Archive for the ‘Posts sobre tudo’ Category

das belezas da vida que a gente encontra na rede

agosto 15, 2007

1:

Me and You and Everyone We Know

Semana retrasada assisti em DVD “Me and you and everyone we know”. É um filme experimental, da Miranda July, que além de ser a atriz principal (interpretando ela mesma: uma artista contemporânea cheia de camadas) ainda é a roteirista e diretora do filme. E, sabe, fiquei encantada. A história é simples, mas a seqüência de imagens e de acontecimentos banais (que se tornam extraordinários aos olhos de algumas pessoas excêntricas) exploram temas sensíveis (como divórcio, pedofilia e solidão) de uma forma que eu nunca tinha visto. Talvez aqui e ali, salpicado em outros filmes, como a cena do saco em “Beleza Americana”, quando ele diz: “Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it, like my heart’s going to cave in.” Eu acho que sou uma viciada incoercível na busca por essa sensação que ele descreve. Eu quero sentir, quero me deixar atropelar, quero ser desintegrada por uma beleza galopante. E que, quando eu conseguir me levantar ou me recompor em moléculas, quero ainda estar sob o efeito embriagante das coisas incríveis. E, assim que ele passar, eu sei que vou precisar de mais.

O que me lembra de “Candy”, que vi outro dia. Sobre outro tipo de dependência. Dois viciados em heroína e no amor sem fundo que sentem um pelo outro embarcam naquela jornada sem volta que a gente já viu em Réquiem. Como diz o personagem do Geoffrey Rush no filme: “When you can stop, you don’t want to. When you want to stop, you can’t.” É verdade que eu não estava esperando muito, mas me surpreendi imensamente. Esse filme é mais lírico que Réquiem, mais frágil, cheio de recursos visuais maravilhosos com música doída, a atuação entregue do Heath Ledger e preciosidades australianas: a fotografia, os sotaques. A Candy (linda, luminosa e loura) e o Danny vão alimentando o vício e consumindo tudo o que era genuíno: o amor, os sonhos, os valores, a ingenuidade. A gente sabe como termina. Mas mesmo assim parece que acabou de ver uma coisa deprimentemente linda.

Candy (2006)

mas depois de assitir “me and you and everyone we know” resolvi googlar a diretora. cheguei ao blog dela, que é mais uma forma de divulgar o próprio trabalho, o livro que ela escreveu, a agenda de exposições pelos próximos meses, os projetos e instalações dos quais ela participa, etc. mas, de lá, encontrei um link pra outra coisa da qual não páro de falar ultimamente.

2:

Constelação nas costas de Jovana Sarver, Philadelphia, Pennsylvania USA

Uma família de Seattle (2 pais, um filho de 20, 2 adolescentes e uma menininha de 5 anos) está completando o seu projeto: “Learning to Love You More” consiste em 63 assigments (deveres de casa?) que envolvem os mais variados tipos de sentimentos e atitudes. Algumas são altruístas, como 31 – Passe tempo com uma pessoa que está morrendo. Umas são divertidas, como 25 – Faça um vídeo de alguém dançando. Outras são emotivas, como 32 – Desenhe a cena de um filme que te fez chorar. E carinhosas como 39 – Tire uma foto dos seus pais se beijando. E há algumas ao estilo Amélie, como: 36 – Cultive um jardim em um lugar inesperado e 9 – Desenhe uma constelação com as pintinhas de alguém.

Essas tarefas foram assimiladas e executadas por gente dos 4 cantos do mundo e a família Oliver (os artistas idealizadores do “Learning to Love You More”) posta no site os resultados dos desafios aceitos por cada uma de todas essas pessoas desconhecidas que, de alguma forma, chegaram ao projeto e abraçaram a idéia. E daí os vídeos, desenhos, fotografias, músicas, gravações e relatos gerados pelas tarefas ganharão uma exposição no Bumbershoot Festival, em Seattle, em setembro. Eu fiquei encantada com esse projeto. Quero dizer, ISSO é arte contemporânea. Arte digital, interativa e cheia de desdobramentos práticos. Espero que a arte tenha superado, enfim, aquela história de expôr tijolos com um chumaço de cabelos em cima (com a transitoriedade da vida e a desintegração do homem ou explicações parecidas) e exponha mais coisas tão belas como essas, resultantes de 63 variáveis da vida.

