, tinha febre. no fim de semana o pulmão dele colabou. tiveram que correr com ele pro centro cirúrgico pra colocar um dreno e tirar o líquido e o ar que estavam dentro do tórax. já está há alguns dias tomando antibiótico na veia (por isso o curativo estranho no bracinho). estava tão mal, tão mal que, quando cheguei na enfermaria e o encontrei todo calmo depois de ter mamado (antes ele também não conseguia mamar, tamanha era a dispnéia) fiquei tão contente que fiz um videozinho dele.

I ♥ Grey’s Anatomy

maio 28, 2007

sério. pessoas não ganham globos de ouro à toa.
e sobre os muitos beijos em pessoas diferentes: que grupo de amigos não é assim? ; )

Parlons d’avenir

maio 22, 2007

É tão difícil de articular. Essa sensação que ele provoca, o futuro.

Porque é isso. Tem uma hora em que chega aquele momento. O momento pelo qual todos estávamos esperando. O momento da verdade? E as cores parecem ter tantas camadas a mais do que simplesmente branco e preto. Sucesso ou fracasso. Como se mede isso? Ainda não tenho a resposta. Ainda não tenho quase nenhuma resposta.

O ser humano é cliché, porque toda vez que fecha um ciclo resolve fazer um balanço. Mas talvez esse seja um dos aspectos que o tornam tão fascinante. Meu objeto de estudo e dedicação. Aquilo o que eu escolhi fazer, da melhor forma que eu puder.

Me lembro do vestibular, como eu sentia uma certa angústia por aquelas pessoas que não sabiam o que queriam. E um certo alívio por não ser uma delas. Eu sabia exatamente o que queria. Aos 18 anos eu sabia exatamente o que queria. E estava tão pronta, mal conseguia esperar pra emergir daquele tipo de vida, que me parecia tão pouco, tão raso, tão obsoleto. O tempo passa, mais depressa pra uns do que pra outros. As pessoas fazem escolhas e aproveitam o seu tempo da forma que julgam ser melhor. Faço 24 em menos de 1 mês. A vida segue. E, de novo, sei exatamente o que quero fazer com ela. Mas, dessa vez, me sinto tão verde, tão despreparada pra profundidade. Acho que dessa vez sou um daqueles amigos perdidos, não tanto pela indecisão, mas pela imaturidade. Acho que talvez, justamente por ter noção da dimensão do que está por vir, tenho a certeza de não ter as armas pra guerra. Estou vulnerável e sem ferramentas. Se eu tenho que me expor desse jeito, tem mesmo que ser nesse tempo? A gente tem sempre que aprender as coisas pela via mais difícil? Não existe um caminho alternativo, que a gente não se julgue (e seja julgado) covarde por escolher? Não existe uma forma de a gente dizer “eu não estou pronta, por favor espera um pouco”?

(É, eu sei que não.)

Nunca achei que fosse me preocupar com esse tipo de coisa ou dizer uma frase do tipo pare-o-mundo-porque-eu-quero-descer. Mas seria bom. Mais tempo. A gente sempre quer mais tempo. Mas nem sempre merece. Não é mesmo?

Tempo pra compensar o que deixou escapar. As oportunidades que não pareciam assim, tão oportunas.

Às vezes acontece, é raro mas acontece. Isso de, de repente, se ver flutuando dois dedos acima da rotina. Tem umas coisas que quero tanto. Mas tanto. Que simplesmente esqueço. Aprender violão (tenho até vergonha de admitir). Fazer o curso de fotografia (eu sei que é lugar-comum). Tem até essa câmera maravilhosa numa promoção inédita, tenho umas economias. Mas pode ser tudo escapismo. Pode ser que não. Algumas coisas simplesmente são importantes..

Talvez seja uma daquelas típicas e facilmente diagnosticáveis crises de formando. Talvez seja o fato de eu não fazer a mínima idéia de onde estarei ou do que acontecerá com a minha vida daqui a um ano. Talvez seja culpa ou medo de fracassar e decepcionar as opiniões com as quais eu me importo tanto. (E verdade seja dita, não são poucas). Talvez tudo já tenha começado a desmoronar.

