Archive for the ‘Saúde’ Category

Degrau por Degrau

maio 13, 2008

A residência médica é umas 10 vezes mais concorrida do que o vestibular, pra algumas especialidades. Pra outras, não. Por exemplo, esse ano sobrou vaga pra Pediatria. O negócio é que você, depois de ralar 6 anos pra se formar nesse outro plano de existência que é a medicina, quer fazer residência em um lugar bom. Você quer se dar a esse luxo. E são nesses lugares bons em que a concorrência é pior do que o vestibular. E é nesses lugares bons que você vai deixar de ter vida, sábados, domingos, feriados, enfim, você vai pertencer a um hospital. E ainda vai ter que ter todas as respostas na ponta da língua pra não ganhar um olhar de desprezo ou umas palavras amargas de um chefe que se esqueceu como é ser residente (ou, mais provavelmente, quer vingança). Mas, paradoxalmente, é com isso que todo médico recém-formado (ou prestes a jurar hipócrates) sonha. É a famosa residência dos sonhos. Uma boa e escravizante formação.

Acontece que a maioria das pessoas não quer nem pensar no que pode acontecer caso elas não passem no concurso de residência. Pois então, vou esclarecer: a pessoa volta pro curso (ou não), e se prepare, porque é lá que a ficha cai de verdade. Vai dar uma deprimidinha e emagrecer (ou não). Seus pais vão reagir de alguma forma, pois tinham expectativas (ou não). Vai procurar um plantão de emergência ou CTI pra ganhar uma experiência e um dinheirinho (ou não). E vai tocar sua vida pra frente, vai sobreviver. Como eu estou fazendo. Essas coisas podem acontecer com maior ou menor intensidade quando se sofre uma “derrota”. Eu caí num buraco que parecia não ter fim, me entreguei à angústia, a um desespero avassalador.

Mas cortei o cabelo, abri um blog-brechó, me apaixonei pelo budismo, entrei na terapia e estou subindo, estou tentando rise above. Degrau, por degrau.

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Feliz agora que mamou?

agosto 31, 2007

o david tem 4 meses e internou com pneumonia. não conseguia respirar, ficava roxo, tinha febre. no fim de semana o pulmão dele colabou. tiveram que correr com ele pro centro cirúrgico pra colocar um dreno e tirar o líquido e o ar que estavam dentro do tórax. já está há alguns dias tomando antibiótico na veia (por isso o curativo estranho no bracinho). estava tão mal, tão mal que, quando cheguei na enfermaria e o encontrei todo calmo depois de ter mamado (antes ele também não conseguia mamar, tamanha era a dispnéia) fiquei tão contente que fiz um videozinho dele.

Quando a gente descobre que não é de ferro

novembro 7, 2006

Há dois anos atrás, eu tinha essa queimação no peito. Vinha depois de comer (tem gente que chama de azia, mas eu detesto a sonoridade dessa palavra) e durava uns 20 minutos. Fui à médica.

– O que te traz aqui?

– Ah, eu acho que estou com refluxo gastro-esofágico.

Estudante de medicina é assim: já chega se queixando do diagnóstico. Fazer o quê?

E era mesmo. Tratei.

Dois anos e meio depois voltaram os sintomas. Junto com eles, vieram uma plenitude pós prandial horrível. Traduzindo: eu comia uma refeição comum, um macarrão ou só uma salada com frango grelhado e parecia que eu tinha comido um boi inteiro. Ficava aquela sensação horrível, como se a gente estivesse cheia de entulho por dentro.

Voltei na médica.

– Nossa, quanto tempo a gente não se vê!

– Pois é, 2 anos?

– Um pouco mais. O que está acontecendo dessa vez?

– Acho que o refluxo voltou.

Ela me mandou fazer uma endoscopia. Eu fico nervosa quando tenho que fazer endoscopia. Meu pai entrou comigo e ficou de olho no oxímetro (aquele pregadorzinho que colocam no dedo da gente pra ver se o oxigênio está sendo bem aproveitado), que também dá a nossa freqüência cardíaca. A gente esperava o médico chegar. Meu pai olhou pro monitor e disse assim: toda vez que abrem a porta sua freqüência dispara. Falei pra ele: acho que não vai dar nada, não.
O médico era atencioso e a sedação foi pancada: meperidina, midazolam e propofol. Você vai sentir como se estivesse fazendo esforço pra me focalizar, sua visão vai ficar turva, seu corpo vai ficar todo tonto e.

Acordei na salinha. Que nem da outra vez. Assim que é bom.

Só que veio no laudo: esofagite péptica grau II. Na fotinho tinha umas erosões que ainda não chegam a ser úlcera. Ainda bem. Ó:

meu esôfago doente, com erosões-quase-úlceras

Mas, né, fiquei triste. Porque (fui ler no livro) “a esofagite erosiva pode causar sangramento e cicatrizar com metaplasia intestinal (Esôfago de Barret), que é um fator de risco para adenocarcinoma”.

Poxa. Sabe? Vamos deixar esse tipo de coisa pra gente com mais de 40 anos, que já viajou pelo interior da itália, já comprou um apartamento com o próprio dinheiro e já tem 2 filhos grandes? O sujeito não precisa saber aos 20 e poucos anos que tem um troço que pode vir a ser um baita fator de risco pra câncer de esôfago. Ainda mais se faz tudo direitinho: não fuma, não bebe, come tudo saudável, faz exercício físico e dorme à noite. Ainda mais se for estudante de medicina, que “tem” todas as doenças do mundo (ano passado “tive” diabetes, doença de crohn, hipertireoidismo e rubéola). Brincadeira, mas essa inflamação no esôfago aí, isso eu tenho mesmo, olha a foto aí pra comprovar. E já cortei o chocolate, já cortei o ácido, o guaraná, até pão vou ter que cortar. A genética não se corta (minha mãe, tio e avô têm problemas de esôfago e/ou estômago). Então só falta cortar o estresse.

O problema é que já estive muito mais vulnerável ao estresse. Com sinceridade, ultimamente não tenho me achado tão estressada assim. Mas é que as coisas se acumulam. As pequenas coisas, as obrigações (até as sociais), o trânsito diário, a pressa, o cansaço, os sapos engolidos porque “não é nada pessoal” ou porque “meus problemas são muito maiores que os seus”, a preocupação com os outros, o coração que fica apertadinho quando alguém que a gente adora está sofrendo, as pressões. Pra ser organizada, realizada, saudável, bonita, bem-sucedida. Quem sofre é o aparelho digestivo. É assim mesmo. Pronto, quero ir morar no interior e criar galinhas.

Agora estou mal-humorada, de orgulho ferido porque levei bronca e começando tratamento de 6 semanas. Depois posto uma nova foto do meu esôfago: espero que no próximo exame ele esteja menos bravo comigo.