3:

No Girl So Sweet, no DeviantArt

Papéis de parede lindos. Pra pôr no computador, no DeviantArt. E no Icon Factory. Eu não agüentava mais o mesmo papel de parede há 6 meses. Agora salvei um monte, vai dar até pra variar.

E papéis de parede lindos. Pra pôr na parede mesmo. Quando a gente tiver a nossa própria casa ; )

These Words

4:

O final de Edwards Mãos de Tesoura. Tinha me esquecido de como era lindo.

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E agora, José?

junho 19, 2007

Na minha última noite em Curitiba saímos com as meninas. Tinha aquele clima de despedida mesmo, sempre que elas lembravam que eu ia embora faziam aquela cara (que o nosso cachorro faz quando a gente tá na porta pronta pra partir), me abraçavam assim meio de lado e resmungavam: não vai embora, não. Daí a banda do lugar começou a tocar aquela música do Lulu Santos: “eu tô voltando pra casaaaa”. Eu falei pra elas: minha música! E elas fizeram a cara e toda a seqüência de novo.

Pra mim voltar pro Rio fechava o ciclo. Era um passo necessário pra poder fazer um balanço dessa coisa meio frenética e meio zen que foi morar em Curitiba. Mas não era uma coisa que doía. Aliás, acho que partir nunca dói. Quando os outros partem é que é uma sangria desatada. Ir embora é uma sensação boa, na verdade, não é? De mudança, de superação, é como se você disesse pro mundo que não precisa dele, não, e que, se der, você volta.

E agora voltei, o Rio é lindo mas a rotina se reajusta depressa, a gente percorre longas distâncias todo dia e, se consegue chegar em casa de bom humor, encontra alguém com o humor abaixo de zero e é sempre difícil não deixar a matemática tomar conta e fazer a média. Tentei mudar o meu lugar de fazer natação, porque lá onde eu fazia era aberto, então sempre que chovia ou tinha frente fria eu ficava lá sendo batendo o queixo, mas depois de ter visitado outros 3 lugares cheguei à conclusão de que lá continua sendo o melhor custo/benefício. O que posso fazer é tentar ir mais de dia. Não sei se consigo por causa dessa parte obrigatória do internato. Que, aliás, não poderia ser mais enrolativa. Comecei por uma matéria em que a gente fica 1 mês alguns dias subindo o morro e entrando em casas com agentes de saúde e tendo aulas sobre sabe-se-lá-o-quê. Outro dia a professora passou “Ilha das Flores” e quis que a gente discutisse no contexto do SUS. E todo mundo meio sem graça de expor suas opiniões. Tinha mil coisas que poderia ter dito, mas fiquei em silêncio também. Pra poder ir pra Curitiba no primeiro semestre tive que mudar de turma e agora estou em uma em que não conheço quase ninguém. É estranho ter a certeza de que vou me formar em menos de 5 meses e não conheço nem metade das pessoas que se formam comigo. Nunca troquei uma palavra sequer com pelo menos um terço. É meio triste, mas não me incomoda, na verdade.

Mas o que aconteceu foi que eu fiquei doente. Depois de tanta arrumação com mudanças e vistoria de apartamento e correria, despedidas, parabéns com 1 semana de antecedência e principalmente da viagem relâmpago à floripa pra ver o Fluminense ser campeão da copa do brasil, uma gripe me derrubou e não poderia ter sido mais inconveniente, dada a quantidade de coisa que eu tinha pra arrumar. E ainda tivemos um preju enorme porque vendemos os ingressos pro show dos LH a preço de banana.

Balanço final: uma família nova bem divertida, quilos de informações ortopédicas armazenados no hipocampo, uns 5 amigos de verdade no sul do brasil, descobrir que eu vivo tão bem e direitinho sozinha, assistir ao vivo um título nacional tricolor com direito a vaga na libertadores, várias roupas novas bonitas, uma cicatriz de um corte que eu não fui suturar e, principalmente, finalmente, aprender que a gente pode se sentir plenamente em casa. Mesmo a 800km de distância.