Talvez um pouco de cada. Mas é o que eu sinto. E, no fundo, não importa quantas pessoas verdadeiramente se importem, talvez a gente tenha que passar por isso tudo por conta própria mesmo. E, no final de contas, o quanto eu cresci ao longo desses anos talvez ajude em alguma coisa. Nesse friozinho na barriga, esse sede repentina, as pernas um pouco tontas, um apertinho rápido no peito, essa sensação de impotência. (Quanta angústia.) Que eu sinto só de pensar no que está por vir.

♫ :
Ryan Adams – La Cienga Just Smiled
Azure Ray – Displaced
Tresspassers William – Lie in the Sound

O mala do supermercado me dando idéia

maio 19, 2007

Se tivesse um espaço extra naquele filme “Coffee and Cigarettes” eu colocava esse diálogo. Porque foi uma das coisas mais awkward que me aconteceram aqui.

As filas estavam enormes. Acho que curitibano não tem o que fazer quando chove e aí vai pro supermercado, é a única explicação, porque eu nunca tinha visto o Mercadorama cheio daquele jeito.

3 caras na fila do lado olhavam pra mim. Tirei meu headphone. Um deles mudou pra minha fila (eu era a última até então). Os outros 2 foram pra fila lá do canto esquerdo.

– Desculpa comentar, mas isso são compras típicas de quem mora sozinha…
-É?
– … pão, refrigerante, manteiga…
– É…
– … não tem carne, verduras…
– Carne já tem em casa.
– … carrinho típico mesmo.
– …

Pausa de uns 5 minutos. Os caras lá do outro lado gritaram blabalbla, carioca!
A fila não andava. Fiquei entediada e resolvi bater papo com o cara mala, não tinha noção do quão mala ele era.

– Você é do Rio?!
– Sou, por quê? [com um sorriso babaca]
– Eu também.
– Sério?! [com um sorriso embasbacado]
– …
– Mas como assim? O que você tá fazendo aqui?
– Um estágio.
– Você não tem o biotipo carioca.
– ?
– Poisé, você não parece carioca.
– É, eu tenho o biotipo de quem faz medicina. Cansada, branquela..
– Ah, você não tá branquela! Quer dizer, você não tá bronzeada, mas tá muito bonita.
– …
– Com todo o respeito, é claro. Mas você é bonita. Desculpa se..
– Não, tudo bem.
– …
– …
– Estágio em que área?
– Medicina.
– Medicina?!!! Mentira! Você não tem 20 anos na cara!
– 20 + 3
– Uau! E é bom aqui, na sua área?
– É. Bem, o melhor hospital pediátrico do Brasil é aqui e eu tô nele.
– Caraca!!! [sorriso extremamente babaca] Tão linda e ainda por cima cheia de conteúdo… Parabéns, viu?
– …
– Uma mulher que corre atrás do que quer…
– E você, tá fazendo o quê aqui?
– Vim pra fazer um concurso que vai ter amanhã.
– Trabalha em quê?
– No judiciário, fiz direito, né [aí ele fez uma carra muito de: “odeio meu trabalho, é uma merda”]
– Ahn. Legal.
– Você tá aqui há quanto tempo?
– 4 meses.
– Uau… bravo. Muito bom mesmo.
– Tô voltando já, em 3 semanas…
– E tá achando o quê, da cidade?
– É um bom lugar pra viver, né. Organizada, menos caótica. As pessoas são mais fechadas…
– É, mas você já tá pegando esse jeito fechado…
– …
– … quando eu falei do carrinho você resmungou umas palavras e virou a cara.
– …
– Agora, a noite aqui é uma merda, né?
– Ah, é. Não se compara à do Rio.
– E como você faz?
– Ah, vou onde as meninas me levam..
– [incompreensível]namora[incompreensível]
– …
– Agora te fiz A pergunta, hein?
– O quê?
– Se você você namora aqui ou lá?
– Namoro lá.
– Aaah, mas aí é ruim, né..
– Não, ele vem sempre. Teve aqui há pouco tempo, ficou 2 semanas.
– Mas aí se fala pouco, né..
– Não, todo dia, na verdade. Graças à internet, webcam, essas coisas…
– Ah, mas aí é ruim. Tem que dar uma saudadezinha.
– É, saudade é bom. Mas melhor ainda é matar a saudade.
– …

