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É permitido chorar em despedidas

junho 8, 2007

obrigada por ter sido um exemplo tao imenso

Minha bisa morreu.

Ela tinha 102 anos e teve uma pneumonia. Foi pro CTI, ficou melhor (aquela melhorada, sabe, aquela da qual a gente da área médica sente um medo) e o coração dela desistiu. Imagina.. Ficar 102 anos batendo, sem parar, sem descansar, só trabalhando, trabalhando…

Fiquei triste. E na verdade escrevi esse post assim que meu avô me deu a notícia, no domingo. Mas, por alguns motivos, só estou publicando agora.

O que a gente deve pensar quando acontece isso? A gente diz assim: “foi melhor, ela descansou, estava sofrendo.” Mas será que não é uma hipocrisia falar uma coisa dessas?
Bem, definitivamente é uma forma de a gente tentar se sentir melhor. E de tentar confortar o outro, que é alguma coisa que sempre deve ser tentada, não importa muito como.

Acho que essa é a coisa mais difícil pra se pensar sobre. Talvez como meu avô disse (e achei tão bonito): ela foi muito boa, está do lado de Deus. Talvez se tivéssemos aprendido budismo na escola teríamos outra lógica de pensamento, outra manifestação de fé. Mas acho que o sentimento seria o mesmo. Que, no caso, é: não tenho mais minha bisa.

Me lembro da festa de 100 anos que a gente fez pra ela. Foi tão legal. Minha mãe fez uma montagem de fotos antigas e a gente comemorava cada vez que ela reconhecia alguém nas fotos.

No final da festa, depois de já ter dançado, comido, bebido, soprado velas, rido e se esbaldado, ela começou a trocar um pouco as bolas e apontou pra mim e disse assim pro meu tio:

– Ela é sua namorada?
– Não, vó! É a Nanda, a sua primeira bisneta…
– Ah! Nanda!
e me abraçava…
10 minutos depois:
– É sua namorada, Arthur?
– Não, mulata. Ela é a filha da Branca!
– Ah! É?
e sorria e me abraçava..
5 minutos depois:
– Ela é sua namorada?
– É, vó. É minha namorada.
– Que linda! Mas é muito bonita, a sua namorada! Parabéns…
e me abraçava mais do que das outras vezes.

🙂

E quando as pessoas que eu amo tanto de amor forem deixar essa vida eu realmente não sei o que vou fazer com a minha. Mas é como meu pai disse, um dia, meio triste, se lembrando do meu avô: “ah, nanda… é uma saudade que nunca passa.”

De qualquer forma, não importa a idade. Se ainda está dentro da barriga ou se é uma velhinha linda de 103 anos. Sempre parece cedo demais.

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