(muitas fotos!)

Eu ♥ Balneário do Caos

maio 6, 2007

Tomei uma decisão:

quero ver assim tambem

quero viver o rio.

é.

que nem a camila pitanga. ela disse na entrevista: “faço hidroginástica, ioga e musculação. corro na lagoa, não fico muitos dias sem ir à praia e adoro caminhar nas paineiras. vivo muito o rio.” Mora na Gávea e está se mudando pro Jardim Botânico. Essa última parte, bem, eu vou ter que pular. O problema é que morar na Barra é tão consumptivo que a gente se esquece do resto da cidade toda. E aprendi que isso é uma heresia. Sabe? Um dia percebi que todas as pessoas de Curitiba têm uma fascinação doída pela minha cidade. Então pensei: não é possível, tem alguma coisa errada comigo. (E com a minha família e com os meus amigos.) Pensando nisso, nesse último fim de semana em que estive no Rio pra ir tirar a foto de formatura acho que enxerguei a cidade com os olhos mais de-turista que eu já tive.

Fui pra Santa Casa domingo de manhã cedinho. A névoa tomava conta da cidade, como disse a Marisa Monte na primeira música do disco colorido dela. Mas aos poucos ela se dissipava e eu não precisava mais dos óculos escuros. Nenhuma nuvem no céu. O mar brilhava ali, visto do Elevado do Joá. Tinha inversão térmica no horizonte, mas com aquilo eu estava acostumada, olhei que nem local, não como turista abobalhada. Depois fui pela Lagoa, que estava mais bonita do que eu me lembrava que ela era, e como ela ficava silenciosa e serena às 7 da manhã de um domingo. Peguei o Humaitá e depois o Aterro. O Pão de Açúcar não parece ter sido pintado ali naquele céu azul, às vezes? Aquela parte final do Aterro tava fechada. Não faz mal, fui por dentro do Flamengo. Ali tem que ter cuidado porque tem muito Pardal. Tinha uma médica entrando no Fernandes Figueira. Depois passei ali na rua do consulado americano, tudo vazio, aquele centro fantasmagórico dos fins de semana. A Santa Luzia tava interditada. Não faz mal de novo, faço umas voltinhas, uma baianada e pronto, chego na Santa Casa. Pra encontrar aqueles amigos com quem eu vou me formar. Um monte de gente com quem eu não tenho muita afinidade. Mas por quem eu tenho carinho. É engraçado isso, a faculdade passa depressa e, se a gente não estabelece laços estreitos ao longo dela, não vai ser nos 45 do segundo tempo que a gente vai recuperar o degrau. De repente, quando estava quieta, na minha posição de baixinha-privilegiada da foto de turma, esperando o fotógrafo acertar o pessoal lá de trás que estava torto, me dei conta de que não vou levar mesmo muita gente dali. Uns 3 ou 4, se muito. E, na verdade, que estranho, não sinto nostalgia ou remorso de nada. Fica uma ternura daquilo tudo. Talvez baste. Um caipira me falou uma vez: a vida é um rio que só vai pra frente, nunca pra trás.

Voltei pra casa pela orla. A outra pista estava reservada aos pedestres, ciclistas, patinadores, malabaristas, pernas de pau, anônimos, famosos, bebês e velhinhos. Escolhi a Niemeyer. Me deixei ficar embriagada por aquelas cores saturadas todas da cidade e pegamos 1 hora e meia de praia antes de dar a minha hora de me mandar pro Galeão. A água estava gelada mas sempre vale à pena. Estava transparente e cheia de piscinas. Comemos biscoito globo e tomamos mate. Que instituição, isso.