Daí chegou a minha vez e eu tava cansada demais pra ensacar as coisas. A mulher do caixa ia passando e ensacando ao mesmo tempo.
– Tá vendo? Se fosse no Rio você tava ali, ó. [apontou pro lugar onde a gente fica quando põe as compras nas sacolas]
– … [puta que pariu, que cara mala]
– Tsc tsc tsc, virou curitibana mesmo…

A mulher do caixa pediu minha identidade quando eu entreguei o cartão pra pagar.
– Isso é Curitiba mesmo, né?! Conferindo assinatura!
– …
– …
– Tchau! Boa sorte lá, amanhã!
– Obrigado! Vou precisar. Tchau!

A tão sonhada residência

fevereiro 7, 2007

Convivendo com uma penca deles diariamente, nem preciso de vidente ou tarot: posso vislumbrar o futuro.

Pra quem ainda confunde alhos com bugalhos, residente é o pobre coitado, exausto e mal pago médico recém-formado que se aventura num serviço onde, dali a 2, 3 ou 4 anos, sai especialista em algum pedaço do corpo humano. E aí ou vira residente de novo, de uma subespecialidade, ou então, se der mais sorte, vira chefe e vai mandar nos novos residentes.

Pois bem. Algumas verdades sobre o residente. É um dos caras mais injustiçados do mundo. Na hierarquia do hospital, até o faxineiro manda no residente. E, como não podia deixar de ser (como todo pobre e oprimido), é disparado o ser mais reclamão da área médica. Em alguns momentos, as lamentações viram uma diversão e o ritual do café da manhã é disputar quem levou mais esporro, quem se deu pior na escala dos plantões e, claro, inventar as histórias mais esdrúxulas possíveis sobre o general ou generala mais temido(a) do Q.G.

Dia-a-dia de residente de ortopedia em um lugar bom é assim: acorda às 5 da manhã, chega no hospital com sono porque foi dormir a 1 da manhã (ficou estudando ou estava em cirurgia) e vai passar visita nos doentes. A visita é feita em grupo, todos os residentes e todos os chefes. Aí cada um vai passando o que tem seu(s) paciente(s), como ele está naquele dia, quais as medicações que está tomando, mostra os rx comentando o que está alterado e diz o plano cirúrgico. Aí ele começa a ser sabatinado: onde está o raio-x de 7 anos atrás dese paciente? Por que ele vai fazer essa cirurgia e não aquela? Qual a chance da cirurgia não dar certo? Qual a fisiopatologia da luxação paralítica do quadril e qual a diferença dela pra luxação congênita? Entre outras. Quando não sabe, toma bronca. Quando sabe, continua a ser sabatinado até chegar a uma pergunta que não sabe responder. Aí, sim, toma bronca.

Depois da visita, eles tomam café, onde se passam os eventos divertidos que contei acima. E após esse rápido momento de descontração, vão pro ambulatório, atendem uns 10 paciente cada um, fazem gesso, curativo, entram em cirurgia (o chefe pergunta alguma coisa e, quando o residente não sabe, adivinha o que acontece:), e de vez em quando atendem emergências. Almoçam a comida do hospital, que até é comível mas é sempre a mesma coisa. Depois voltam pra onde estiverem escalados: ambulatório, cirurgia. Escrevem pra caramba, pedem exame, dão atestado, fazem descrição cirúrgica, prescrevem remédio, marcam cirurgia, fazem mil medidas no raio-x (e no paciente, é incrível a quantidade de ângulos que nossas articulações são capazes de formar). e de repente, quando estão crentes que podem ir pra casa junto com suas olheiras profundas, chega a secretária e diz: doutor fulano, você vai entrar em cirurgia agora, tá? tem uma fratura supracondiliana de emergência. Se derem sorte saem do hospital às 7 da noite. Senão, esquece. Só lá pelas 10. E quem tá de plantão fica até o dia seguinte.