Então, graças à Camila Pitanga e à população de Curitiba, eu acho que estou conseguindo enxergar a minha cidade através do caos e da violência. Porque, apesar de tudo, é minha, é linda. Não sei quanto tempo dura o barato (até meu primeiro engarrafamento de 2 horas e meia ou até a primeira ignorada-básica pelo padeiro ou pelo feirante ou alguma outra coisa um pouco mais pessoal), mas espero que ele não vá mais embora. E traga aquela luzinha de esperança, de vontade, de respeito mútuo. Assim: Eu quero tentar dar certo com essa cidade.

Então diante de vocês, minhas testemunhas, de quem eu quero ganhar um abraço quando eu voltar mesmo, daqui a 4 semanas, uma lista de carioquices, algumas eu já fiz há tempos, outras nunca. Mas tudo isso eu quero viver, mesmo que em doses homeopáticas, culpa da rotina apertada. Mas uma coisa de cada vez, sem pressa mesmo. Pra poder respirar o Rio através da fumaça, através do jornal, através de tudo o que se fala e se sabe de mal. Dessa cidade que a gente odeia quase tanto quanto ama.

1 – ir à praia em ipanema

2 – subir no cristo

3 – caminhar nas paineiras

4 – tomar café da manhã no parque lage

5 – andar de pedalinho na lagoa

6 – passear na pista claudio coutinho

7 – ver nascer do sol no arpoador

8 – andar de bondinho

9 – chorinho em laranjeiras

10 – samba na lapa

11 – aproveitar a vista do parque das ruínas

12 – conhecer uma praia de niterói

13 – ver vitória régia e orquídea no jardim botânico

14 – pedra da gávea

15 – espiar maratonas

16 – ir ao burle marx

17 – comer biju na feira de são cristóvão

18 – andar de bicicleta na orla

19 – dar um pulo na floresta da tijuca

20 – a ilha fiscal

21 – fazer o tour do castelinho da fiocruz

22 – ir ao planetário num dia em que tenha observação

23 – lanchar nos quiosques novos de copa

24 – outeiro da glória

25 – caminhar no aterro num domingo

26 – ir à praia no grumari

27 – simplesmente contemplar

There is no place like home

abril 20, 2007

dorothy tinha razão

Por onde começar?

Se me ausentei um pouco não foi por falta de assunto. Muitas coisas têm acontecido, mas tenho tido mesmo pouco tempo para esse piegas e querido relato fielmente enviesado de fatos e ocorridos da minha vida. Será que ela já virou fofoca? Já caiu na boca do povo? Enfim.

Depois de 2 fins de semana seguidos em família (um com eles aqui e outro comigo no Rio) o silêncio na minha casinha, assim que eu cheguei nela, parecia um pouquinho maior do que normalmente. Mas era bom chegar. E em poucas horas era como se eu nunca tivesse saído. Quer dizer, algumas lojas fecharam aqui na minha rua e proximidades. É gozado isso, nessa cidade, como as lojas, boates, bares, pet shops, comércio de rua em geral abrem e fecham de um dia pro outro. Só a Casa China mesmo que detém o império-monopólio das all-things 1.99, e nunca vai falir.

No aeroporto foi uma aventura. Saí de casa às 9:30 e meu vôo era às 10:30. Cheguei no Galeão às 10 e, quando olhei a fila quilométrica da Gol, pensei: ah, sem problemas, vou falar pra essa mulher de uniforme laranja que o meu avião decola em meia hora. Mas eu não conseguia falar com a moça, ela era muito requisitada. E eis que sai de não-sei-onde um cara simpático da Gol gritando: “Curitiba, Foz do Iguaçu, alguém?” E aí gritei eu, eu, eu, eu. Um senhor também se manifestou e aí seguimos o rapaz até uma filinha exclusiva pros retardatários. Não deu pra escolher muito o assento, eu ia falar mas o cara do computadorzinho do check-in estava mais afobado do que eu. Fiquei no 22C, corredor, o que era chato. Mas aí corri pro embarque e tinha uma filona no negócio do Raio-X. Quando tava quase chegando a minha vez era 10:15 e tomei um esporro do cara porque fiquei nervosa com as pessoas (que são muito lerdas pra colocar seus pertences naquela esteira suja) e ultrapassei a linha amarela umas 3 vezes. Finalmente passei – Ufa! Olhei minha passagem, portão 1. Fui pro portão 1 e não tinha nada, avião, gente, fila, nada. Caramba, e agora? Será que o avião foi embora mais cedo? Mas isso não pode, isso é um absurdo. Aí fiquei procurando gente pra quem perguntar, procurei, olhei, não tinha ninguém, só passageiro, que nem eu. Aí desisti de encontrar pessoas do aeroporto e perguntei pra uma mulher que estava ali vendendo cartão de crédito. Ela foi simpática (também, com a minha cara de pânico, quem não seria?) e não é que ela sabia das coisas? “Ah, esse vôo mudou de portão! É o 7.” Aí corri pro 7 e fui a penúltima pessoa a entrar no avião. Tinha uma pessoa mais atrasada ainda do que eu! Mas eu sempre faço isso com vôos domésticos e sempre dá certo! Um dia eu vou ser que nem o Hurley! (essa apenas os telespectadores de Lost pegarão, minhas sinceras desculpas aos demais 3 leitores.)

Foi tão bom ter ido pro Rio. Que bom que consegui aquela passagem a 50 reais e não pensei duas vezes (só liguei pro meu pai pra checar se podia mesmo). Primeiro fiz todas aquelas mil coisas mulherzinha e disse pra minha manicure, pra minha depiladora e pra minha sobrancelheira que não existem manicures, depiladoras e sobrancelheiras como elas em Curitiba. E elas ficaram contentes. E a minha manicure até me deu uma xícarazinha pintada a mão e uma barra de chocolate, que fofa. A Bessie também pareceu mais feliz em me ver dessa vez do que da última e fiquei com dó quando ela me esperou na minha cama na primeira noite, em que eu não ia dormir em casa. Almoçar com a minha mãe na 6a e com meu pai e irmã no sábado e ficar 2 horas conversando é um troço que você só se lembra como é especial quando todos os seus almoços de fim de semana são sozinha, no máximo assistindo seriados ou notícias, pra tirar a seriedade do troço. Engraçado como as coisas rotineiras ganham importância quando elas subitamente desaparecem. E os meus amigos mais queridos, que não vão me chamar de super-nerd quando eu falar que queria uma mapa mundi gigantesco na parede da minha casa, que não vão achar esquisito falar de umas bandas e filmes e shows e que têm as melhores piadas, aquelas que eu não preciso fingir que estou achando engraçada só pra ser simpática. Também fui ver o apê novo da minha vó, que tá ficando um barato e a cara dela e fiz um videozinho maneiro dela na piscina tomando banho na cascatinha e do meu vô fazendo um mini-discurso (ele adora). Estou curiosa pra saber como vai ficar quando estiver tudo pronto, talvez já possamos estrear no dia das mães, que por acaso coincide com o aniversário da minha avó.

Outro dia fui à arena com o chefe. Primeiros comemos aquela pizza deliciosa que vem dentro da focaccia, que só tem aqui na cidade. Depois fomos eu, o chefe e sua família (que agora é um pouco minha também): a mulher e a Ana. Foi bem divertido, o jogo era Atlético X Cianorte, pelo campeonato paranaense. O estádio é tão bonitinho, todo limpo, as cadeiras vermelhas envernizadas, brilhando, em nada lembra o trash (porém querido) maracanã. Fico impressionada como gosto de ir assistir jogo em estádio. O mais legal é a fauna. Tinha uma menina na nossa frente que, a cada 5 minutos, parecia que ia infartar. (E eu achava que o doutor chefe é que era atleticano doente, ele se divertia calmamente, que nem eu.) Do nosso lado também tinha uns caras super hilários, com xingamentos dos mais criativos. Me lembrei daquele jogo que assisti nas Laranjeiras, contra o Bangu, com o meu tio fanático, que chamou o goleiro adversário pra dizer que ele tava parecendo uma balairina, entre outras coisas. Fiquei pensando também como deve ser legal ter um estádio pertinho de casa e seguro e poder ir quase toda semana ver os jogos.