E chega o sábado, mas o que você acha que residente faz sábado?

Vai passar visita e pode ter que entrar em cirurgia de última hora também. Ah, mas aí tem domingo, você pensa.  É, tem o domingo, pra quem dá sorte de não ser escalado pra plantão ou sobreaviso.

Uma observação importante: os residentes falam muitos palavrões por dia.

Mas tudo vem, residente amaldiçoa o chefe. O chefe diz que residente bom é uma espécie em extinção e que “essa raça é fogo, é tudo igual”. Faz parte e, com o tempo, os papéis se invertem.

O mais irônico é que o sonho de todo mundo que está no último ano de medicina é, de fato, virar residente. E é pra essa vida supra-citada que a gente estuda mil horas por dia, entra em cursinho à la vestibular e na paranóia de fazer mil questões de concursos. Porque as vagas são pouquíssimas e só tem o privilégio de se tornar o saco de pancada de uns staff’s fodões quem passa no funil.

Ah, sim! Lembra que eu tinha falado que quem inventasse um bom nome pro sexto-anista de medicina ganharia um doce?

Aqui eles chamam de “doutoranda”. É muito esquisito e sempre que tenho que me apresentar pra alguém não consigo dizer que sou doutoranda. Poxa, doutorando é quem faz doutorado. Eu acabo sendo prolixa: oi, eu sou interna do sexto ano, sou do rio de janeiro e vou ficar aqui até junho. Pronto, né. As pessoas costumam ficar satisfeitas com essa apresentação. E quando atendo um paciente (tem que assinar no prontuário) assino “Fernanda (interna)”.

Os residentes brincam que até eu estou acima deles na hierarquia. Só porque não tomo esporro quando respiro errado e porque, quando a cirurgia termina tarde (como ocorreu hoje, em que fiquei em cirurgia de 7 da manhã às 3 da tarde sem parar), o chefe me leva pra almoçar. E ainda é super estilo: ele vai me apresentando pra todo mundo que encontra no caminho. Hoje me apresentou à diretora do hospital, que falou pra eu passar na sala dela um dia desses pra  gente bater um papo. Fiquei pensando que deve ter sido uma gentileza da parte dela. Porque imagina, a situação? “Oi, lembra de mim? Então, vim bater papo. Como vai a administração do hospital?”

Sob nova direção

fevereiro 5, 2007

Meu namorado veio e, com ele, meu computador. Agora mando notícias por aqui, em textos que já estavam escritos, só esperando chegar o envelope com selinho pro mundo.

Quando cheguei aqui descobri que tenho um anjo da guarda no Paraná. Que se chama Gil. Foi me buscar no aeroporto (eu e meus 60 quilos de excesso de bagagem), me levou até a imobiliária e depois de lá até em casa, me ajudou a conseguir telefone, me ensinou um atalho pra uma rua super fofa, me levou ao supermercado e a lugares baratinhos pra comprar panelas, tupperware, numa rua de móveis usados onde fiz um ótimo negócio comprando uma escrivaninha. Me concedeu um tour gratuito e cheio de comentários curiosos pelo centro, me deu um modem, um telefone e uma cadeira. E ainda me trouxe hortelã da horta dele. Gente! Não é super anjo da guarda? Vou começar uma petição pra concederem ao Gil o título de anfitrião honorário de Curitiba.

Fui comprando as coisas que precisava aos pouquinhos. O que foi bem divertido porque cada nova aquisição era motivo de uma festa interna. Chegava em casa e era: u-hu, tenho cabides! lálálá, uma tábua de passar roupa! yessss, consegui um liquidificador! (esse consumo particularmente foi bastante comemorado e, na seqüência, “tivemos” sessões diárias de sucos de diferentes frutas, que até hoje fazem sucesso)

A melhor coisa de todas é poder chegar ao hospital em 7 minutos andando. Eu durmo menos, tenho menos tempo pra me alimentar direito, estudo mais, sou dona de casa dedicada e ainda assim me sinto menos cansada do que no Rio. O que, a meu ver, prova o quanto o trânsito carioca suga minha energia e meu humor.