As cirurgias têm sido interessantes. Outro dia entrei numa amputação…
Era uma menininha de 3 anos que nasceu sem um dos ossos da perna (a tíbia), nas duas pernas, e aí amputamos os pés dela (ela andava com os joelhos) pra, no futuro, colocar uma prótese pra que ela possa andar como todo mundo. Não posso dizer que foi uma cirurgia bonita. Era visível que, no fundo, o cirurgião não estava gostando de estar ali, fazendo aquilo. Aí, à noite, quando contei isso pro meu pai, ele disse: “ah, filha, ninguém gosta.” Cada especialidade tem o seu calcanhar de aquiles, eu acho…

Tem várias outras histórias de gente. Teve a menina que foi picada por uma cobra e teve síndrome compartimental e precisaram abrir a perna dela de urgência ou ela perderia o membro. Teve o bebê de 2 meses que eu atendi hoje mas que não tinha nada. Teve o menino de 16 anos de moicano e cheio de piercings que era filho adotivo e tinha um cisto na mão. Teve o Norton, que tem 4 anos, é uma espoleta e vai operar o outro pé dessa vez. Tem uns que só choram, tem outros que têm mães desesperadas, mas tem tantos legais.

Adoro quando dá pra voltar pra casa pra almoçar. Porque dou uma estudada, uma descansada e vejo um episódio de Felicity enquanto como. O que, aliás, é muito 1999! Eles gravavam fita uns pros outros e achavam o máximo aquele mac grandão todo meio transparente e colorido. Mas eu ainda gosto de Felicity, quão mongol uma pessoa pode ser?

Aliás, falando em seriados, minha vida agora está completa aqui: descobri uma anestesista que também vê lost e também baixa os episódios! Em quase 3 meses aqui, eu ainda não tinha mencionado o seriado pra ninguém, porque estava evitando aqueles olhares de: “ok, você é uma pessoa estranha.” Mas aí ela estava falando de Lost outro dia e eu não me contive e aí meu plano foi todo por água abaixo! 3 meses de esforço e trabalho na minha auto-imagem para nada! A cirurgia já tinha acabado e a gente estava só fazendo um gesso quando a Dra. Anestesista entrou na sala perguntando se eu já tinha visto o episódio de ontem. Aí ela começou a falar de como o episódio tinha sido foda e de como que eu tinha que ver pra gente comentar e blalabla, mas eu disse que só ia baixar 6a à noite porque o meu namorado estava vindo nesse fim de semana e ele ia ficar chateado se eu não esperasse pra ver com ele. Ela falou: “não, mas você tem que ver logo! Depois você assiste de novo, com ele! Você não vai agüentar esperar até sábado!” Poxa! Assim não dá. Sabe o diabinho da sua cabeça, que fica te tentando com as coisas? Mas aí eu mudei de assunto rápido e me deixei levar pela empolgação da identificação e a gente ficou falando de como o Charlie não deve morrer e do que pode acontecer com a Sun pelo fato de ela estar grávida na ilha e das visões do Desmond. E aí, foi bem aí que meu segredo foi revelado e 2 residentes + o chefe descobriram que eu sou uma mega nerd esquisita. Porque eles perguntaram: do que diabos vocês estão falando?
Tá vendo? Tanto esforço pra parecer uma pessoa normal… tudo em vão! Eu sou mesmo uma loser de não ter resistido e ter feito uma amiga (ela deve ter uns 30 e muitos) só pra falar de Lost.

Mas, de todo jeito, depois de tanta verborragia (e de vários dias escrevendo cada vez um pouco desse post), penso que ter ido pra casa foi mesmo a melhor coisa que eu poderia ter feito no fim de semana passado. Engraçado, porque parece que já faz tanto tempo. E, quando eu cheguei lá, parecia que não ia há séculos. Parecia que eu não me lembrava mais das cores e do cheiro e da luz da minha casa. Você estranha algumas coisas: como o box do banheiro é maior, como o armário está vazio, como o arroz é soltinho. Mas sem perceber você se acostuma, você percebe que está tudo do jeito que você deixou. E a rotina parece estar toda lá: o cantinho fresco em que a bessie gosta de ficar, espremida entre a mesa da cozinha e a parede. O barulho escandaloso do motor do carro. O sorriso simpático do porteiro. As seções do jornal espalhadas pelos cantos. Alguma coisa que está lá sem funcionar há um tempão (sempre tem alguma coisa que não funciona e que vai sendo ignorada até que se tome uma atitude a respeito, no caso é o forninho;). O vento cantando no final da tarde. Que importante, isso tudo…

Por isso senti uma alegria, um conforto (sabe aquele colo que vez ou outra a gente ganha da mãe ou aquele abraço de urso com o qual o pai nos surpreende?) quando recebi o email do menino da comissão de formatura, falando que a foto da turma de formandos vai ser no dia 6 de maio. O que significa que vou ao Rio dois fins de semana seguidos, porque já tinha comprado passagem pro dias das mães em fevereiro. E sabe? Que bom.

E aí tem aqui também. Aqui eu tenho barulho ou não, comida ou não, estudo ou não, sono ou não. Tomo banho com a porta do banheiro aberta. Expulso (liberto?) educadamente as mariposas que entram pela varanda. Apanho as roupas no varal ainda quentinhas do sol. E sinto uma brisa geladinha todo dia de manhã cedo, nos 10 minutos em que ando, sem música sem nada, só com os carros e as pessoas, até o hospital. Sempre presto atenção no tempo, nos sinais, nos outros pedestres. Sempre passo por uma praça onde as pessoas às vezes estão caminhando mais depressa do que eu. Mas não tem importânica. Porque, sabe? É sempre só minha, essa caminhada.

É só minha essa sensação de chegada e partida. E a permissão (ou seria uma decisão?) de confundir as duas.

Estar em casa é bom. É meio maravilhoso, na verdade.

Sob nova direção

fevereiro 5, 2007

Meu namorado veio e, com ele, meu computador. Agora mando notícias por aqui, em textos que já estavam escritos, só esperando chegar o envelope com selinho pro mundo.

Quando cheguei aqui descobri que tenho um anjo da guarda no Paraná. Que se chama Gil. Foi me buscar no aeroporto (eu e meus 60 quilos de excesso de bagagem), me levou até a imobiliária e depois de lá até em casa, me ajudou a conseguir telefone, me ensinou um atalho pra uma rua super fofa, me levou ao supermercado e a lugares baratinhos pra comprar panelas, tupperware, numa rua de móveis usados onde fiz um ótimo negócio comprando uma escrivaninha. Me concedeu um tour gratuito e cheio de comentários curiosos pelo centro, me deu um modem, um telefone e uma cadeira. E ainda me trouxe hortelã da horta dele. Gente! Não é super anjo da guarda? Vou começar uma petição pra concederem ao Gil o título de anfitrião honorário de Curitiba.

Fui comprando as coisas que precisava aos pouquinhos. O que foi bem divertido porque cada nova aquisição era motivo de uma festa interna. Chegava em casa e era: u-hu, tenho cabides! lálálá, uma tábua de passar roupa! yessss, consegui um liquidificador! (esse consumo particularmente foi bastante comemorado e, na seqüência, “tivemos” sessões diárias de sucos de diferentes frutas, que até hoje fazem sucesso)

A melhor coisa de todas é poder chegar ao hospital em 7 minutos andando. Eu durmo menos, tenho menos tempo pra me alimentar direito, estudo mais, sou dona de casa dedicada e ainda assim me sinto menos cansada do que no Rio. O que, a meu ver, prova o quanto o trânsito carioca suga minha energia e meu humor.

Meu hospital só atende criança, é o hospital infantil com o maior volume de pacientes, cirurgias e procedimentos do Brasil. É referência pra uma série de patologias e tudo funciona, um médico me disse uma vez: “parece primeiro mundo”. As pessoas vêm do sul inteiro (em alguns casos, de vários cantos do país) pra serem tratadas no Pequeno Príncipe. Só lá na ortopedia devem ser umas 90 crianças por dia, sem contar as emergências. As idades variam. É interessante: você atende um bebê de 1 mês e depois um adolescente todo grandão e desengonçado de 16. Tem uns 10 residentes homens e só mais uma menina além de mim. São todos bem figuras e divertidos. E tem os chefes. Tem o chefe-mor e os outros chefes, cada dia é um. Tem uma que é a mais brava de todas e distribui broncas e lições. Tenho medo dela.