Meu hospital só atende criança, é o hospital infantil com o maior volume de pacientes, cirurgias e procedimentos do Brasil. É referência pra uma série de patologias e tudo funciona, um médico me disse uma vez: “parece primeiro mundo”. As pessoas vêm do sul inteiro (em alguns casos, de vários cantos do país) pra serem tratadas no Pequeno Príncipe. Só lá na ortopedia devem ser umas 90 crianças por dia, sem contar as emergências. As idades variam. É interessante: você atende um bebê de 1 mês e depois um adolescente todo grandão e desengonçado de 16. Tem uns 10 residentes homens e só mais uma menina além de mim. São todos bem figuras e divertidos. E tem os chefes. Tem o chefe-mor e os outros chefes, cada dia é um. Tem uma que é a mais brava de todas e distribui broncas e lições. Tenho medo dela.

Antes de eu vir pra cá, as pessoas me advertiram tanto sobre a frieza e a falta de educação dos curitibanos que vim tão psicologicamente preparada, pra ser ignorada ou mal tratada, que estou achando todos eles uns amores. Ou vai ver é o carioca é que anda anormalmente mal humorado nos últimos tempos…

Mas, pra começar, os curitibanos são incrivelmente pontuais. Logo que cheguei liguei pro chaveiro pra que ele viesse trocar o segredo e pra companhia de telefone, pra instalarem a minha linha. Os dois disseram que viriam no dia seguinte pela manhã. Só que, no Rio, isso significaria que um deles chegaria na hora do almoço (a 1 da tarde) e o outro só lá pelas 5. Então já sabia que ficaria o dia inteiro em casa. Deixei a faxina e uma parte da louça pro dia seguinte, em que certamente ficaria presa esperando os caras. Às 9 horas em ponto tocou meu interfone, era o chaveiro. Que resolveu rápido o lance do segredo. Fiquei maravilhada. Ainda mais porque às 10:15 chegou o técnico pra instalar o telefone. E ao meio-dia eu estava livre pra sair pra passear e resolver mais coisas. Não é incrível?

Por outro lado, não existe aquela informalidade generalizada carioca. Outro dia estava no shopping e fiquei impressionada com umas meninas de uns 14 anos usando mais maquiagem do que já usei em toda a minha vida. No shopping! Às 2 da tarde! E também tem essa coisa de todo mundo tratar os outros por senhor e senhora. Tenho que me policiar pra não parecer abusada tratando o chefe por “você”. Me lembrei de uma vez em que abri o Lonely Planet do Rio, na Argumento, e tava escrito assim: primeira coisa que você precisa saber sobre o Rio de Janeiro – é a cidade mais informal do mundo.

Mas aviso, essa cidade aqui tem todo um charme, um je ne sais quois e corre o sério risco de me conquistar.

Internato X Residência

novembro 14, 2006

As pessoas costumam ficar bastante confusas com esses termos científicos complicadíssimos da medicina. Vou deixar aqui uma explicação (de uma vez por todas!) e, dessa forma, os amigos de médicos-to-be podem gratuitamente rever esses conceitos toda vez que tiverem dúvidas.

Bem, primeiro, uma breve introdução: a faculdade de medicina no Brasil é realizada em 6 anos. (Ou 12 períodos, se você é daqueles que não conseguem pensar em anos). Os 2 primeiros anos compõem o infinitamente chato “ciclo básico”. Aulas cuspe-giz intermináveis de 3 horas, provas com uma quantidade descomunal de decorebas, professores com egos gigantes. A maior parte das pessoas que eu conheço pensou em desistir da faculdade nesse início porque é chato pra caramba mesmo! Lógico que sempre tem uma matéria ou outra que a gente gosta e talvez sejam essas exceções que nos deixam chegar no 3º ano. Que é onde tudo fica bom. Porque a gente começa a ver paciente, a aprender como se examina, como se faz a história (da doença e do doente). No 4º ano a gente já começa a diagnosticar as doenças (pelo menos as mais simples), escrever em prontuário e discutir com os médicos que exames vão ser pedidos, qual é o melhor tratamento… Só que a gente faz isso de manhã e à tarde continua tendo aula mesmo, pesada, muita matéria, muita prova. Só que a essa altura você já é um mestre da cola (admiro com uma pontinha de inveja os gatos pingados que chegam ao 8º período fazendo provas honestamente, porque com aquela enxurrada de assuntos pra estudar e o tempo proporcionalmente escasso não vejo outra saída que não a consulta ao colega do lado, quando possível).

Depois disso vem o internato. Ele nada mais é que os 2 últimos anos da faculdade (ou o último 1 ano e meio, dependendo da faculdade). O internato é aquele período em que a gente ganha mais responsabilidade, tem que cuidar de 1 paciente (ou mais, dependendo de quão cheia esteja a sua enfermaria) globalmente e tem muito menos aulas e provas. É um período ao qual muita gente se refere como O Paraíso, dentro de um curso desgastante como medicina. E no meu caso é assim: no quinto ano a gente vai direto de janeiro a dezembro, sem parar (muitas vezes sem feriados ou fins de semana, em que temos que passar visita nos nossos pacientes). E passa 12 semanas em cada uma das grandes áreas (Clínica Médica, Pediatria, Ginecologia & Obstetrícia e Cirurgia). No 6º e último ano podemos ficar 5 meses no hospital que quisermos e no serviço que bem entendermos (é o chamado internato optativo), dependendo da área na qual queremos nos especializar. Quem quer cardio pode ir pro Laranjeiras; quem quer oncologia tenta o Inca; quem gosta da área de pesquisa fica na Fiocruz; quem quer dermato reza pra ter CR pra ir pra disputada enfermaria do Azulay, na Sta Casa, etc, etc, etc… Tem gente que inclusive passa essas 20 semanas em algum serviço maneiro fora do estado ou país.

Depois temos mais 5 meses de internato obrigatório, com grade fechada, e passamos por especialidades que (a não ser que queiramos seguir alguma delas) nunca mais veremos: dermato, dip (doenças infecto-parasitárias), otorrino, oftalmo, psiquiatria e medicina preventiva. E aí termina o ano em outubro, a tempo do pessoal se dedicar integralmente às terríveis provas de residência. Porque medicina é um vestibular pra entrar e outro (pior) pra sair. Enquanto isso, tem formatura, juramento hipocrático, CRM, tudo aquilo. Pronto, você é médico generalista.

Só que você tá prestando concurso pra sua especialização (residência = especialização). E, uma vez que você passa nesse vestibular pra algum hospital, pronto, você é médico residente.

Me dá nervoso quando alguém pergunta:

– Ele é médico ou é só residente?

Caramba: residente é médico! Tá formado, tem carimbo: pode pedir exame, prescrever qualquer tido de remédio, dar atestado, entre outras utilidades públicas.

Então vamos acabar com essa dúvida: o interno é acadêmico ainda, está em algum lugar dos 2 últimos anos da faculdade. O residente é médico recém-formado e, durante 3 a 6 anos (dependendo da especialidade), vai ser um dos seres humanos mais explorados do mundo, trabalhando uma carga de 60 horas semanais (sem contar, muitas vezes, com umas 24 horinhas básicas de plantão) e ganhando 1.600 reais. Parece que ano que vem vai aumentar pra 2.200, mas isso é assunto pra outra hora.

Mas quando eu passei umas semanas na pediatria do Hospital dos Bombeiros e o cara da portaria perguntava se eu era residente pra poder estacionar lá dentro eu bem dizia que sim porque eu é que não ia parar o carro debaixo da Paulo de Frontin : )