Antes de eu vir pra cá, as pessoas me advertiram tanto sobre a frieza e a falta de educação dos curitibanos que vim tão psicologicamente preparada, pra ser ignorada ou mal tratada, que estou achando todos eles uns amores. Ou vai ver é o carioca é que anda anormalmente mal humorado nos últimos tempos…

Mas, pra começar, os curitibanos são incrivelmente pontuais. Logo que cheguei liguei pro chaveiro pra que ele viesse trocar o segredo e pra companhia de telefone, pra instalarem a minha linha. Os dois disseram que viriam no dia seguinte pela manhã. Só que, no Rio, isso significaria que um deles chegaria na hora do almoço (a 1 da tarde) e o outro só lá pelas 5. Então já sabia que ficaria o dia inteiro em casa. Deixei a faxina e uma parte da louça pro dia seguinte, em que certamente ficaria presa esperando os caras. Às 9 horas em ponto tocou meu interfone, era o chaveiro. Que resolveu rápido o lance do segredo. Fiquei maravilhada. Ainda mais porque às 10:15 chegou o técnico pra instalar o telefone. E ao meio-dia eu estava livre pra sair pra passear e resolver mais coisas. Não é incrível?

Por outro lado, não existe aquela informalidade generalizada carioca. Outro dia estava no shopping e fiquei impressionada com umas meninas de uns 14 anos usando mais maquiagem do que já usei em toda a minha vida. No shopping! Às 2 da tarde! E também tem essa coisa de todo mundo tratar os outros por senhor e senhora. Tenho que me policiar pra não parecer abusada tratando o chefe por “você”. Me lembrei de uma vez em que abri o Lonely Planet do Rio, na Argumento, e tava escrito assim: primeira coisa que você precisa saber sobre o Rio de Janeiro – é a cidade mais informal do mundo.

Mas aviso, essa cidade aqui tem todo um charme, um je ne sais quois e corre o sério risco de me conquistar.

palavras, momentos

novembro 30, 2006

Por que é tão difícil falar sobre o que se sente?

Explorar essa mina confusa que pode ter diamante e pode ter morcego. Explicar o que eu sinto quando estou junto de umas pessoas que me fazem não ter medo de nada, que me fazem achar que todo o percurso acabou e que, agora, o fim e o começo se sobrepõem porque todo aquele tempo dedicado aqueles seres humanos fantásticos é infinito e não há mais nada além daqueles momentos em que a gente se sente mais viva. Como é que eu explico prum sujeito o quanto o amo? Qual a melhor forma de expressar decepção, desilusão, fracasso? Quando acordo cedo e ele dorme que nem um anjo logo ao lado, o que eu sinto? Não sei dizer. Quando o silêncio se instala a gente se comunica melhor. Mas, mesmo assim, existe uma necessidade, uma sensação de vazio, que faz com que se estabeleçam canais e, através dele, a linguagem. Mas não há como saber que aquilo que você tenta expressar será compreendido. Em verdade, não há nem mesmo como ter certeza de que existe uma consciência além da sua. Assim, estabelecer contato é sempre um risco que se decide correr. E talvez o sucesso não esteja na conexão total, e sim na conexão em si.

Enquanto se tenta escrever o próprio roteiro, definir a posição dos personagens, quem entra quando, a vida vai passando num rio que só corre pra frente. E é o que a gente encontra no caminho (e não o destino, o fim, a foz) que viabiliza toda a navegação. E como saber que não se nada contra a correnteza? Como ter qualquer certeza se tudo é impressão? Uma sensação que gera uma reação que gera uma impressão. Por que é tão difícil enxergar e acreditar e admitir que não existe a verdade, que não existe o correto?

me lembro muito disso, acho que é uma das melhores partes do filme: